Argumento e nota introdutória.
Lá se vai um ano desde que esse blog lançou a primeira “Apostatamos!”, e esse colunista, a despeito da prolixidade irritante de seu estilo e de todo o palavrório reacionário aqui despejado, não está andando em círculos ao voltar-se novamente ao tema de nosso título. Do longínquo carnaval passado tiramos isto:
“A palavra αποστασια (apostasia) quer dizer “separação, divórcio, deserção”, logo, se nos conformarmos com o que afeta os sentimentos desse século, seu comportamento, discurso ou ações, estaremos separados dos padrões do Reino de Deus, ou seja, apostatamos! [...] O que esperamos do amanhã? É a primeira pergunta que lhes faço. A única coisa que a Bíblia diz que devemos esperar é o Reino de Deus.” ─ Apostatamos!, nº 01, 23/02/2008 [acesse on-line].
Se um ano atrás ocupei-me com o passado, voltado a 1989 e aos vícios que nos ligam ao “presente século”, na feliz coincidência da escolha de Esperança, como primeiro tema desse novo formato do Aheb, me volto ao futuro, não necessariamente o dito como futuro escatológico ou apocalíptico, mas ao amanhã tal qual como é moldado por nossas posições e atitudes hodiernas. Pensar é um posicionamento, crer é uma atitude, o que pensamos e em que cremos nesse ano de dois mil e nove? “O que esperamos do amanhã”, perguntei a meus augustos leitores no passado, “qual é nossa esperança?”, pergunto-lhes agora…
Estejam sempre preparados para responder a qualquer pessoa que lhes pedir a razão da esperança que há em vocês. Contudo, façam isso com mansidão e respeito, conservando boa consciência.” ─ 1ª Pedro 3.15a,16b, (NVI).
Boa leitura.
“Sobre a Esperança de um Tolo”
Obrigado. Obrigado a todos. Muito obrigado pelo apoio de vocês. “Uma vitória esmagadora”. É como estão chamando. Sinto muito por meu irmão não estar conosco hoje, mas o Peter ama esta cidade mais do que qualquer um. O nosso pai sempre disse que temos o dever de usar o que Deus nos deu para ajudar as pessoas e para melhorar o mundo. O papai sempre tomou decisões difíceis em prol do bem maior. Ele acreditava nisso. E eu também acredito. Os nossos filhos merecem isso. Merecem um futuro melhor. Um futuro onde não tenham que encarar os medos sozinhos. Onde possam olhar a escuridão e encontrar esperança. Peço que todos aqui sejam exemplos inspiradores. E que entrem nessa luta, custe o que custar. Porque o mundo está doente. Está fugindo do controle. Mas nós podemos ajudar. Com a nossa ajuda, ele pode ser curado. Com o nosso amor, com a nossa compaixão e com a nossa força, poderemos curar o mundo. Coloquem de lado as diferenças e abracem objetivos comuns. Vamos fazer isso pelos nossos filhos. Vamos mostrar a eles o que somos capazes de fazer. Obrigado a todos. Muito obrigado. Obrigado. ─ Discurso de Nathan Petrelli. Série de TV Heroes. 1ª Temporada, episódio 22 (40’25’’ – 42’06’’).
Todos deixaram então o Senhor da Cidade e foram descansar enquanto ainda podiam. Do lado de fora havia uma escuridão sem estrelas quando Gandalf, com Pippin ao seu lado levando uma pequena tocha, dirigiu-se para o seu alojamento. Não disseram nada até estarem a portas fechadas. Então, finalmente, Pippin tomou a mão de Gandalf. [§] ─ Diga-me – disse ele – , há alguma esperança? Quero dizer, para Frodo; ou pelo menos sobretudo para Frodo? [§] Gandalf colocou a mão sobre a cabeça de Pippin. ─ Nunca houve muita esperança – disse ele. ─ Só houve a esperança de um tolo, como me disseram. ─ Tolkien, John Ronald Reuel. O Senhor dos Anéis. Terceira Parte: O Retorno do Rei. Livro V, capítulo 4.
Essas duas frases, símbolos máximos de dois momentos (na verdade, mundos) diferentes, ilustram bem os tipos de esperança que gostaria de tratar neste Apostatamos!. Por um lado, a crença no aparentemente impossível, na mais improvável circunstância, no pior dos momentos; por outro, a plena confiança nas aparências e nas pessoas certas. Quando recebeu o Oscar de Melhor Documentário Longa Metragem, por Bowling for Columbine, em 2003, o diretor Michael Moore disse em seu discurso que os Estados Unidos viviam tempos fictícios, onde um presidente fictício, eleito em uma eleição fictícia, perpetrava uma guerra fictícia. A ironia do comentário se acentua ao fim da era George Walker Bush, quando o mundo assiste a eventos políticos que antes só eram possíveis no terreno da ficção. Parece fantasiosa também a situação desse nosso tempo. O caos chegou a tal ponto que, assistindo à edição do Jornal da Globo de 30 de outubro de 2008, fui surpreendido com o seguinte comentário: “Eu tenho a impressão de que Deus está abandonando a América”. O entrevistado era um afro-descendente, e morava numa daquelas inúmeras cidades atingidas pela Crise Financeira. Por isso, caro leitor, inicio essa nossa coluna com perícopes tiradas da mais incrível ficção, para mostrar que nosso mundo real não é tão concreto assim.
Em Heroes, o personagem Nathan Petrelli é eleito para a Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, não sem uma pequena ajuda de um grupo de pessoas que queria explodir metade da cidade de Nova Iorque. Seu discurso da vitória é entusiasta e inspirador. Me lembra, por sinal, uma fantástica interpretação de Meryl Streep:
“I’m a believer. I am an optimist. I believe in the future. And people who do, the ones who make history instead of just sitting around watching it, no, they’re willing to take the big riskis.” [Eu tenho fé. Sou otimista. Acredito no futuro. E os que crêem escrevem a história, ao invés de só olhar. Estão prontos a correr grandes riscos.] ─ The Manchurian Candidate [Sob o Domínio do Mal], filme de Jonathan Demme. © MMIV, Paramount Pictures Corporation.
A senadora Eleanor Shaw defendia nessa pequena fala o fato de ter feito com que seu filho cometesse dois assassinatos, e de estar planejando a morte do Presidente Eleito dos Estados Unidos, de quem seu filho era vice, em plena festa da vitória. Em Heroes, Petrelli aceitou ser eleito às custas de milhões de vidas inocentes. O que os dois tem em comum? Ofereciam ao mundo esperança em meio ao caos, conforto na tragédia. Raymond Prentis Shaw, na película de Jonathan Demme, seria a “Nova Cara da América”, um candidato jovem e inteligente, que resolveria todos os problemas da nação. Nathan Petrelli, o líder forte em tempos de angústia e medo.
Em seu discurso ao Congresso, Sobre o Estado da União, de 29 de janeiro de 2008, o então presidente George W. Bush disse:
Os Estados Unidos são uma força de esperança no mundo, porque somos um povo compassivo, e alguns dos americanos mais compassivos são aqueles que se mostraram dispostos a nos proteger. [...§] Ao confiarem no povo, as gerações que se sucederam transformaram nossa democracia jovem e frágil na nação mais poderosa da Terra e em uma fonte de esperança para milhões de pessoas.
A patética fala de Bush dividia-se entre a tentativa de incutir o medo, personificado nos famigerados terroristas, e fomentar a esperança, que só era possível através de sua pessoa e das ações bélicas de sua gestão. Guardadas as devidas proporções, e desacreditando veementemente de todas as teorias de conspiração da qual o governo Bush é alvo, não parece haver tanta diferença assim entre a ficção e a realidade. O que nos leva inevitavelmente à eleição de Barack Hussein Obama, de cujo discurso de aceitação da nomeação oficial de sua candidatura pelo Partido Democrata, extraímos o que segue:
E restaurarei nossa posição moral, de modo que a América volte a ser a última e melhor esperança para todos aqueles que se sentem convocados para a causa da liberdade, que anseiam por vidas de paz e que aspiram a um futuro melhor. [...§] América, não podemos voltar atrás. Não quando ainda resta tanto trabalho a ser feito. Não com tantas crianças para educar e tantos veteranos de quem cuidar. Não com uma economia para consertar, cidades para reconstruir e fazendas a salvar. Não com tantas famílias para proteger e tantas vidas para resolver. América, não podemos retroceder. Não podemos caminhar sozinhos. Neste momento, nesta eleição, precisamos prometer mais uma vez marchar para o futuro. Vamos cumprir essa promessa – aquela promessa americana – e, nas palavras da Bíblia, nos atermos com firmeza, sem vacilar, à esperança que professamos.
Esse blog é notoriamente apolítico, embora o entusiasmo da candidatura, vitória e possibilidade de um governo Obama, contagiem de maneira especial a este autor, não é possível deixar de notar que o discurso de pré-destinação da “América”, ideologia fomentada pelos colonos Puritanos, e mantida em toda tradição político-religiosa daquela nação, é evocado com uma freqüência impressionante, e na eleição do ano passado o foi por ambos os partidos.
Não restam dúvidas no que tange as dificuldades a serem enfrentadas nesses tempos. Sob nossa geração pesa a responsabilidade de reverter os males causados por um sistema financeiro cegado pelo lucro, obcecado pela vantagem pessoal, escravo do dinheiro. Somos nós que devemos invadir as livrarias e arrancar das prateleiras os livros de auto-ajuda, colecionados e idolatrados por muitos de nossos pais, reservando para sua alienação desumana uma grande fogueira em praça pública. Somos nós que devemos dizer não a formação mesquinha que recebemos, doutrinando-nos a estudar para o Mercado de Trabalho, a viver para esse grande câmbio de escravos, em que o burro de carga mais forte, o idiota mais subserviente, é sempre o melhor. A atual sociedade condena a subjetividade, assassina a criatividade abstrata, encarcera os mais nobres potenciais humanos, reduzindo mentes brilhantes a micos de circo, descascadores de banana. Tudo está errado, e os noticiários escancaram essa premissa todos os dias, mostram-nos como a humanidade se desintegra num caos de imoralidade, descaso com a vida; terrorismos, guerras, fome, morte, as páginas do Apocalipse saltam da profecia para o cumprimento, seus Quatro Cavaleiros trotam por nossas páginas de jornal. A velha Terra parece mesmo girar confusa e sem rumo, doente, fugindo do controle. Precisamos como nunca de referenciais, de um líder, de alguém que saiba o que é melhor para nós, que possa nos conduzir em direção ao certo. Nossa geração tem em suas mãos, como nenhuma outra até agora, o destino de todo o Planeta. A própria sustentação da vida na Terra depende de nossas posições em relação ao Aquecimento Global. De nossas decisões sobre a distribuição de riqueza e renda dependem milhões de pratos de comida na África-subsaariana. De nossa opção por um consumo sustentável de combustíveis, e outros recursos naturais dependem os rumos da política de investimento das grandes corporações. Ao contrário do que muitos pensam, tais arbítrios não são obrigação exclusiva dos detentores do poder político, dependem sim de nossas atitudes, menores que sejam, impotentes que pareçam. O mundo nunca se mostrou tão globalizado, e a globalização tem como conseqüência direta a criação de uma Comunidade Internacional, à qual estamos irrevogavelmente ligados, irmanados pelo mesmo sangue vermelho que pulsa em nossos sete bilhões de corações. Nossas almas obviamente não podem suportar o peso de tais responsabilidades, portanto, repito, necessitamos como nunca de alguém que nos guie, de um caminho seguro a seguir. Esse alguém é Jesus Cristo, via et veritas et vita (João 14.6, segundo a Vulgata).
Incrivelmente distante do que foi proclamado por nosso Senhor, o maior continente cristão do mundo moderno parece pender para um utilitarismo político assustador. Em 2002 o povo brasileiro ouviu de seu Presidente Eleito que “a esperança venceu o medo”, tínhamos escolhido Luiz Inácio da Silva. Em 2009 os Estados Unidos ouviram que “neste dia, estamos aqui reunidos porque escolhemos a esperança em vez do medo”, Barack Hussein Obama tomava posse como seu 44º Presidente. De maneira inédita desde a Revolução Industrial, os povos do mundo voltaram seus olhos para o Estado em busca de soluções para uma crise que parece não ter fim. Seja a social no Brasil de Lula, ou a econômica na América de Obama.
Here is what Adonai says: “A curse on the person who trusts in humans, who relies on merely human strength, whose heart turns away from Adonai” [Tradução livre: Prestem atenção no que diz Adonai (o Senhor): “Amaldiçoada seja a pessoa que confia em humanos, que conta com forças meramente humanas, que afasta seu coração de Adonai”]. – Jeremias 17.5, Complete Jewish Bible.
Confio plenamente na fé do presidente Obama, acredito que ele busca profundamente no Senhor, e nos mais nobres ideais de liberdade humana, forças para exercer a árdua tarefa para qual foi eleito, e se creio assim é porque ele não deu motivos ao mundo para que se duvidasse de suas boas intenções. Esses versos de Jeremias podem muito bem não ser para ele, na verdade espero que não o sejam. O Profeta discorre sobre uma verdade crucial à fé monoteísta, verdade revelada a Abraão, nos primórdios das relações entre Deus e os homens, verdade contrariada no Éden, segundo relato do Gênesis, na primeira infância da humanidade, desobediência que nos custou a inocência do paraíso.
É justamente sobre a sensação de “Paraíso Perdido” que gostaria de meditar, juntamente com você, leitor. Sobre o sentimento que se tem ao tomar um ônibus e ver-se obrigado a conviver com a sensação de insegurança, com a constatação da penúria nas relações humanas, com aqueles jovens que desperdiçam as forças de sua idade na alienação animal de suas músicas, instintos e roupas sem sentido. Sobre a descrença no homem e na fé do homem ao assistir-se todos os domingos ao mesmo culto repetitivo, desprovido de conteúdo ou mesmo vida. Sobre o desespero que nasce em nossos corações ao imaginar-se as tragédias humanitárias que não perdoam nenhum país do globo. De New Orleans à China, da Palestina ao Sudão, do Chade à Santa Catarina, da Austrália à Amazônia. O texto que escolhi em Jeremias, com a tradução humanizada e contextualizada de David Stern, nos dá a noção do que Deus espera de cada um de nós num momento de crise como o que vivemos.
A Septuaginta interpretou o conceito de “amaldiçoar” em Jeremias como έπικατάρατος (epikatarátos), que, mesmo correndo o risco anticientífico de minimizar seu significado, traduzirei literalmente por “exposto à execração”. Uma coincidência interessante do uso desta palavra pelos LXX está em sua primeira ocorrência no texto grego da Bíblia, em Gênesis 3.14, quando a serpente é amaldiçoada por ter seduzido Adão. Em Deuteronômio, só no capítulo 27, encontramos treze ocorrências de epikatarátos. Mais uma vez, arriscando-me a interpolar o sentido original da palavra e dos conceitos a que ela nos remente, gostaria de propor uma ligação, ainda que filosófica, entre a idéia de confiar em homens de Jeremias 17, e as conseqüências de se confiar na Serpente de Gênesis 3. Segundo o Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, traduzir o hebraico אָרוּר (’ārûr) por simplesmente “amaldiçoar” é muito superficial. Suas raízes etimológicas remontam ao Acadiano arāru , “capturar com armadilha, amarrar”, e talvez isso nos ajude a entender textos como Juízes 2.3, quando Deus declara que não expulsará os povos das nações vizinhas, com seus respectivos deuses, para que eles sirvam de laço para Israel (cf. Salmo 106.36). Um exemplo claro da ligação que há entre a idéia de “laço” ou “armadilha” e “maldição” está na fala de Bildade, em Jó 18.9: “O laço o apanhará pelo calcanhar, e a armadilha o prenderá”, esse “amigo” de Jó reafirmava seu discurso sobre o destino dos ímpios. Contra os ímpios também é o clamor do Servo do Senhor, no vigésimo segundo verso do Salmo 69, que é messiânico: “Torne-se-lhes a sua mesa diante deles em laço, e a prosperidade em armadilha”. Provérbios 29.6 diz que: “Na transgressão do homem mau há laço, mas o justo jubila e se alegra”. Em Isaías 24.17 e Jeremias 48.43 o “laço” é comparado ao medo que se tem da sepultura. No Novo Testamento, Paulo recomenda a Timóteo que tenha bom testemunho com os de fora, para que assim não caia no “laço do Diabo” (até aqui, ACF). Se consegui expor meu raciocínio de maneira inteligível ao leitor, podemos traçar uma linha reta desde a Queda em Gênesis até suas últimas conseqüências, com todo o pecado que assola o mundo. O padrão é sempre o mesmo, o homem decide deixar de confiar em Deus, isso o faz cair numa armadilha, num laço, pois só Deus é capaz de ser fiel àqueles que nEle confiam, desse pecado surge a maldição que macula a terra. E por que o homem deixa de confiar no Senhor? Porque perdeu a esperança.
Não há, caro leitor, como viver o cristianismo sem esperança. Quando tudo mais acabar, além do amor e da fé, restará a esperança. Talvez não aja meio de viver uma vida alienada de algum tipo de esperança. Segundo o Papa João Paulo II,
“O homem, ser que busca a verdade, é também aquele que vive de crenças.” – Carta Encíclica Fides Et Ratio, 31.
Crer é entregar-se a algum tipo de espera. Essa máxima abrange absolutamente todos os aspectos de nossa vida. Não existe relação ou atitude humana desinteressada, por mais generosos que sejamos, sempre esperamos algo, nem que seja aquela sensação de dever cumprido ao praticar uma boa ação. Nem que essa espera seja inconsciente, involuntária. Nosso cérebro, como o de qualquer outro animal, é movido por instintos de recompensa, espera algum retorno do mundo que o cerca. Voltando ao texto de Jeremias, reduzindo nossas especulações ao âmbito escriturístico da questão, e com a conclusão de João Paulo II em mente, como aqueles que vivem de crenças, devemo-nos indagar sobre os fins últimos dessas crenças que definem nossas vidas.
Na Epístola aos Romanos, justamente no momento de transição entre a apresentação dos modus vivendi gentio, seguida pela doutrina da Justificação pela Fé, o apóstolo Paulo passa a descrever a nova vida, pautada na fé, suavizada pela graça, possível graças a Esperança:
Tendo sido, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo, por meio de quem obtivemos acesso pela fé a esta graça na qual agora estamos firmes; e nos gloriamos na esperança da glória de Deus. Não só isso, mas também nos gloriamos nas tribulações, porque sabemos que a tribulação produz perseverança; a perseverança, um caráter aprovado; e o caráter aprovado, esperança. E a esperança não nos decepciona, porque Deus derramou seu amor em nossos corações, por meio do Espírito Santo que ele nos concedeu. ─ Romanos 5.1-5, Nova Versão Internacional.
O texto é parte da introdução da segunda parte da Epístola, e é notória a seqüência de idéias que são apresentadas. Perceba:
A justificação termina, no versículo dois, com a “esperança da glória de Deus”; e não é só! Dos versos três à cinco, temos outra evolução de idéias, agora mais afinadas com o ensino que o apóstolo pretende introduzir. Começa-se com tribulações, conseqüências naturais da vida “peregrina” que levamos nesse mundo (cf. Salmo 119.19; João 17.16; Atos 7.6; Efésios 2.19; Hebreus 11.13; 1ª Pedro 2.11), mas estas dão frutos, “produzem” perseverança, ou “constância, estabilidade”; essa perseverança, além de conseqüência da tribulação é pré-requisito para uma próxima virtude, que a supera e completa ao mesmo tempo, o que a NVI traduz por “caráter aprovado” a Bíblia de Jerusalém lê “virtude comprovada”, e as versões de Almeida “experiência”. Trata-se de δοκιμήυ (dokimén), que os gregos entendiam por “um exemplar de valor comprovado”, muito usada para a aferição da autenticidade de jóias ou moedas. Então, o sujeito que começou sua vida cristã justificado pela fé, quando Deus resolveu, através de Cristo se reconciliar com ele e esquecer todos os seus pecados, passou por uma vida interessante do ponto de vista espiritual e angustiante sob a ótica desse mundo, agora finalmente “passou no teste”, ou nas provas finais, e então recebe um dom: έλπιδά (elpida). Sim, o radical é o mesmo do versículo dois, mas trata-se de uma evolução do conceito. Lá tínhamos um substantivo no caso dativo, uma espécie de “objeto indireto” em português, indicando geralmente interesse pessoal, vantagem ou desvantagem, ou seja, ali o apóstolo trata de uma “esperança singular” na glória de Deus, no verso cinco temos o caso acusativo, que denota extensão do pensamento ou ação de um verbo, em português seria algo como o “objeto direto”, aqui se trata de uma Esperança imediata e ampla, ativa e frutuosa, tanto que não nos decepciona jamais! Sobre essa esperança a Bíblia de Jerusalém versa:
A esperança cristã é a expectativa dos bens escatológicos: a ressurreição do corpo (Romanos 8.18-23; 1ª Tessalonicenses 4.13s; cf. Atos 2.26; 23.6; 24.15; 26.6-8; 28.20), a herança dos santos (Efésios 1.18; cf. Hebreus 6.11s; 1ª Pedro 1.3s), a vida eterna (Tito 1.2; cf. 1ª Coríntios 15.19), a glória (Romanos 5.2; 2ª Coríntios 3.7-12; Efésios 1.18; Colossenses 1.27; Tito 2.13), a visão de Deus (1ª João 3.2s), numa palavra, a salvação (1ª Tessalonicenses 5.8; cf. 1ª Pedro 1.3-5) própria e dos outros (2ª Coríntios 1.6s; 1ª Tessalonicenses 2.19). Designando em primeiro lugar a virtude que espera esses bens, ela pode, às vezes, designar estes mesmos bens celestes (Gálatas 5.5; Colossenses 1.5; Tito 2.13; Hebreus 6.18). Outrora depositada em Israel (Efésios 1.11-12; cf. João 5.45; Romanos 4.18), com exclusão dos gentios (Efésios 2.12; cf. 1ª Tessalonicenses 4.13, ela preparava uma esperança melhor (Hebreus 7.19), que hoje é oferecida também aos gentios (Efésios 1.8; Colossenses 1.27; cf. Mateus 12.21; Romanos 15.12), no mistério de Cristo (Romanos 16.25). Ela se fundamenta em Deus (1ª Timóteo 5.5; 6.17; 1ª Pedro 1.21; 3.5), em seu amor (2ª Tessalonicenses 2.16), em seu apelo (1ª Pedro 1.13-15; cf. Efésios 1.18; 4.4), em seu poder (Romanos 4.17-21), em sua veracidade (Tito 1.2; Hebreus 6.18) e na sua fidelidade (Hebreus 10.23) em manter as promessas consignadas nas Escrituras (Romanos 15.4) e no Evangelho (Colossenses 1.23), e realizadas na pessoa de Cristo (1ª Timóteo 1.1; 1ª Pedro 1.3,21). Ela não pode decepcionar (Romanos 5.5). – Bíblia de Jerusalém, comentário d, em Romanos 5.2. pg. 1973.
Tudo isso e muito mais será bem explicado e explicitado no artigo de meu amigo Emanuel Schimidt, sobre esse tema. Agora que conseguimos explicar (de maneira bastante superficial, admito) o que é esperança e sua relação com a vida cristã, podemos retomar nosso raciocínio.
Comecei falando de pessoas que pregam esperança, e daqueles que acreditam nessa esperança. Mostrei o que Deus pensa disso, e quais as conseqüências dessa expectativa humana. Em seguida vimos o que é a esperança desejada por Deus, suas fontes, sua relação com nossa vida. Agora, diante desses fatos, caro leitor, sou forçado a perguntar-me sobre minhas próprias esperanças. Será que para escrever esse artigo, garboso de minha pseudo-intelectualidade, decidi falar o que pensava, o que “sabia”, o que “achava”, ou me submeti humildemente a Escritura e ao Espírito de Deus para dirimir minha ignorância humana? Na próxima semana, quando receber meu salário, vou sair por aí gastando como desejar, já que foi meu suado trabalho que o propiciou, ou agradecerei a Deus pela oportunidade de poder trabalhar, e tentarei encontrar junto com ele, como servo e Senhor fariam, a melhor maneira de distribuir meus rendimentos? E segunda-feira, quando o ano letivo começar, e eu passar a ser um “acadêmico de História”, vou me lembrar que não tenho direito de fazer o que bem entendo, e, se estou na Academia é para cumprir desígnios infinitamente maiores que minha débil compreensão? Vou mais longe! Quando votar para Presidente da República, nas eleições de 2010, pesarei bem as propostas e escolherei o candidato que apresentar o melhor currículo pessoal e o melhor projeto factual para meu país, ou deixar-me-ei levar por aspectos ideológicos ou emotivos do marketing político? E no próximo domingo, quando me sentar no banco de uma igreja, vou até lá para receber uma mensagem, uma bênção, ouvir o louvor, conversar com os amigos, ou para encontrar uma forma de servir ao próximo, de amá-lo como a mim mesmo, porque, afinal, essa é a única maneira de ter um encontro com Deus (cf. 1ª João 4.7-21).
O que eu espero do mundo que me cerca? Onde estão fundamentadas minhas expectativas? Em “O Senhor dos Anéis”, Gandalf e Peregrin Tûk observaram o avanço do mal sobre seu mundo. Um exército tão grande e devastador que poria fim a era em que estavam acostumados a viver, introduzindo na Terra Média um Império de dor e sofrimento. Não havia lá muito o que esperar, a não ser a guerra e morte, como hoje não parece haver nada em que possamos nos apoiar. Nossos empregos estão ameaçados, nossas igrejas vazias, a mente da maioria de nossos irmãos e líderes também, o Apocalipse, tão esperado e temido, parece finalmente inevitável. Diante disso, a pergunta que nos faço é se temos em nossos corações a “esperança de um tolo”, tudo que restava a Gandalf, e exatamente aquilo que o salvou, ou se devemos mesmo continuar procurando no mundo à nossa volta tábuas de salvação para nossa alto-estima.
Não vou terminar esse Apostatamos! como os outros, não vou apontar meu dedo acusador em seu rosto e dizer o que está errado. Esse é um tema diferente e infinitamente delicado. Prefiro lembra-lo de que não estamos em casa, de que essa terra, esse mundo, essa Era não nos pertence. De que somos “concidadãos dos céus”. Prefiro pedir que você volte seu pensamento para as informações que chegam aos seus olhos e ouvidos todos os dias. As “profanas”, que falam de pacotes econômicos, planos de governo, discursos de esperança em meio ao caos. Aquelas idéias dos políticos, dos autores de auto-ajuda, dos conselheiros de plantão. As “sagradas”, dos boletins de igreja que apresentam novos “projetos evangelísticos”, metas, “sonhos de Deus para a igreja”; os projetos de ampliação do templo, as campanhas para arrecadação disso e daquilo, os livros que passaram a acrescentar vários hifens após a palavra “Evangelho”, as novas ondas, missões e movimentos que se aglomeram em volta do povo de Deus, cada uma com uma idéia, com sua parte da Babel evangélica. Peço que você pese, pondere, reflita. Suas relações com o mundo, suas expectativas sobre o amanhã, seus horizontes, estão voltados e enraizados no Deus, que é Patrem Omnipotentem? Se estão, que Ele nos ajude a permanecer assim, rumo à nossa verdadeira Pátria Celestial. Se não estão, é hora de voltar ao primeiro amor.

