Olhando para as virtudes
(Pastoral, nº 03 – 15 de Maio de 2008. Versão para Impressão)
“[...] quem se faz humilde como esta criança,
este é o maior no Reino dos céus” – Mateus 18.4 (NVI)
Em Lucas 18.9-14 está descrita uma parábola que Jesus contou acerca de duas personagens, um fariseu e o outro publicano. Ambos caminhavam rumo ao templo para realizarem suas orações. O fariseu, em seu íntimo, agradecia a Deus por não ser “como os outros homens: ladrões, corruptos, adúlteros. Nem mesmo como este publicano“, uma vez que jejuava “duas vezes por semana” e dava “dízimo de tudo quanto” ganhava. O publicano, por sua vez, nem conseguia chegar perto do templo, tamanha era sua vergonha e humilhação, e dizia: “Deus, tem misericórdia de mim, que sou pecador“. O fariseu tinha uma atitude de humildade, mas em seu coração transbordava uma soberba que o fazia se considerar melhor que os demais, enquanto que o segundo, o publicano, sabia qual era sua situação e, tanto em palavras quanto em seu coração, clamava por misericórdia por reconhecer ser um pecador. Jesus, então, dá a “moral” da história: “Eu lhes digo que este homem [o publicano], e não o outro [o fariseu], foi para casa justificado diante de Deus. Pois quem se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado“.
Em outro momento muito conhecido (Mateus 18.1-4; Marcos 9.33-36; Lucas 9.46-48), Jesus foi interrogado pelos seus discípulos acerca de quem seria o maior no Reino dos céus. Ele pega, então, uma criança que estava ao redor, a coloca no meio deles (Marcos 9.36), pega-a nos braços e diz: “Eu lhes asseguro que, a não ser que vocês se convertam e se tornem como crianças, jamais entrarão no Reino dos céus. Portanto, quem se faz humilde como esta criança, este é o maior no Reino dos céus” (Mateus 18.3-4). Pra um discípulo ouvir que precisava se converter não deve ter sido fácil, mas é o que Jesus falou! Se os discípulos ouviram isso, devemos olhar pra nós e deixar o Senhor nos sondar (cf. Salmos 26.2), e, se ainda não nos convertemos e nos tornamos como crianças, que não vêem o mal, são puras, sinceras, sem preconceitos, inocentes, precisamos nos arrepender e correr para o colo do Pai de coração disposto a ser humilde. Crianças brincam entre si, sem importar-se com classe social ou cor da pele, religião ou nacionalidade. E, se não brincam, algum adulto tem responsabilidade nisso por ter colocado alguma idéia errônea na cabeça da pequena. Segundo Wiersbe’s Expository Outlines, “Enquanto as crianças não são sem pecado nem perfeitas, elas possuem as características que devem estar presentes na vida de cada cristão: são ensináveis, simples nos seus desejos, tem atitudes esperançosa, e dependem de seus pais para satisfazer suas necessidades“. Já o Bible Knowledge Commentary afirma que “Uma alta posição no Reino não era baseada em grandes trabalhos ou palavras, mas na humildade de espírito de uma criança“. Ou seja, se quisermos ser alguém no Reino, devemos ser totalmente dependente de nosso Pai, reconhecer humildemente que não sabemos o que é melhor para nós, nem que somos melhores do que os demais, mas sim nos sujeitarmos à vontade do Pai, servindo aos santos que estão próximos de nós, nosso maior dever.
Essas são apenas algumas das dezenas de passagens que nos exortam a vivermos em atitude de humildade. Por várias vezes o autor de Provérbios nos alerta para termos cuidado com o orgulho, que é “aborrecido por Deus” (8.13), dele “sobrevém a desonra” (11.2), “resulta em contenda” (13.10), “antecede a destruição” (16.18), “nos abate” (29.23), que quem as pratica tem suas casas derrubadas (15.25).
A palavra que foi traduzida por humildade e suas variantes no Novo Testamento, na maioria das vezes, foi tapeinoo (ταπειυόω), e significa “tornar baixo, se rebaixar” (Strong), “abaixado, trazido para baixo, humilhar (verbo)” (Vine), “ter uma opinião modesta de si mesmo” (Thayer). É interessante seu uso em Lucas 3.5, onde diz que “todas as montanhas e colinas [serão] niveladas“. Assim devemos agir, nos rebaixarmos, não deixar qualquer atitude de orgulho tomar conta de nós.
Um das grandes qualidade do amor, descrita pelo magnífico texto de 1ª Coríntios 13, é que ele “não se orgulha” (na Nova Versão Internacional) ou “não se ensoberbece” (na Almeida Revista e Atualizada). Provérbios 16.19 diz que é melhor “ser humilde de espírito com os humildes do que repartir o despojo com os soberbos” (ARA). Os Dez Mandamentos foram resumidos em apenas dois: “Ame o Senhor, o seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma, de todas as suas forças e de todo o seu entendimento” e “Ame o seu próximo como a si mesmo“(Mateus 22.37,39; Marcos 12.30,31; Lucas 10.27; esse primeiro mandamento aparece originalmente em Deuteronômio 6.5 e 11.1, enquanto que o segundo está escrito em Levítico 19.18, mas também em Romanos 13.9, Gálatas 5.14 e Tiago 2.8).
Se amarmos as pessoas como amamos a nós mesmos, a primeira coisa que NÃO iremos fazer é excluir o próximo por causa dos seus defeitos, afinal, não tem como você deixar de conviver consigo mesmo apesar de tantos defeitos que tem, não é mesmo? Romanos 12.1 diz: “Portanto, você, que julga os outros, é indesculpável; pois está condenando a si mesmo naquilo em que julga, visto que você, que julga, pratica as mesmas coisas“. Nesse momento é importante entendermos o que é esse “julgamento”. A palavra no original grego traduzida por julgar e seus derivados é krineis (κρίυεις), que, segundo Strong, significa “determinar, resolver, decretar; julgar, pronunciar uma opinião relativa ao certo e errado“. O Dicionário Greco-Inglês da United Bible Societies (UBS) afirma que julgar é “condenar, determinar“. “Ter uma conclusão num processo de pensamento e ainda estar numa posição de tomar uma decisão“, segundo Louw-Nida. “Aquele que julga severamente (injustamente), encontrando faltas com isto ou aquilo nos outros“, diz Thayer. “Ter um julgamento desfavorável sobre, criticar, encontrar falta em, condenar“, de acordo com o Léxico Greco-Inglês do Novo Testamento de Bauer, Danker, Arndt e Gingrich (ou apenas BDAG). Podemos entender, então, que quando julgamos temos o intuito de que o réu seja penalizado. Um julgamento “humano” sempre acaba com alguma punição, por exemplo, a retenção do indivíduo por certo tempo. Tiago 4.11,12 diz: “Irmãos, não falem mal uns dos outros. Quem fala contra o seu irmão ou julga o seu irmão, fala contra a Lei e a julga. Quando você julga a Lei, não a está cumprindo, mas está se colocando como juiz. Há apenas um Legislador e Juiz, aquele que pode salvar e destruir. Mas quem é você para julgar o seu próximo?“ Pode-se perceber, por esse texto, que as coisas começam a ficar bem mais sérias, pois estão indo contra a Lei e até mesmo contra Deus, pois queremos nos passar por juiz em seu lugar (cf. Salmos 7.11, 75.7; Hebreus 12.23) ou no lugar de Jesus (cf. Atos 10.41). Já o conselho é algo necessário e que demonstra nosso real interesse por aquele a quem ajudamos. Mostra nossa sinceridade ao desejar que a pessoa mude de atitudes, ou seja, há um sentimento de amor que zela pelo crescimento o próximo. A Bíblia chama de isso de “suportar”, que nada mais é oferecer ajuda quando os outros precisarem (cf. Efésios 4.2; Colossenses 3.13).
O capítulo 14 de Romanos trata da diferença de entendimento entre os santos, o que Paulo chama de “fortes” e “fracos” na fé, ou seja, diferenças de pensamento que existiam na igreja e que estavam causando divisão. No versículo dez está assim escrito: “Tu, porém, por que julgas teu irmão? E tu, por que desprezas o teu? Pois todos compareceremos perante o tribunal de Deus“. Aqueles que são mais fortes devem suportar os mais fracos, ajudando nas dificuldades deles e não querendo agradar a si (Romanos 15.1). Mateus 7.1-5 e Lucas 6.37-42 tratam do assunto “julgamento” ao descreverem que, ao invés de apontar o “cisco” no olho do nosso irmão (ou seja, um pecado, um erro, um defeito), devemos tirar a “viga” que está nos nossos olhos. Isso se torna muito claro depois de termos visto o que seria o tal “julgamento” no parágrafo acima. Se acusamos alguém, primeiro que nos condenamos porque praticamos os mesmos atos, e segundo que estamos piores do que o irmão que acusamos, já que ele tem seus defeitos, mas não apontam para o próximo. Apenas para incluir outra passagem, a de Tiago 5.9: “Irmãos, não se queixem uns dos outros, para que não sejam julgados“.
O texto de Gálatas 6.1-5 é ainda mais claro quanto a nossa obrigação de apoio ao irmão que não está bem, além de resumir tudo o que tratamos até o momento: “Irmãos, se alguém for surpreendido em algum pecado, vocês, que são espirituais, deverão restaurá-lo com mansidão. Cuide-se, porém, cada um para que também não seja tentado. Levem os fardos pesados uns dos outros e, assim, cumpram a lei de Cristo. Se alguém se considera alguma coisa, não sendo nada, engana-se a si mesmo. Cada um examine os próprios atos, e então poderá orgulhar-se de si mesmo, sem se comparar com ninguém, pois cada um deverá levar a própria carga“. O primeiro versículo nos dá uma importante lição para quando vermos alguém com problemas: restauração com mansidão (humildade, brandura). Strong afirma que mansidão “é a atitude de mente e comportamento que, vindo da humildade, dispõe alguém para receber com gentileza e humildade qualquer coisa que venha a ele de outros ou de Deus“. O versículo três é um dos mais importantes. Se nos consideramos alguma coisa e nós não formos aquilo, estamos mentindo para nós mesmos, por isso esse grande alerta para o perigo de nos engarmos, que é pior do que ser enganado por terceiros.
Em João 8.1-11, temos um exemplo de como devemos agir com as pessoas quando o quesito é o possível julgamento: “Declarou Jesus: ‘Eu também não a condeno. Agora vá e abandone sua vida de pecados” (v. 11). Todos julgaram aquela mulher pela sua atitude, e queria apedrejá-la como punição. Jesus, ao contrário, não a condenou, e ainda tentou ajudá-la a mudar de vida. É exatamente essa a atitude que devemos ter: não condenar os demais pelas suas falhas ou defeitos, mas sim ajudá-las a superá-los.
Voltando para Romanos 12, Paulo nos ensina que atitudes devemos ter, principalmente os versículos 10 e 16: “Dediquem-se uns aos outros com amor fraternal. Prefiram dar honra aos outros mais do que a si próprios. Tenham uma mesma atitude uns para com os outros. Não sejam orgulhosos, mas estejam dispostos a associar-se a pessoas de posição inferior. Não sejam sábios aos seus próprios olhos“. Devemos amar e honrar aos demais, colocando-os acima de nós. Devemos nos relacionar e associar com pessoas de posição inferior, ou para com o que é “humilde“, segundo a versão de Almeida Revista e Atualizada, seja financeiramente, psicologicamente, espiritualmente, enfim, em qualquer sentido. E, uma vez mais, vemos que não devemos nos considerar sábios.
O objetivo da coluna desse mês é exortar (ou seja, “aconselhar“, se procurarmos o significado em português, ou, melhor ainda, “chamar para perto, encorajar, fortalecer“, se analisarmos a raiz da palavra grega usada para traduzi-la, parakaleo (παρακαλεω)) a todos nós para a prática de considerarmos os demais sempre superiores a nós mesmos. Devemos passar a olhar ao próximo sempre com bons olhos, enxergar cada um através de seus pontos positivos. Essa prática, descrita em Filipenses 2.1-11, é fantástica e nos deixa completamente constrangidos. Logo no primeiro versículo Paulo diz que as coisas que falará a seguir são praticamente o básico, já que “se por estarmos em Cristo temos alguma motivação, alguma exortação de amor, alguma comunhão no Espírito, alguma profunda afeição e compaixão“, devemos, então, ter “o mesmo modo de pensar, o mesmo amor, um só espírito e uma só atitude. Nada façam por ambição egoísta ou por vaidade, mas humildemente considerem os outros superiores a si mesmos. Cada um cuide, não somente dos seus interesses, mas também dos interesses dos outros“. Se parássemos aí já teríamos uma grande lição que deve ser praticada diariamente com todos. O texto não especifica quais, mas considerar os “outros” superiores a nós, ou seja, todos os demais. Mas o autor continua e diz:
“Seja a atitude de vocês a mesma de Cristo Jesus, que, embora sendo Deus, não considerou que o ser igual a Deus era algo a que devia apegar-se; mas esvaziou-se a si mesmo, vindo a ser servo, tornando-se semelhante aos homens. E, sendo encontrado em forma humana, humilhou-se a si mesmo e foi obediente até a morte, e morte de cruz! Por isso Deus o exaltou à mais alta posição e lhe deu o nome que está acima de todo nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para a glória de Deus Pai“.
Uau! Se Jesus se esvaziou de si, tornou-se homem, com as mesmas dores, sentimentos e emoções, deixou seu trono de glória (Mateus 19.28, 25.31), se humilhou e obedeceu até morrer, quem somos nós pra fazermos menos do que isso?
A partir do momento em que os santos deixarem de lado seu orgulho, seu anseio por status, reconhecimento e poder, e desejar ardentemente que o amor cresça, que Jesus seja o único exaltado e elevado, a situação não apenas da Igreja de Cristo, mas também e toda a Terra, pode ser alterada. Se deixarmos de julgar os outros pelos seus defeitos, mas passarmos a olhar para a qualidade de cada um, tentando fazer uso de tais pontos positivos, e ajudando a pessoa a vencer seus defeitos, o Reino estará bem mais próximo. Deus tem esperado que filhos como Jesus se levantem, se separem do pensamento ensinado no mundo. Que tenham a mentalidade real de ministério, ou seja, serviço. Sirvamos, pois uns aos outros, da melhor maneira que conseguirmos, sem almejar recompensas, e executando tudo como se estivéssemos fazendo para nosso glorioso Deus, Aquele que brilha acima de todos!
Para temer mais:
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Alguns podem questionar e usar o texto de 1ª Coríntios 2.15 como argumento para julgamentos. Assim está escrito: “Porém o homem espiritual julga todas as coisas, mas ele mesmo não é julgado por ninguém.” (Almeida Revista e Atualizada). A Nova Versão Internacional traduz da seguinte forma: “Mas quem é espiritual discerne todas as coisas, e ele mesmo por ninguém é discernido“. A palavra grega traduzida por “julgam” ou “discernem” é anakrinei (άυακρίυει), proveniente da raiz anakrino (άυακρίυω), e significa: “examinar ou julgar; investigar, verificar, analisar cuidadosamente, questionar; especificamente num sentido forense no qual um juiz conduz uma investigação“, segundo Strong. De acordo com Léxico Louw-Nida, “fazer um julgamento com base em informações cuidadosas e detalhadas, julgar cuidadosamente, avaliar com cuidado“. Ou seja, não se trata de uma atitude que espera punir o próximo, mas sim examinar tudo o que ocorre para tomar atitudes edificantes, e não que causam divisões ou que rebaixem os demais.
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1ª Pedro 5.5 diz: “Deus se opõe aos orgulhosos mas concede graça aos humildes”.
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Em Gálatas 5, Paulo alerta para o abuso da liberdade recebida mediante o sacrifício vicário de Cristo, inclusive afirmando que não era mais necessária aos homens serem circuncidados. Algumas pessoas estavam contaminando outros, dizendo que deveriam ser circuncidados para serem justificados (v. 3, 4), mas em Jesus o que importava era a “fé que atua pelo amor“. Também estavam dando esse argumento como desculpa para deixar a carne sobressair ao Espírito (v.13b). Então, Paulo diz que fomos “chamados para a liberdade” (v. 13a), mas que não devemos abusar dessa liberdade e fazer o que é contra o Espírito, ou seja, o que procede da carne, desde atitudes até pensamentos, como o orgulho. Ao contrário, devemos “servir uns aos outros mediante o amor” (v. 13c). Então, fala que o amor a Lei foi resumida em um mandamento, como vimos no texto acima, o de amar ao próximo como a nós mesmos. Então, alerta para as desavenças: “Mas se vocês se mordem e se devoram uns aos outros, cuidado para não se destruírem mutuamente” (v. 15). No versículo seguinte, Paulo nos dá uma dica de como vivermos de forma santa, “Por isso digo: Vivam pelo Espírito, e de modo nenhum satisfarão os desejos da carne.“
Por Emanuel Amaral Schimidt. Curitiba, 15 de Maio de 2008.