(Apostatamos! nº 01, 23 de fevereiro de 2008. Versão para Impressão)
“É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã…” O longínquo ano de 1989 suscita nos corações daqueles que o viveram, intensa e conscientemente, um prisma tanto quanto confuso de recordações boas e ruins. O noticiário trazia para dentro de nossas salas de estar toda a tragédia de um mundo que começava a experimentar os múltiplos significados da palavra “globalização”. Da China as imagens de jovens sendo dilacerados por frios tanques de guerra faziam parecer suma utopia sonhar com a Paz Celestial, e o que dizer da bela São Francisco e do terremoto que abalou suas estruturas. Em Berlim caía um muro de inimizade e dor, último resquício da segunda grande guerra, mas maior que a esperança de uma nova Europa, agora unida pelos auspícios da mútua cooperação entre os povos, havia o medo e a dúvida em relação ao nosso futuro como civilização. A Guerra Fria parecia terminada, mas e as ogivas nucleares? Até quando duraria uma paz que num lado do mundo celebrava sua vitória enquanto lá, na milenar República Popular da China, destruia a vida de crianças que só faziam sonhar com a liberdade?
“É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã…” E aqui, no não menos instável e desesperado Brasil, a “mega-inflação”, palavra que não consta no vocabulário da recente geração “Real”, devorava sem cerimônias o mísero salário de quem mal tinha como sobreviver. Promulgara-se a Constituição, que o tempo mostrou ser tão falha quanto o caráter daqueles que legislaram sobre ela. Ainda vivíamos o medo da opressão dos militares, Sarney, que não fora eleito pelo povo (nenhuma novidade nos últimos trinta anos), governava com pulso de barata um país que parecia naufragar feito barquinho de papel em meio as ondas num mar revolto. Nas primeiras eleições diretas em vinte e nove anos nossa população elegeu Fernando Collor de Mello (todos sabem como terminou). No meio de tudo, sublinhe-se a inflação de quase 80% ao mês (ao mês!), o saudoso Renato Russo e sua Legião Urbana lançam “As Quatro Estações”, e “Pais e Filhos” passa a tocar em nossos “rádios” com uma freqüência que parecia abafar o som das notícias ruins que devastavam esse frágil mundo. Era preciso amar…
Já se passaram dezenove anos, o vislumbre de duas décadas, o peso de tudo que fizemos e deixamos de fazer durante esse imenso período de tempo, nos obriga a pensar, refletir sobre o que mudou, o quanto mudamos. O mundo, o Brasil que foi impactado com Pais e Filhos, já não é o mesmo. Tudo parece tão estável, tão Real, e o Oriente Médio está longe o bastante de nossas janelas para não deixar de ser assunto de fim de noite num boteco de letrados. Esquecemos do grito desesperado da geração que via seu mundo naufragar:
É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã,
Porque, se você parar para pensar, na verdade não há...
Hoje, lembramos desse refrão com mais facilidade que João 3.16, mas não com a mesma intensidade que a verdade inexorável que ele nos trás deveria evocar. A Bíblia diz que, caso os que devessem falar a respeito das verdades do Reino de Deus se calassem, o Senhor levantaria pedras em seu lugar (cf. Lucas 19.40). E o refrão de Pais e Filhos é um claro exemplo disso. Esquecemos facilmente de quem somos, do que foi feito com nossas vidas a partir do momento que escolhemos nos tornar seguidores de Jesus Cristo. Vivemos dia após dia como se fizéssemos parte desse mundo, como se pertencêssemos a natureza carnal que domina a humanidade.
Paulo nos exorta: “Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” – Romanos 12.2, NVI. O grego σνσχηματιζεσθε (suschematizesthe) não poderia ser melhor traduzido e não poderia traduzir melhor nossa atual situação espiritual. Significa, literalmente, estar “com a forma ou aparência, que engloba tudo o que numa pessoa afeta os sentidos, a forma, o comportamento, o discurso, ações, forma de vida”. O apóstolo nos conclama a não ter a suschematizesthe desse mundo, ou século, ou ainda geração. A palavra αποστασια (apostasia) quer dizer “separação, divórcio, deserção”, logo se nos conformarmos com o que afeta os sentimentos desse século, seu comportamento, discurso ou ações, estaremos separados dos padrões do Reino de Deus, ou seja, apostatamos!
E o que nos diz esse século? Qual a clara mensagem que, desde 89 pelo menos, é passada a nossa geração? “O sonho acabou”, disse Lennon, e o fôlego daqueles que duvidavam dessa máxima foi-se esvaindo dia após dia por toda a década de 1980. Finalmente os mercados, a internet, a “aldeia global” sobrepujaram os ideais mais nobres da humanidade, e da Igreja, transformando-nos em máquinas de ganhar dinheiro, de fazer dinheiro. O que assistimos nos últimos dezoito anos foi o nascimento e o desenvolvimento de uma geração completamente descomprometida com o futuro do mundo, alheia a ideais e incapaz de sonhar com um mundo melhor e mais justo para todos. A esse respeito, vale a pena vasculharmos o lado negro da força, e pesquisar sobre o que pensa o inimigo:
Vida é a grande indulgência – morte, a grande abstinência. Portanto, faça o melhor da vida – aqui e agora! – (IV,1).
Abençoados são os poderosos, pois eles serão reverenciados no meio dos homens. – (V,2).
Abençoados são aqueles que pensam no que é melhor para si, pois suas mentes nunca serão aterrorizadas – amaldiçoados são as “ovelhas de Deus” – (V, 9).
São trechos da “Bíblia Satânica”, facilmente encontrada na internet. Com certeza não é um documento oficial, pendendo mais para apologia panfletária de jovens rebeldes, mesmo assim é terrivelmente assustador o que encontramos ali. Enquanto os Ghostbusters evangélicos de plantão passam a vida encontrando demônios escondidos em embalagens de Coca-cola, desenhos da Disney e canções de rock, o verdadeiro “satanismo” é bem mais sutil do que aquele pregado por embusteiros e seus caros testemunhos escritos em livros e gravados em vídeo. Estamos assistindo diariamente a corrupção do gênero humano. Pior que isso, estamos nos corrompendo junto com eles.
Faça o melhor da vida, aqui e agora! É isso que prega Satanás, e não precisamos de bíblia satânica alguma para saber disso, é isso que pregam os pastores evangélicos e suas campanhas de prosperidade, cura divina, libertação. É isso que pregam nossas orações egoístas, pedindo sempre mais dinheiro, sempre mais bens de consumo, sempre o “melhor para nós mesmos”. Reverenciamos o poder, procuramos sempre quem tem mais, conhecimento, dinheiro, fama. Sempre pensamos no que é melhor para nós. Olhe em seu guarda-roupas, e muito provavelmente vá encontrar exatamente o que a sociedade diz para você vestir. A maioria das pessoas nem usa todas as roupas que têm. E quais programas de televisão você assiste? O que te diverte? Qual é a nossa diferença de todo o resto do mundo?
Eis que venho em breve! A minha recompensa está comigo, e eu retribuirei a cada um de acordo com o que fez. Eu sou o Alfa e o Ômega, o Primeiro e o Último, o Princípio e o Fim. – Apocalipse 22.12,13.
Essas palavras de Jesus têm andado tão distantes de nós nesses dias! O Apocalipse parece um pesadelo remoto, afinal temos muito a fazer. Nossas carreiras, nossos sonhos! A casa própria! O carro novo! A promoção no emprego! Somos tão ocupados!
Quanto ao dia e à hora ninguém sabe, nem os anjos dos céus, neo m Filho, senão somente o Pai. Como foi nos dias de Noé, assim também será na vinda do Filho do homem. Pois nos dias anteriores ao Dilúvio, o povo vivia comendo e bebendo, casando-se e dando-se em casamento, até o dia em que Noé entrou na Arca; e eles nada perceberam, até que veio o Dilúvio e os levou a todos. Assim acontecerá na vinda do Filho do homem. [...] Portanto, vigiem, porque vocês não sabem em que dia virá o Senhor. [...] Vocês precisam estar preparados, porque o Filho do homem virá numa hora que vocês menos esperam. – Mateus 24.36-44 (editado pelo autor do artigo).
Quantas vezes nós choramos ao cantar “Pais e Filhos”! E ainda assim não aprendemos o básico: Jesus está voltando. Não temos tempo a perder com esse século, cada dia deve ser o último diante de Deus e temos de dar o melhor de nós, porque pode ser para sempre. Essa é a ênfase primordial do cristianismo: “Arrependei-vos, pois está próximo o Reino de Deus” (Mateus 3.2; 4.17; Marcos 1.15; Atos 2.38; 3.19), e isso implica que esse mundo está com os dias contados! Alguns dizem que a Legião Urbana tinha pacto com o Diabo, eu digo que a maioria das pessoas em nosso tempo vive em pacto com o Inferno, porque vive segundo os preceitos egoístas desse mundo. Aliás, eu não, Paulo diz: “vocês se tornam escravos daqueles a quem obedecem” (Romanos 16.16). A pergunta que não quer calar: a quem tenho obedecido?
Vamos estudar o Evangelho de João. Em 14.3, Jesus diz que vai preparar lugar para os discípulos, e voltará para reuní-los novamente; em 15.12, ele diz que o mandamento dele é este: “Amem-se uns aos outros”; e logo depois ele diz:
Se o mundo os odeia, tenham em mente que antes me odiou. Se vocês pertencessem ao mundo, ele os amaria como se fossem dele. Todavia, vocês não são do mundo, mas eu os escolhi, tirando-os do mundo; por isso o mundo os odeia. – João 15.18,19.
O mundo têm nos odiado? Será que nós não pertencemos a este mundo? Jesus continua:
Dei-lhes a tua palavra, e o mundo os odiou, pois eles não são do mundo, como eu também não sou. Não rogo que os tires do mundo, mas que os protejas do Maligno. Eles não são do mundo, como eu também não sou. Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade. – João 17.14-17.
A verdade é que a Palavra de Deus tem estado cada vez mais distante de nossas vidas. Quando Jesus esteve nesse nosso mundo ele deixou dois recados importantes: amem-se uns aos outros, e me esperem de volta. Não fazemos nem um nem outro, e ainda assim acreditamos amar a Jesus.
Apostatamos! Nossos cultos e reuniões de oração giram em torno daquilo que podemos receber de Deus, não do que podemos dar uns para os outros. Apostatamos! Hoje o mais perto que oferecemos da presença de Deus para as pessoas são canções ridículas que acabam com pessoas em transe extático babando no chão de nossas salas de reunião. Apostatamos!
E temos de chamar Renato Russo para pregar o Evangelho aos “crentes”: É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã. Porque, se você parar para pensar, na verdade não há…
O Reino de Deus é mais importante que tudo em nossa volta. Jesus quis dizer que era tudo em nossas vidas ao afirmar ser o “Alfa e o Ômega”. É tempo de colocarmos diante do Senhor todas as nossas motivações. Perguntar a Ele o que devemos fazer de nossos dias. O mundo pode parecer melhor que em 1989, mas na verdade está mais perdido do que nunca esteve. Temos mais dinheiro, é verdade, mas ele só serve para pagarmos as prestações de nossos planos funerários espirituais.
A prosposta dessa nova coluna é apresentar erros e soluções para as crises do cristianismo hodierno, mas a crise moral que vivemos, a vituperação dos ideais cristãos mais caros como o amor ao próximo e a expectativa do retorno de Cristo, essas não têm solução prática alguma além daquela descrita em Gálatas 2.20: Precisamos deixar que Cristo viva em nós.
O que esperamos do amanhã? É a primeira pergunta que lhes faço. A única coisa que a Bíblia diz que devemos esperar é o Reino de Deus.
“Eis que venho sem demora” – Jesus Cristo.
Por Emerson Silva. Curitiba, 23 de fevereiro de 2008.
[...] “A palavra αποστασια (apostasia) quer dizer “separação, divórcio, deserção”, logo, se nos conformarmos com o que afeta os sentimentos desse século, seu comportamento, discurso ou ações, estaremos separados dos padrões do Reino de Deus, ou seja, apostatamos! [...] O que esperamos do amanhã? É a primeira pergunta que lhes faço. A única coisa que a Bíblia diz que devemos esperar é o Reino de Deus.” ─ Apostatamos!, nº 01, 23/02/2008 [acesse on-line]. [...]