Fidelidade
(Pastoral, nº 02 – 02 de Abril de 2008. Versão para Impressão)
A crise de valores que assola o mundo está se tornando tão profunda que pode chegar a um estado em que não haverá mais volta. A humanidade caminha para um futuro nefasto, uma sociedade perdida em si mesma, sem moral, sem credibilidade, totalmente sem rumo. Quando colocamos nossas cabeças nos travesseiros temos a única certeza de que, no dia seguinte, o mundo ficará um pouco pior. Por exemplo o Efeito Estufa. Por que está ocorrendo? Sim, são os gases que destroem a Camada de Ozônio e causam todo o ciclo de destruição. Mas qual a causa dos poluentes? A mesma de todos os problemas: ganância, orgulho, narcisismo… Hoje tudo gira em torno do ganhar, não importam as conseqüências. E o pior, nós, os cristãos evangélicos, somos os grandes responsáveis pelos problemas da sociedade!
Em Mateus 16.18, Jesus disse que “as portas do inferno não prevaleceriam contra a igreja“. Ainda bem que isso sempre será verdade! O problema é que a pseudo-igreja que vivemos está impregnada do inferno e de seus valores. Só isso já dá pra afirmar que muito do que vivemos é mentira. O que falar dos pastores ladrões e ainda por cima mentirosos? Ou dos políticos “crentes” que desviaram milhões no sangue-suga? E não pense que são apenas os “peixe-grandes” que fazem isso. O que dizer dos irmãos que recebem troco a mais do cobrador de ônibus e não devolvem? “Uau, que benção do Senhor, recebi troco a mais!”, já ouvi falarem! A única diferença entre os políticos e os “irmãozinhos” é a quantidade de zeros na quantia que furtou: dez centavos, dez reais ou dez milhões. O princípio que leva uma pessoa a cometer esse pecado são os mesmos citados no parágrafo acima, e a própria Bíblia afirma isso, como veremos em breve.
Como podemos apontar os erros do mundo se eles estão dentro de nós? Que autoridade tem um cego para guiar outro cego? Devemos voltar à Palavra que Deus deixou para nos guiar e aprender o que Jesus ensinou. Sabemos que o batismo é imprescindível para a salvação (cf. Marcos 16.16). Sabemos que quando submergimos na água estamos dizendo a todos, inclusive Deus, que escolhemos morrer para nós mesmos, nossos desejos, anseios, orgulho. Tomamos a cruz de Cristo e afirmamos que fazemos parte daquilo. Por que, então, construir coisas nessa terra, e ainda de forma ilegal?
No capítulo dezesseis do livro de Lucas, podemos ler a parábola do administrador astuto. Vamos chamá-lo de Gérson (sim, com segundas intenções – lembram da “Lei de Gérson”? Então…). Ao ver que seria demitido por seu senhor, Gérson pensou num jeito de garantir seu futuro. A solução foi muito inteligente e bem pensada, tanto que recebeu elogios do seu chefe. Logo depois, Jesus retoma a palavra e diz: “Os filhos deste mundo são mais astutos no trato entre si do que os filhos da luz. Por isso eu lhes digo: Usem a riqueza deste mundo ímpio para ganhar amigos, de forma que, quando ela acabar, estes os recebam nas moradas eternas” (v. 8). Ao ler uma primeira vez, parece que Jesus está dizendo para utilizarmos do mesmo artifício de Gérson, ou seja, sermos espertos quanto à forma de ganharmos dinheiro. Mas, se pararmos pra pensar um pouco, percebemos uma severa crítica: devemos fazer uso de todo o dinheiro que recebemos para ganhar amigos, ou seja, ajudar pessoas que estão ao nosso redor (daí o “trato entre si“, ou sermos “prudentes com essa geração“, como diz a Bíblia de Jerusalém), fato, este, ensinado por Cristo em Mateus 19.21, quando diz “vende tudo o que tem e dá aos pobres, [então] terás um tesouro no céu“. Mandou os discípulos fazerem o mesmo em Lucas 12.22-34.
Jesus está mostrando que o fruto do nosso trabalho não deve ser para nós mesmos construirmos pequeninos reinos nesta terra, mas sim que é mais valioso fazer amigos e juntar tesouros eternos, que não se corroem (cf. Mateus 6.20). Jesus continua a falar, e trás uma das maiores lições de todo o cristianismo, no versículo dez: “Quem é fiel nas coisas mínimas, é fiel também no muito, e quem é iníquo no mínimo, é iníquo também no muito” (Bíblia de Jerusalém). Uau, viram como a Bíblia fala que a diferença entre quem furta alguns centavos e alguns milhões é apenas o número de zeros? A mesma iniqüidade, o mesmo pecado, o mesmo erro. Essa palavra para iniqüidade, adikos, designa alguém que sabe o que é certo mas escolhe, deliberadamente, fazer as coisas erradas. Esse ensinamento é repetido nos evangelhos sinóticos por pelo menos mais quatro vezes: na parábola das dez minas (em Lucas 19.11.26); na parábola dos talentos (em Mateus 25.14-28); no pedido da mãe dos filhos de Zebedeu (em Mateus 20.20-28 ) e na discussão sobre “quem era o maior no Reino” (em Marcos 9.33-37). Em todas elas Jesus diz que quem quiser ter mais deve ser fiel no pouco que lhe foi confiado; quem quiser ser servido deve ser servo primeiramente.
Mas, apesar de falarmos de dinheiro, este não é o objetivo da coluna desse mês. O principal é sobre a “fidelidade no pouco”, fidelidade em relação a tudo que Deus confia em nossas mãos. As parábolas das minas e dos talentos dão um ótimo exemplo: aqueles que aceitaram o que receberam e multiplicaram foram elogiados e ganharam ainda mais, mas quem escondeu o que tinha, seja por medo, vergonha, timidez, etc, perdeu até o que tinha. Em Lucas 13.6-8, Jesus narra outra parábola, sobre uma figueira que não dava frutos. Ela deveria ser podada pois estava inutilizando um espaço que poderia ser de uma árvore que desse fruto. Os textos de Mateus 3.10; 7.19 e Lucas 3.9 acrescentam que, além de ser cortada, será lançada ao fogo. Dar frutos significa demonstrar mudanças, seja de caráter, de fé, de espiritualidade, etc. Se ficamos estagnados, parados, sem crescer e dar frutos, corremos o sério risco de servos podados e carbonizados.
Todos temos dons úteis para servir ao Corpo de Cristo (cf. Romanos 12.6), para edificação da igreja (cf. 1ª Coríntios 14.12). Temos visto pessoas muito capacitadas que receberam pequenas “fundas” do Senhor. Davi praticou com a sua por algum tempo antes de usá-la contra Golias. Não trocou aquilo que ele sabia usar nem pela gloriosa armadura do rei Saul. Há uma necessidade crescente de que cada um, a começar por mim, tenha plena identidade de quem é, de quais dons possui, qual o chamado, quais os propósitos em cada lugar que Deus levar, e comece a viver HOJE, aonde estamos, seja em nossa casa, como Davi, seja nas escolas, faculdades, trabalhos ou igrejas. É triste ver tantas profecias de pessoas chamadas por Deus para outros países, mas ficam esperando o dia da viagem chegar, sentados, e não entendem que até lá há todo um longo caminho a percorrer. Muito tem sido chamados, mas poucos tem sido escolhidos para cumprirem seus propósitos (cf. Mateus 22.14). Esse versículo foi dito num contexto totalmente escatológico, um convite feito pelo pai do noivo, mas “eles não deram atenção e saíram, um para o seu campo, outro pra os seus negócios“. Alguns até maltrataram os servos que tinham ido convidá-los! O rei não teve outra solução senão matá-los.
A pergunta que faço é: até quando? Até quando brincaremos de igreja? Até quando construiremos nossos pequenos feudos? Até quando vamos ver pessoas pensando que “servir” a Deus é cantar ou tocar numa banda “gospel”, ou que é estar no “altar” onde todos podem ver? Até quando veremos pessoas sendo infiéis quando se trata de limpar o chão da igreja? A Bíblia é clara: se alguém é infiel no pouco, imagine sobre o muito? O que podemos esperar de Deus? Jesus responde na continuação do ensinamento sobre o Gérson.
“Assim, se vocês não forem dignos de confiança em lidar com as riquezas deste mundo ímpio, quem lhes confiará as verdadeiras riquezas? Se se vocês não forem dignos de confiança em relação ao que é dos outros, quem lhes dará o que é de vocês? Nenhum servo pode servir a dois senhores; pois odiará um e amará outro, ou se dedicará a um e desprezará outro. Vocês não podem servir a Deus e ao Dinheiro [Mamon]” Lucas 16.10-13, Nova Versão Internacional.
Como vimos, Jesus está ensinando sobre a sabedoria em lidar com o dinheiro, mas, além dessa abordagem, estamos trabalhando sobre aquilo que Deus nos concede espiritualmente. Não há muito o que acrescentar em relação às riquezas: se não cuidamos do que temos hoje como iremos cuidar daquilo que Deus quer nos dar? Como sabemos, uma árvore boa não pode dar frutos maus, assim como uma árvore má (do grego sapros (σαπρον), “apodrecido, podre; corrompido por alguém e não mais próprio para o uso; de qualidade pobre, ruim“) não pode dar frutos bons. (Mateus 7.17,18). Se estamos corrompidos, não podemos cuidar de tesouros que não se corrompem, não é mesmo?
Paulo, na segunda carta aos Coríntios, capítulo 4, fala sobre tesouros que Deus tem concedido, e que são armazenados em vasos de barro, com o intuito de “mostrar que este poder que a tudo excede provém de Deus” (v. 7), mas pra isso ele carregava no corpo o “morrer de Jesus” (v. 9). Se queremos ser dignos de que algo seja confiado em nossas mãos, no futuro, devemos cuidar daquilo que ele já nos deu. Devemos ser fiéis no pouco. Certa vez um profeta revelou alguns dons que cada pessoa tinha. Eu tinha dois, enquanto outros tinham muitos mais. Eu fiquei indignado com Deus, acreditam? Fiquei triste por ter apenas dois dons! Então, certa vez, quando estava orando, Deus me corrigiu, e disse que eu deveria praticar o que Ele tinha me dado, primeiro para que fossem multiplicados e dessem fruto, segundo pra que aquilo não se perdesse, não atrofiasse, e lembrou que os dons espirituais podem (e devem!) ser buscados (1ª Co 12.31). Nesse momento vi quanta mesquinheza eu tinha em meu coração, querendo ter mais dons não para agregar à Igreja e ajudá-la a ser edificada, mas sim para meu benefício próprio. Como eu estava errado! A partir de então comecei a praticar aqueles poucos dons, e têm sido úteis a cada dia, mas também continuo a busca por outros dons que creio serem necessários e que estejam em falta para o crescimento do corpo, ou até mesmo para completar aquilo que Deus já me deu. Por exemplo, um dom pastoral de aconselhamento mas com uma influência profética, que vá direto ao ponto da vida da pessoa (que as vezes ela tenta esconder) é muito mais efetivo do que horas ou até meses de conversas até a pessoa se abrir, por isso esse último dom iria completar o primeiro, otimizando os resultados.
Da mesma forma que não podemos servir a Deus e ao Dinheiro, não podemos buscar Seu Reino e buscar o nosso reino de glória. Não podemos andar na luz sem amar ao próximo (cf. 1ª João 2.9). Não iremos caminhar rumo ao alvo (cf. Filipenses 3.14) que o Senhor tem proposto se estamos caminhando em busca de nossos próprios alvos, de nossas metas de vidas. Enquanto não vivermos nos propósitos de Deus para nossa vidas, estaremos longe de alcançarmos o alvo, longe de ganharmos “o prêmio da soberana vocação“. A menor de nossas atitudes demonstra o maior dos nossos interesses.
Para finalizar sua ilustração de serviço, de dar importância para cada pequena coisa, Jesus concluiu: “Aquilo que tem muito valor entre os homens é detestável aos olhos de Deus” (v. 15). Mas, então quer dizer que os interesses materias que motivam a maioria dos evangélicos é detestável aos olhos de Deus? E um CD gravado também? E um livro escrito ou um post publicado num blog? Sim, se isso tem valor demasiado em seu coração, se aí está o seu tesouro, isso se torna detestável para Deus. Um dos temas mais importantes do trecho de Lucas 12.22-34 citado acima é o último versículo: “Pois onde estiver o seu tesouro, ali também estará o seu coração“. Se nosso coração estiver no lugar errado, com as intenções erradas, isto será abominável.
Para finalizar, leiamos o trecho de Mateus 24.45-51:
“Quem é, pois, o servo fiel e sensato, a quem seu senhor encarrega dos de sua casa para lhes dar alimento no tempo devido? Feliz o servo que seu senhor encontrar fazendo assim quando voltar. Garanto-lhes que ele o encarregará de todos os seus bens. Mas suponham que esse servo seja mau e diga a si mesmo: ‘Meu senhor está demorando’, e então comece a bater em seus conservos e a comer e a beber com os beberrões. O senhor daquele servo virá num dia em que ele não o espera e numa hora que não sabe. Ele o punirá severamente e lhe dará lugar com os hipócritas, onde haverá choro e ranger de dentes.“
Esse texto resume o que falamos até agora, da importância de obedecermos a Deus não importa se os homens verão ou não, se seremos recompensados ou não, apenas porque O amamos, porque queremos agradá-lo. Ai daquele que deixar de fazer aquilo que Deus mandou, ai daquele que deixar de exercer seus dons. Em João 14.15, Jesus diz que “se o amamos, guardaremos os seus mandamentos“. Os mandamentos mais importantes para Cristo eram: amar a Deus sobre todas as coisas e amar ao próximo como a nós mesmos (cf. Marcos 12.28-31). Em João 13.34 e 15.12 Jesus fala de um novo mandamento, o amor ao próximo. Em 1ª Coríntios 13 temos várias características do que não é amor, entre elas: invejoso (ou que não arde em ciúmes), vanglorioso (ou que não se ufana) e orgulhoso (ou que não se ensoberbece). Se amamos aos nossos irmãos, vamos buscar o interesse do Corpo. Se amamos a Deus, vamos ansiar pelo crescimento cada vez maior do Seu Reino. Se entendemos isso, não iremos buscar mais status, mas sim viveremos felizes com o que Deus tem dado. Se vestirmos a camisa, até um plástico de bala no chão será nossa responsabilidade. E o que falar da vida de cada santo que se reúne conosco? Será bem mais relevante.
Portanto, não sejamos mais gananciosos, buscando nossos próprios interesses. Sejamos, portanto, fiéis no pouco, e esperar que no muito Ele nos colocará, nem que seja na Eternidade. E que a pergunta “Até quando?” possa ser o quanto antes respondida.
Para temer mais:
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Sobre sermos prudentes (ou astutos), vale a pena ler, além das passagens que estão no texto: Mateus 7.24-29, sobre o homem prudente que edificou sobre a rocha; Mateus 10.16, quando Jesus envia seus servos e os ordena serem astutos como a serpente; Mateus 25.1-13, sobre as conseqüências boas de sermos prudentes e ruins de sermos néscios (ímpios).
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Sobre sermos bons administradores: Lucas 12.42; 1ª Coríntios 4.1-2; Tito 1.7 (traduzido como “despenseiro” em algumas traduções); 1ª Pedro 4.10.
Por Emanuel Amaral Schimidt. Curitiba, 02 de Abril de 2008.