|Apostatamos!|nº 04, 30 de agosto de 2008|versão para impressão|
Somewhere over the rainbow/ Way up high/ And the dreams that you dreamed of…
Somewhere over the rainbow bluebirds fly/ And the dream that you dare to,why, oh why can’t I?…
Well I see trees of green and/ Red roses too,/ I’ll watch them bloom for me and you…
And I think to myself/ What a wonderful world…
The colors of the rainbow so pretty in the sky/ Are also on the faces of people passing by/ I see friends shaking hands/ Saying, “How do you do?”/ They’re really saying, I…I love you/ I hear babies cry and I watch them grow,/ They’ll learn much more/ Than we’ll know/ And I think to myself…
Someday I’ll wish upon a star,/ Wake up where the clouds are far behind me/ Oh, Somewhere over the rainbow way up high/ And the dream that you dare to, why, oh why can’t I?…” – Israel Kamakawiwo’ole
Ouvi essa edição de duas maravilhosas canções pela primeira vez alguns meses atrás. Estava na formatura do meu melhor amigo, e o “grande” Israel Kamakawiwo’ole parecia um profeta tangendo seu primitivo instrumento musical havaiano. Enquanto projetavam alguns dos melhores momentos da vida dos formandos, meu querido Emanuel entre eles, não deixava de pensar no que significava tudo aquilo. Acompanhei seus últimos semestres na UFPR, seu estágio numa multi-nacional, suas prósperas perspectivas de futuro, afinal naquele momento ele graduava-se honrosamente como um “Cientista da Computação”, e uma carreira de gordos salários o aguardava bem ali, do lado de fora do teatro onde estava se formando. O desconcertante, que tornou singular cada instante de sua cerimônia de formatura, foi o fato de ele ter escolhido abrir mão de seu diploma e aceitar deixar tudo, emprego, carreira e sonhos, para viver somente pela fé em Deus, trabalhando para o Senhor Jesus.
Já ouvimos todo o tipo de crítica sobre essa nossa decisão de não depender de homens, nem de “Igrejas”, nem de “Missões”, simplesmente acreditando em Deus, que Ele nos supriria todas as necessidades. Desde que estávamos completamente loucos, que éramos burros, até que isso de “viver só pra Deus” é uma “utopia”. Como diria padre Zezinho, “chame a isso de utopia, eu a isso chamo ‘paz’”. E é sobre paz e em clima de paz que escrevo esse Apostatamos!, sobre a paz que devemos ter em obedecer ao Senhor, a cada dia de nossas vidas, seja para dar tudo que temos e somos, seja para entregar dez, quinze, vinte por cento de nossos salários uma vez por mês. Fomos chamados para obedecer, e isso resume nosso Ministério (“Serviço”) como Servos (“Escravos”) do Deus Vivo.
I hear babies cry and I watch them grow (Eu ouço bebês chorando e eu os vejo crescer)/ They’ll learn much more (Eles vão aprender muito mais)/ Than we’ll know (Que nós saberemos)/ And I think to myself (E eu penso comigo)/ What a wonderful world (Que mundo maravilhoso)…
Nas últimas duas décadas uma leve brisa de mudança começou a soprar sobre a mentalidade dos cristãos. Ainda que tenhamos assistido a infeliz ascensão da “Teologia da Prosperidade”, e das “i”grejas mercenárias, no subsolo do cristianismo oficial, alheia as fileiras capitalistas do protestantismo, nasceu e começou a criar força uma geração esclarecida e apaixonada pela verdade. Essa geração não está preocupada com dinheiro, nem em dar ou deixar de dar ofertas. A única preocupação dessas valentes pessoas é com o que a Bíblia diz sobre as coisas, como sublinhou Barth:
Doutrina reformadora justamente não parte de uma posição mais elevada. Ela não fica comparando, não fica pesando, ela não discute. Ao invés ela acusa, ela explica e entra em disputa. É isto que lhe dá o gume e direção. É isto que ela tem em comum com a proclamação dos profetas e apóstolos. É isto que não existia na igreja Católica antes da reforma, nem tampouco existe na igreja Católica após a Reforma. – Barth, Karl. In: “Reforma e Decisão” (Reformation als Entscheigdung). Theologische Existenz Heute. Müchen, Christian Kaiser Verlag, 3:5-24, 1993.
Com esse pequeno esclarecimento em mente, que aliás muito nos ajuda a explicar o sentido desta coluna, vamos prosseguir com nossos estudos.
Na última coluna aprendemos que a grande maioria das palavras bíblicas traduzidas por “oferta” apontavam, tanto etimológica quanto conceitualmente, para o sacrifício vicário de Cristo, com suas definições de “culpa”, “oferta pelo pecado”, “aproximação de Deus”. Chegamos a conclusão que a maioria dos versículos que tratam de oferta falam na verdade da aproximação do homem com o Criador, e essa aproximação só pode ser alcançada através do sangue de Jesus. Perplexos, constatamos finalmente que é um pecado terrível ofertar com o intuito de aproximar-se do Senhor, já que essa aproximação e a oferta definitiva para tanto foi feita no Calvário. Agora vamos prosseguir estudando as demais palavras bíblicas para oferta, e veremos se chegamos a alguma conclusão diferente daquela finalizada na última coluna.
Principiemos pelo verbo אָשַׁם (‘āšhām), que ocorre 84 vezes em toda a Bíblia Hebraica. Segundo os principais léxicos, o significado de āšhām de é “ser vazio, arrasado, desconsolado; ser culpado”. O sentido é o da desolação que a culpa causa. Em 35 versículos as palavras derivadas de āšhām estão diretamente ligadas a oferta: Levítico 5.6,7,15,16,18,19; 6.6,17; 7.1,2,5,7,37; 14.12-14,17,21,24,25,28; 19.21,22; Números 6.12, 18.9; 1º Samuel 6.3,4,8,17; 2º Reis 12.16; Isaías 53.10; Ezequiel 40.39; 42.13; 44.29; 46.20. O leitor que se preocupou em analisar todas as passagens viu alguns padrões e curiosidades. Primeiramente, o duplo sentido da palavra dentro da Torá. As derivadas de āšhām significam “pecados por ignorância”, ou seja, aqueles que cometemos sem saber que eram pecados. Esse tipo de falta não faz sentido diante da manifestação do Espírito Santo, uma vez que é o Espírito que convence do “pecado, da justiça e do juízo” (João 16.8). Ora, se o Espírito Santo convence-nos, então não resta espaço para pecados involuntários, uma vez que estamos sempre em contato com o Espírito, Ele sempre está nos convencendo, e, se pecamos, fomos alertados por Ele com antecedência. O segundo sentido é o de “oferta pela culpa”, e já estudamos com certa riqueza de detalhes as implicações de “culpa” diante da revelação de Jesus Cristo. As curiosidades sobre āšhām não param por aí. Em 2º Reis 12.16 fala-se do “dinheiro de oferta”, exatamente no sentido de moeda corrente. Alguém do outro lado do monitor deve ter esboçado um sorriso de “eu sabia!”, e está esperando minhas desculpas, já que esse versículo prova que devemos dar dinheiro como oferta, e que podemos dar até dinheiro para ofertas pela culpa. Mas por hora engula essa sua felicidade, e leia os versículos precedentes. O contexto da passagem é dos mais interessantes. Em 2º Reis 12.7, o Rei Joás inicia sua reforma religiosa, à partir da reparação do Templo do Senhor. Para tanto, o rei ordena que os sacerdotes PAREM DE RECEBER DINHEIRO, e doem todos os valores recolhidos para a restauração do Templo. Os versos 13-14 dizem que “a prata trazida ao Templo [...] era usada como pagamento dos trabalhadores, e eles a empregavam no reparo do Templo”. A única exceção era quanto ao dinheiro de ofertas pela culpa, destinado a subsistência dos sacerdotes. Ou seja, os sacerdotes resolveram abrir mão da grande maioria de seus salários em prol da restauração do Templo do Senhor. Diante do que nos diz o livro de Hebreus, e entendendo que não existe “Templo” hoje, (a não ser os restos dele em Jerusalém), não temos muitos lugares onde colocar nosso dinheiro. As surpresas não param por aí. Isaías 53.10 nos diz que:
“Contudo, foi da vontade do Senhor esmagá-lo e fazê-lo sofrer, e, embora o Senhor tenha feito da vida dele uma oferta pela culpa [āšhām], ele verá sua prole e prolongará seus dias, e a vontade do Senhor prosperará em sua mão” – (NVI).
Pois bem diletos leitores, eis o fato: Jesus Cristo foi a definitiva āšhām, oferta pela culpa, para toda a humanidade. Logo, é sacrílego imaginar āšhām como um tipo válido de oferta em nossos dias.
Vamos deixar de lado as palavras que significam o “sacrifício” em si, uma vez que não conferem nenhum progresso conceitual a nossa pesquisa. Assim sendo, a próxima parada está em נֶדֶר (néder), derivada do verbo nādar. Essa raiz denota a verbalização da consagração de algo, prometendo fazer-se um determinado sacrifício a Deus, geralmente em agradecimento a alguma graça concedida. São 57 ocorrências de néder ligadas a idéia de um voto feito a Deus. A primeira delas em Gênesis 28.20, onde Jacó promete dar o “dízimo”, o que nesse caso transforma o dízimo em uma forma válida de néder. Votos são sagrados, toda a Torá legisla sobre a obrigatoriedade de seu cumprimento. O raciocínio é simples: a natureza de um “voto” é voluntária, ou seja, Deus não obriga ou mesmo pede a ninguém um voto, que é prerrogativa do indivíduo, uma aliança sua com o Senhor, assim sendo, é uma espécie de “brincadeira” de mal gosto com a divindade prometer algo que não se está disposto ou pronto a cumprir. Um trágico exemplo da obrigatoriedade no cumprimento dos votos está no capítulo onze do livro dos Juízes, quando Jefté é obrigado a sacrificar sua única filha devido a um voto. Este é o único caso de sacrifício humano em todo o Antigo Testamento. 1º Samuel 1.11,21 registra o voto de Ana, que a levou a entregar seu único filho, Samuel, aos cuidados da corrupta família do sacerdote Eli. Imaginem o quanto isso custou aquela mãe! Os votos são compromissos públicos, e, como tais, devem ser cumpridos diante da Congregação dos Santos (cf. Salmo 22.25). Provérbios 20.25 ensina que aquilo que é votado ao Senhor torna-se santo, propriedade de Deus, e é um laço apropriar-se daquilo. Essa advertência vale para muitos cristãos hoje em dia, que apressam-se em “consagrar a Deus” tudo o que possuem. Cada automóvel adquirido é “ungido” pelo pastor e “consagrado”, a casa, o escritório, a empresa inteira! Consagrar algo a Deus só pode ser entendido de duas formas. A que deveria ser óbvia (mas quase nunca o é), trata de que a pessoa que consagrou realmente devotou ao Senhor aquele bem, e não vai NUNCA MAIS utiliza-lo em benefício próprio. Então, o “carro consagrado” só pode ser usado de acordo com a vontade de Deus, e é bom que você não volte para sua casa no domingo, após o culto, até ter dado carona ao último irmão, aquele que mora do outro lado da cidade, sem cobrar nada por isso, e cantando de alegria, sem reclamações. A segunda forma de entender uma “consagração” é acreditar que o evangélico moderno sofre de uma terrível epidemia de estupidez, uma vez que é idiotice, ou, como diz o Pregador: “tolice” (Eclesiastes 5.4), consagrar algo a Deus e não entregar a ele. Votos são uma forma absolutamente válida de oferta, mas são um contrato perigoso com o Senhor. Devemos cumprir aquilo que prometemos, entregar aquilo que consagramos, ou sofrer as conseqüências de roubar a Deus.
קִטַּרְ (qātar) é o próximo verbo a ser estudado. São 110 ocorrências da palavra, a maioria delas em Levítico e Jeremias. O verbo trata de um termo técnico para sacrifícios completamente queimados e a fumaça que subia, geralmente fumaça de incenso, que subia daquele sacrifício. Esse é o sentido das 44 passagens que ligam qātar a ofertas: Êxodo 29.18,25; 30.20; Levítico 1.9,13,17; 2.2,9,11,16; 3.5,11,16; 4.26,35; 5.12; 6.12,15; 7.5; 8.21,28; 9.10,17; 16.25; Números 5.26; 18.17; 1º Samuel 2.16,28; 1º Reis 9.25; 16.13,15; 1º Crônicas 6.49; 2º Crônicas 13.11; 29.7; Jeremias 19.13; 32.29; 33.18; 44.17-19,25; Amós 4.5; Habacuque 1.16; Malaquias 1.11. Perceba que nos livros proféticos existe uma intensa ligação entre qātar e o sacrifício a deuses estranhos. Amós nos dá uma nova informação, admitindo a possibilidade da existência de “sacrifícios de louvor”. Seja como for, a idéia básica de qātar é queimar-se completamente um determinado sacrifício, e oferecer sua fumaça ao Senhor. Assim sendo, gostaria de lançar o desafio aos nossos irmãos defensores dos dízimos e ofertas exorbitantes: vamos queimar dinheiro! Aí talvez Deus se agrade do que é feito por aí nos cultos.
A última palavra que vamos analisar é תּודָה (tôdāh). Sua tradução literal é “ação de graças, agradecimento”, e vem de uma raíz que significa “confessar, louvar, agradecer, reconhecer”. Trata-se de uma oferta prevista na Lei, e isso é claro logo na primeira das 32 ocorrências do termo:
Se o oferecer por oferta de ação de graças, com o sacrifício de ação de graças, oferecerá bolos ázimos amassados com azeite; e coscorões ázimos amassados com azeite; e os bolos amassados com azeite serão fritos, de flor de farinha. – Levítico 7.12, (ACF).
Você nunca se perguntou porque Deus pedia que se oferecessem pães e bolos em seus altares? Sempre me intrigou esse tipo de ofertas, isso porque demorei muito para conseguir entender as implicações espirituais de entregar a Deus um bolo ou um pão como oferta. Infelizmente nossa mente tende a analisar o óbvio e dificilmente compreende o que transcende o lógico e racional. Assim, compreendemos perfeitamente a natureza simbólica da oferta de touros, ovelhas e cabras, pois sabemos do valor sacrifical do derramamento de sangue. Vimos anteriormente que a grande maioria dessas ofertas destinava-se a cobrir os pecados do homem, justifica-lo diante do Senhor, não é o caso das ocorrências de tôdāh.
Todas as quintas feiras eu e o Emanuel freqüentamos um culto de adoração na igreja Fé em Ação. Particularmente considero os cultos do meio da semana os melhores em todas as igrejas, isso porque só comparecem os que querem realmente algum compromisso com o Senhor, não vão pelo peso da obrigação religiosa implícito no culto de domingo, e muito menos pela boa música ou requintados programas, inexistentes nos “cultinhos do meio da semana”, com baixíssima audiência e pregações e música absolutamente simples. Na quinta-feira quase não comparece ninguém lá, e o ambiente espiritual que se cria com aquelas poucas (porém sedentas) almas é fantástico, é como se estivéssemos no céu, e de certa maneira estamos. Dia desses os pastores, Adilson e Rosana, me deram uma ótima lição sobre o que a Torá ensina sobre a tôdāh. No meio da tarde recebemos uma ligação, era o pastor Adilson, com sua costumeira brevidade ao telefone. Ele perguntava se não queríamos passar na casa dele, antes do culto, para tomar café, disse que, caso não fossemos, perderíamos um bolo de limão feito para a ocasião. Quando chegamos, cansados pelo trabalho e pelos ônibus lotados, encontramos uma mesa muito bem servida, com refrigerante, café (a pastora faz o melhor café de Curitiba), pão, queijo e, é claro, ele, cheiroso e fofinho, apetitoso e belo, nosso bolo de limão! A voz da pastora é um caso à parte. Poucas pessoas deixam transparecer tão obviamente amor, dedicação e humildade ao falar, e lá estava ela, com sua voz doce nos pedindo perdão porque o bolo não ficou do jeito que ela gostaria. Era um bolo normal, com uma deliciosa cobertura de limão, bastante saboroso por sinal, minha mãe provavelmente não faria melhor, mas para a pastora parecia que estávamos comendo lavagem, tudo porque não havia ficado do jeito que ela planejou. Não caro leitor, não fugi do assunto para narrar uma história fora do contexto. É que a pastora aquele dia teve de ir ao médico, tratar alguns problemas de saúde, o pastor recuperava as forças após um longo dia de trabalho, e ainda assim eles gastaram tempo para preparar aquela mesa. A Rosana teve de juntar os ingredientes, mexer a massa, cuidar do forno, preparar a cobertura. Não haviam outros convidados, só nós dois, “moleques” sem nome ou “ministério”. E por que aquilo tudo? Porque nos amam e querem mostrar isso de alguma maneira. É por isso que Deus pedia aqueles pães e bolos, porque os animais eram criados ao relento, mas os bolos eram feitos com trigo, e esse trigo tinha de ser cultivado com cuidado. Haviam mesmo festas para a colheita, tamanha era a importância da “sorte” de se colher o que plantava. Depois de colhido o trigo, o suor dos moedores o transformava em farinha, e a dedicação das donas de casa, sem liquidificador ou batedeira, preparava com habilidade e muito carinho o pão e os bolos. Enquanto eram cozidos naqueles fornos arcaicos se agradecia de coração sincero a Deus por tudo que Ele tinha feito, se celebrava o amor pelo Senhor que lhes dera tudo aquilo. Por isso a tôdāh devia ser entregue principalmente na forma de pães e bolos, porque esses eram alimentos humanos, feitos por homens e para os homens. Lá havia o suor e esperança dos homens nas plantações e colheitas, o esmero e o carinho das mulheres, a alegria das crianças que ajudavam as mães no preparo dos alimentos. Toda a família participava da confecção da oferta, que era levada com muita gratidão aos altares hebreus.
Da mesma maneira que os pastores se esforçaram bastante para nos presentear com aquele pequeno banquete no fim da tarde de quinta, e toda a dedicação daquele casal de santos nos causou imensa alegria e o sentimento de realmente fazer parte daquela linda família, nosso Senhor sentia-se extremamente satisfeito quando via os filhos de Israel chegarem, com os bolos nas mãos e o sorriso nos lábios, para oferecer sua gratidão ao Deus que lhes deu tudo que tinham.
A tôdāh não era uma obrigação legal, porque não se pode legislar sobre gratidão. Agradecer é um dever moral, uma obrigação humana. Nada Não há desvio de caráter mais terrível que a ingratidão, não há pior tipo de orgulho. Porque o ingrato acredita que não depende de ninguém, que chegou até onde está sozinho, sem Deus ou homens. Hora ou outra o ingrato descobrir-se-á encurralado e se perderá em meio a própria soberba. Devemos entregar tôdāh a Deus em nossos dias? Creio que cada instante deve haver oportunidade de ofertar tôdāh. Levítico 22.29 fala de “oferecer um sacrifício de louvor ao Senhor”, isso mesmo, tôdāh trata-se também de louvor! Por isso sua raiz quer dizer também “arremessar, lançar”, já que louvor é algo que se lança aos céus. Muitas pessoas “honram” a Deus com seu dinheiro e não com sua boca, seu tempo, sua dedicação. As vezes é fácil entregar uma quantia que nos sobra, mas é sempre complicado gastar tempo, limpando a igreja ou preparando um café que será oferecido aos visitantes ao final da celebração. O que louva mais a Deus, seu dinheiro no envelope ou seu suor no chão do templo? O que agrada mais a Deus, mil reais de oferta para se pagar o aluguel de um prédio, ou um jantar oferecido a um irmão que não teria condições de comer tão bem em sua própria casa? A maldição pragmática do capitalismo mercenário evangélico nos levou a traduzir nossa gratidão a Deus pelo dinheiro que entregamos nas igrejas, mas convenhamos, pães e bolos nunca foram artigos de luxo, e toda tôdāh começava com pães e bolos. Esdras 10.11 nos ensina o que é gratidão:
Agora confessem seu pecado ao Senhor, o Deus dos seus antepassados, e façam a vontade dele. Separem-se dos povos vizinhos e das suas mulheres estrangeiras. – (NVI).
Oferecer gratidão é bem mais que cantar louvores no culto de domingo à noite, é bem mais que separar dez, quinze ou cem por cento de seus ganhos e dar à igreja. Entregar tôdāh é fazer a vontade de Deus, separando-nos do mundo, servindo ao Senhor de todo nosso coração. É preparar bolos para as visitas, é limpar o banheiro das igrejas, é abraçar e acolher quem nunca foi abraçado ou acolhido.
O problema das pessoas é que elas dão seu dinheiro como se aquilo fosse a essência da oferta. Como se Deus fosse um banqueiro que só pensa em lucros. Dinheiro pode até ser parte ou mesmo a maneira de se manifestar uma oferta, mas está longe de ser a essência. Talvez tôdāh seja a essência. Gratidão, louvor sincero manifesto em atos de obediência, em ações voluntárias para a glória de Deus. Nunca fui contra ofertas, mas não posso aceitar que as pessoas transformem o ofertar a Deus num leilão de bênçãos. Isso é retroceder as barracas de indulgências mantidas por Tetzel, que revoltaram Lutero ao ponto de dividir o cristianismo entre católicos e protestantes. Não somos dignos de nada! Somos pó, lixo inútil. Não temos direito a nada, e nada nesse mundo pode comprar-nos direitos celestiais. Nosso destino é o inferno, somente ele. Estamos perdidos! É isso que a Bíblia diz: “todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus” (Romanos 3.23). Só a graça, manifesta no amargo sacrifício de nosso Senhor Jesus Cristo é capaz de nos justificar, pela fé. E não é fé que move os fiéis a entregarem seus bens, mas o mercenarismo daqueles que prometem o céu em troca do dinheiro. Deus jamais vai nos ouvir pela oferta que damos, jamais vai se sentir feliz com nosso dinheiro, muito menos repreender qualquer demônio. Ele ouve corações compungidos, que manifestam devoção sincera, expressa em atos de obediência irrestrita. O que se vê nos dízimos e ofertas hoje é um legalismo mantido pelo demoníaco sentimento de justiça própria. Não há pecado pior do que o do ignorante que diz: “Deus tem que me abençoar porque sou dizimista, tem que repreender o devorador e me fazer próspero”. Tal pessoa cospe na cruz de nosso Salvador, renega-lhe o sacrifício e acredita que pode fazer algo para obter os favores de Deus. Só a misericórdia, só o sangue de Jesus pode nos aproximar do Pai. Se dermos dinheiro, que seja em obediência a uma ordem de nosso Senhor, não uma tentativa de obter favores, comprando a divino com o efêmero.
Caro leitor, encerramos aqui essa longa jornada sobre Dízimos e Ofertas. Quase todas as palavras foram analisadas, e, caso tenha sentido falta dos vocábulos gregos, basta recorrer à tabela da última versão para impressão. Lá estão todas as palavras e ocorrências citadas e não citadas em nossos artigos. Não analisei nada em grego porque não mudaria o resultado final e tanto as traduções da Septuaginta quanto o Novo Testamento mantiveram inalterados os ideais hebraicos estudados aqui.
Em 2ª Coríntios 9 Paulo resume todo o ensino neotestamentário a respeito de ofertas:
Não tenho necessidade de escrever-lhes a respeito dessa assistência aos santos. Reconheço a sua disposição em ajudar e já mostrei aos macedônios o orgulho que tenho de vocês, dizendo-lhes que, desde o ano passado, vocês da Acaia estavam prontos a contribuir; e a dedicação de vocês motivou a muitos. Contudo, estou enviando os irmãos para que o orgulho que temos de vocês a esse respeito não seja em vão, mas que vocês estejam preparados, como eu disse que estariam, a fim de que, se alguns macedônios forem comigo e os encontrarem despreparados, nós, para não mencionar vocês, não fiquemos envergonhados por tanta confiança que tivemos. Assim, achei necessário recomendar que os irmãos os visitem antes e concluam os preparativos para a contribuição que vocês prometeram. Então ela estará pronta como oferta generosa, e não como algo dado com avareza.
Lembrem-se: aquele que semeia pouco, também colherá pouco, e aquele que semeia com fartura, também colherá fartamente. Cada um dê conforme determinou em seu coração, não com pesar ou por obrigação, pois Deus ama quem dá com alegria. E Deus é poderoso para fazer que lhes seja acrescentada toda a graça, para que em todas as coisas, em todo o tempo, tendo tudo o que é necessário, vocês transbordem em toda boa obra. E Deus é poderoso para fazer que lhes seja acrescentada toda a graça. Como está escrito: “Distribuiu, deu os seus bens aos necessitados; a sua justiça dura para sempre”.
Aquele que supre a semente ao que semeia e o pão ao que come, também lhes suprirá e multiplicará a semente e fará crescer os frutos da sua justiça. Vocês serão enriquecidos de todas as formas, para que possam ser generosos em qualquer ocasião e, por nosso intermédio, a sua generosidade resulte em ação de graças a Deus.
O serviço ministerial que vocês estão realizando não está apenas suprindo as necessidades do povo de Deus, mas também transbordando em muitas expressões de gratidão a Deus. Por meio dessa prova de serviço ministerial, outros louvarão a Deus pela obediência que acompanha a confissão que vocês fazem do evangelho de Cristo e pela generosidade de vocês em compartilhar seus bens com eles e com todos os outros. E nas orações que fazem por vocês, eles estarão cheios de amor por vocês, por causa da insuperável graça que Deus tem dado a vocês. Graças a Deus por seu dom indescritível!
Será que precisamos analisar essa passagem em grego ou aramaico? Será que precisamos escrever um livro de comentários sobre ela? Para quem era o dinheiro que Paulo pedia? Para o “povo de Deus”. Como cada um devia dar? “Conforme determina seu coração”. O que Deus acrescentaria? “Toda graça”. Por que os coríntios seriam enriquecidos? “Para serem generosos em qualquer ocasião”. Eles davam dinheiro ou obedeciam? “A obediência acompanhava a confissão”.
Dar dinheiro pode até ser um serviço ministerial, mas é serviço dos mais ricos aos mais pobres. Se você tem dinheiro, sua obrigação é fazer esse dinheiro servir a Deus, se você não tem, não é obrigado a servir a homens inescrupulosos. Ofertar não pode ser uma obrigação, em hipótese alguma, mas sim um dom, nosso para Deus.
Nesse mês comemoramos um ano da formatura do Emanuel e durante boa parte desse ano nós vivemos das ofertas daqueles que de bom coração desejaram nos ajudar. Temos muito orgulho disso, sobretudo pelo fato de ter dedicado da melhor maneira nosso tempo e nossos bens ao serviço dos santos. Muita coisa aconteceu conosco e em volta de nós nesse ano. Muitas pessoas se afastaram e outras chegaram. Nós pregamos muitas teses nas portas da Wittenberg pentecostal. Criamos inúmeros inimigos por simplesmente tratar da Bíblia como verdade, por viver o que pregávamos e cobrar de todos mais posicionamentos práticos e menos enrolação retórica. Denunciamos apostasias e continuaremos a denunciar. Como todos que acompanharam essa coluna devem ter percebido, fomos forçados a parar de escrever por um tempo. É que as coisas mudaram, nós amadurecemos e nos vimos diante de uma encruzilhada. Decisões tiveram de ser tomadas, e por mais que não nos falte motivos para glorificar a Deus por cada centavo de provisão nesse último ano, por mais que tenhamos a certeza de que Ele sempre esteve no controle, com o grande orgulho de não ter pedido jamais dinheiro de quem quer que seja (cf 1ª Coríntios 9.15), nós nos sentimos desafiados pelo Senhor a voltar a trabalhar. O desafio é provar que se pode servir a Deus integralmente mesmo com nossos empregos, mesmo passando 12 horas por dia no trabalho ou em trânsito.
Confesso que o que estranhei no trabalho foi receber salário. Foi poder contar todos os meses com aquela quantia, foi acordar todos os dias sabendo onde devia ir e o que fazer, sem esperar que o Senhor desse essa resposta. Muita coisa aconteceu nos últimos meses, mas talvez o principal motivo para ter demorado tanto a terminar esse Apostatamos foi o fato de que queria falar de oferta sob a ótica de quem dá dinheiro, não só de quem recebe. O Novo Testamento nos ensina que toda nossa vida pertence a Deus, de fato nós fomos comprados por Jesus, somos escravos. Posso dizer que meu salário pertence a Deus, e só Ele pode dizer para onde vai o dinheiro. Pode ser que Ele me deixe gastar tudo, pode ser que então eu decida ajudar alguém por conta própria, voluntariamente. Pode ser que Ele me mande dar tudo que ganhar, mas e daí? No último ano Ele pagou o aluguel sempre no último instante, no último ano Ele mandou alguém colocar dinheiro no bolso da minha blusa e só me deixou descobrir no dia seguinte, sem saber quem havia feito aquilo. No último ano Ele sustentou a mim e ao Emanuel, mas não o fez só porque largamos tudo para servir somente a Ele. Deus nos sustentou porque obedecíamos. O que quero dizer leitor é que Deus só quer que você obedeça para lhe dar tudo o que você precisar. Não tente comprá-lo com nada, nem com serviços e muito menos com louvor. Apenas obedeça, cegamente, sempre que ouvir a doce voz de seu Senhor.
É obedecendo que voltamos a trabalhar e que agora começa uma nova etapa, em nossas vidas, na vida do Aheb e mesmo na Apostatamos!. Hoje, com tudo que aprendemos em mente, voltando àquela noite de 26 de setembro de 2007, não vejo mais o Emanuel como um herói mitológico que jogava o diploma fora para viver um sonho, eu vejo dois amigos tentando viver o Reino de Deus. Esse foi o lema desse blog até aqui, porque um ano atrás nós obedecemos ao Senhor. O que o Emanuel fez foi simplesmente obedecer, e o que fazemos agora não é em nada diferente.
Que a graça, e somente a graça, de nosso Senhor esteja sobre cada um de nós. Que possamos, pela graça, obedecer, dando ou recebendo. Seja em dinheiro, seja em trabalho, que nossas vidas possam dedicar-se inteiramente a servir ao nosso Deus. Que esse serviço seja árduo e que Deus nos livre da maldição de falarmos mais do que fazemos.
Obrigado por estar conosco até aqui. Espero que minhas palavras tenham contribuído em algo para sua vida com Deus.
Emerson Silva.
Curitiba, 30 de agosto de 2008.
Well I see trees of green and/ Red roses too,/ I’ll watch them bloom for me and you…
And I think to myself/ What a wonderful world…
Grande ensaio, para louvor e glória do Senhor!
Muito bom mesmo!
Deus lhes abençoe sempre!
Paz seja com vocês!
Solicito, por favor, o link para a versão de impressão deste artigo, pois tenho as duas primeiras partes e anseio muito obter a terceira e última!
Obrigado pelo ótimo trabalho.
Deus lhes abençoe!