|Apostatamos!|nº 05, 10 de setembro de 2008|versão para impressão|
Assim como o corpo sem alma não passa de carcaça morta, também o falar vazio não passa de carcaça sem vida. A alma da religião é a prática. [...] Disso Tagarela não se dá conta; ele acha que ouvir e falar fazem um bom cristão, e assim engana a própria alma. Ouvir é somente a semeadura; falar não é suficiente para provar que o fruto já está de fato no coração e na vida. É bom que saibamos que no dia do juízo os homens serão julgados segundo os seus frutos, pois não lhes será perguntado: “Vocês acreditaram?”, mas “Vocês foram praticantes ou meramente faladores?”. E assim serão julgados. – Bunyan, John. “O Peregrino”, capítulo 10: Os Falsos Mestres.
Jamais me convide para pregar! Por favor, entenda-me, não nasci de novo para isso. E nascer do alto é algo que sempre procurei levar muito à sério. Nada tenho contra uma boa pregação, de fato, leio a maioria das homilias do Papa Bento XVI que posso, e, sendo sincero, sou um tanto quanto apaixonado pela arte da retórica, mas amo muito mais ao meu Senhor.
O problema não é o que não tenho contra a pregação, mas sim o que tenho a favor do anúncio neotestamentário do Evangelho de Jesus Cristo. Por falar na metade grega da Bíblia, existem dois verbos por trás do português “pregar”. O primeiro deles é técnico, kērýssō, “anunciar, proclamar”, e o outro mais vago, euangelizomai, “trazer boas notícias, anunciar boas novas”. São palavras tão parecidas que, é claro, mereceram uma tradução idêntica no inglês da King James, que João Ferreira de Almeida não teve vergonha de copiar e influenciar várias gerações de leitores na boa língua lusitana. Contudo, basta a qualquer tradutor esforçar-se um pouco mais para encontrar logo ali, na Vulgada de Jerônimo, alternativas completamente diferentes de tradução. É assim que temos “In diebus autem illis venit Ioannes Baptista praedicans in deserto Iudaeae” (Mateus 3.1), num clássico emprego de kērýssō, contra “Nam si evangelizavero, non est mihi gloria; necessitas enim mihi incumbit. Vae enim mihi est, si non evangelizavero!” (1ª Coríntios 9.16), não menos importante utilização de euangelizomai. Ora, praedicans e evangelizavero são tão fundamentalmente diferentes quanto “falar sobre a última rodada do Campeonato Brasileiro de Futebol” e “anunciar que eu e minha noiva vamos nos casar em dezembro próximo”.
Jonh Bunyan pagava com a privação de sua liberdade a ousadia de praticar a fé quando decidiu falar sobre ela no clássico The Pilgrim’s Progress (O Peregrino). O trecho que escolhi para começar essa coluna talvez trate-se da mais ácida e severa denúncia que o cristianismo episcopal inglês sofreu até hoje por meios oficiais e amplamente difundidos. O problema é que o Protestantismo esqueceu de protestar. Esqueceu-se que Lutero começou a mudar o mundo ao pregar aquelas teses e desafiar Leão X ao debate racional e escriturístico das doutrinas ensinadas pela Igreja. Poucos tiveram a coragem de Bunyan em falar – não o que pensam – mas o que diz a Bíblia sobre a conduta e a moral evangélica. Tudo agora são panos quentes, e somos como que prisioneiros de “Oz, o Grande e Terrível”, sem jamais saber que é um patife franzino e mais covarde do que nós a esconder-se atrás do biombo. Para isso existe o Apostatamos!, para falar sem medo o que deve ser falado, porque a verdade urge ser dita. Como diziam os latinos, veritas odium parit (a verdade atrai o ódio), mas Jesus nos alertou sobre o ódio e os inimigos que granjearíamos com a Palavra. Nas últimas colunas, mostramos como alguns tem dissimulado a verdade e lucrado com a ignorância do povo de Deus, pedindo dízimos em nome de uma interpretação apóstata das Sagradas Escrituras. Agora precisamos ir mais longe, pois tenho visto lobos como nunca antes a rondar o rebanho de nosso Senhor. São falsos mestres, que falam demais e fazem de menos. Falsos discípulos, que amam os altares, os holofotes e o púlpito, mas fogem do pano, do rodo e da vassoura. Mercenários que ostentam o título de pastores para alimentar-se da carne e agasalharem-se com a pele das pobres ovelhas. Oportunistas que vociferam profecias em nome Daquele que jamais conheceram ou mesmo esforçaram-se sinceramente por conhecer.
O tema dessa coluna é hipocrisia, o pior dos tipos dela. Nosso título baseia-se num trecho do capítulo 23 do Evangelho segundo Mateus, formidavelmente traduzido por André Chouraqui:
1 Então Iéshoua‘ fala às multidões e a seus adeptos. 2 Ele diz: «Na cadeira de Moshè estão sentados os Sopherîms e os Peroushîms. 3 Portanto, tudo o que eles vos dizem, fazei-o e guardai-o. Apenas não façais segundo suas obras. Sim, eles dizem e não fazem. 4 Eles fazem cargas pesadas e as impõem sobre os ombros dos homens; mas eles próprios não são capazes de movê-las com seu dedo».
5 «Eles fazem todas as suas obras para serem notados pelos homens. Sim, eles incham seus tephilîms, alongam seus sisits; 6 eles gostam do melhor lugar nos jantares, do primeiro assento nas sinagogas, 7 das saudações nos mercados, e de serem chamados pelos homens: “Rabi”».
8 «Quanto a vós, não vos façais chamar “Rabi”: sim, vosso rabi é único e vós sois todos irmãos. 9 Não chameis a ninguém na terra de “Pai”: sim, vosso pai dos céus é único. 10 Não vos façais chamar “Chefe”: sim, vós tendes um único chefe, o messias. 11 O maior dentre vós será vosso servo. 12 Quem se eleva será humilhado; quem se humilha será elevado.» – Chouraqui, André. Matyah (O Evangelho Segundo Mateus). pgs. 283-85.
Como destaquei, o capítulo começa com uma peculiaridade em relação aos demais discursos de nosso Senhor Jesus Cristo. Isso porque o Messias raras vezes falava diretamente às multidões, o que é claramente afirmado no mesmo Evangelho de Mateus, capítulo 13, verso 34. Segundo Reese, esse foi o décimo sexto discurso de Jesus, feito apenas quatro dias antes da crucificação. Antes disso ele havia proferido vinte e nove parábolas e discursado outras quinze vezes, todas falas importantes o suficiente para constar no relato canônico de sua vida. A questão é por que, justamente agora, próximo do fim, uma condenação tão severa do farisaísmo é proferida, e isto diante de toda Jerusalém. A opinião deste autor é que, ante à sua paixão e a consumação de seu propósito, era necessário ao Cristo chamar ainda uma última vez Israel de volta à Torá. Isso porque, caro leitor, a obediência é a alma da Lei.
Eles dizem e não fazem! Essa é a condenação final aos fariseus, o Salvador só tornará a vê-los no Sinédrio, e na inglória posição de réu, sentenciado por antecipação à morte. Esse foi o último apelo de um Deus amoroso aos líderes de uma nação fadada à destruição total. Esse é o mesmo apelo de Jesus ressurreto, e Ele o faz à imensa orbe daqueles que dizem crer em suas palavras. Eles dizem e não fazem! Cristo se dirige a todos, desde os apóstolos, incumbidos de gerenciar a Ekklēsía nascente, até o mais provinciano camponês que peregrinava à Cidade Santa por ocasião da Páscoa. Essas são asseverações que todos nós devemos observar e entender, porque de sua observância depende nossa salvação (cf. Provérbios 16.17).
A Cátedra de Moisés
Por hora deixemos de lado Mateus 23.1-12 e concentremos nossos esforços em tentar entender um importante conceito dentro do contexto da passagem: “A Cátedra de Moisés”, ou a “Cadeira de Moshè”, segundo os hebraísmos de Chouraqui. O único motivo pelo qual o povo deveria dar ouvidos as palavras dos líderes religiosos daquela época era o fato de ocuparem tal assento.
No mundo moderno temos dois exemplos gerais de Cátedra. O mais comum é o acadêmico, assim a “Cátedra de Biologia da Universidade Federal do Paraná é ocupada pelo Doutor Fulano de Tal”, e tal ocupante tem certa autoridade sobre o curso universitário. O outro, restrito ao círculo eclesiástico, representa a jurisdição de um Bispo, por exemplo, “o Papa assenta-se sobre a Cátedra de São Pedro, como Bispo de Roma”, ou “Cláudio Cardeal Hummes ocupava até outubro de 2006 a Cátedra episcopal da cidade de São Paulo”. Dentro da hierarquia Católica Romana o Sumo Pontífice têm autoridade sobre os Arcebispos Metropolitanos, que por sua vez tem autoridade sobre os demais Bispos e Padres. Em síntese, o entendimento de Cátedra não mudou muito desde os tempos de Cristo, e assim podemos resumir o termo como o lugar de honra ocupado por um grande vulto do passado, e que a concede a seus atuais ocupantes o seu mesmo nível de autoridade.
Na época de nosso Senhor, segundo ele próprio, esse lugar era ocupado pelos Escribas e Fariseus, portanto devemos voltar ao passado e entender melhor um pouco desses dois importantes elementos da sociedade judaica do primeiro século.
Para compreender o farisaísmo devemos voltar aos tempos da Revolução dos Macabeus. Tudo começou com a revolta de um grande herói judeu, Judas ben Matatias (cujo sobrenome, em grego, Makkabaios, acabou por nominar toda sua descendência). Judas e seus partidários iniciaram uma insurreição contra os desmandos de Antíoco IV (Epifânio), que, entre outras barbaridades, vendia o Sumo Sacerdócio de Jerusalém a quem lhe pagasse mais, profanou o Templo instituindo ali prostituição cultual e sacrifícios pagãos, e instituiu altares reais nas vilas da região, onde deveriam ser oferecidos sacrifícios a seus deuses. Judas, cuja bravura e representação na Judéia é comparada por alguns a de Wilhelm Tell na Suíça, mesmo idoso, assassinou um compatriota traidor que viera até sua aldeia (Modein, à cerca de 32 km de Jerusalém) oferecer sacrifícios sobre o altar real. A guerrilha começou nas colinas da região, e certos hassideanos, (do hebraico hasidim, “leais” ou “santos”), leais a Onias III, último Sumo Sacerdote legítimo, deposto por Antíoco IV, e extremamente patriotas, juntaram-se a eles. Num resumo extremo da história, os Macabeus, com a ajuda dos Hasidim, venceram a opressão estrangeira e iniciaram uma dinastia sacerdotal na Judéia. O primeiro a acumular o cargo de Governador e Sumo Sacerdote foi Simão, último dos sobreviventes de Matatias. Simão Macabeu acabou sendo assassinado pelo genro em 135 a.e.c., e seu filho, João Hircano, assumiu então o governo da Judéia, ainda que temporariamente vassalado ao Império Selêucida (fragmentário do Império Macabeu, de Alexandre Magno). Hircano contou com o apoio dos Hasidim, que por volta dessa época passaram a ser conhecidos como Peroushîms (Fariseus, termo que mui provavelmente significa “os separados”). Contudo os Peroushîms voltaram-se contra a perigosa mistura entre religião e política e deixaram de lado as lutas revolucionárias, por isso foram ferozmente perseguidos por Hircano e seus filhos, perseguição que foi aplacada somente com a ascensão ao poder da esposa do governador, Alexandra Salomé entre os anos de 76 e 67 a.e.c.. Como governadora ela abdicou do poder espiritual e o colocou em mãos dos Fariseus, que passaram a dominar o Sinédrio. Na época que antecedeu a dominação romana na Judéia, sobretudo durante o governo dos tetrarcas Antípater e Herodes Magno, o partido dos Fariseus sofreu pesada oposição, que os levou a adotar definitivamente uma política de separação entre religião e estado, ao ponto de solicitar de Roma um governador direto e independente das questões espirituais dos judeus. E assim os temos na época de Jesus, defensores de um estado laico (tanto quanto for possível aplicar esse termo ao mundo romano), e guardiães da mais pura tradição mosaica.
Como vimos, sob muitos aspectos o partido dos Peroushîms tem uma trajetória louvável, defenderam a religião e a dominação estrangeira, derramaram seu sangue pela causa santa, e mantiveram-se firmes na salvaguarda a Lei, mesmo que isso custasse para muitos deles a terrível crucificação. Obviamente em nossos dias encontramos muitos com a impecável ficha dos Fariseus, que podemos chamar de “revolucionários”, ou ainda “desbravadores”. Homens que lutaram, à frente de sua época, por uma fé mais pura. Mas o tempo, hábil degenerador de ideais, terrível devorador de sonhos, é capaz de petrificar consciências. Jesus condenou os Peroushîms por não viverem o que pregavam, e desse crivo não há passado brilhante que nos possa livrar.
Começamos pelos Fariseus porque, nos seis primeiros séculos de nossa era, esse partido e a linhagem dos Sopherîms eram praticamente sinônimos. O termo “Escriba” é muito amplo, e esse cargo existiu por todo o Oriente Próximo na antiguidade. Do Egito à Babilônia, de Canaã à Pérsia, todos os grandes impérios tiveram na profissão dos escribas a garantia de preservação de suas mais caras tradições. Em Israel os escribas eram técnicos no estudo da Torá. Tinham basicamente três funções fundamentais: Preservar a Lei, como estudiosos profissionais e fiéis transmissores de seus rigores a todo o povo; Instruir novos discípulos, que seriam responsáveis por propagar a Tradição perpetuamente; Julgar a aplicação da Lei, como juízes do Sinédrio, ou “Doutores da Lei”, um sinônimo de sua profissão no primeiro século. Se os Peroushîms começaram sua história com a glória das batalhas nacionais, os Sopherîms tiveram uma origem ainda mais nobre, que remonta as longínquas épocas de Esdras e à reconstrução do Templo de Jerusalém. Por volta daquela época a função de conservar, ensinar e julgar a Lei era exclusividade da classe Sacerdotal, como versa todo o livro de Levítico. Esdras mesmo era sacerdote, mas ficou conhecido como Escriba (Esdras 7.11,12,21; Neemias 8.1,4,9,13; 12.26,36). Como sucessores diretos de Esdras, os Sopherîms conservavam um status superior até mesmo aos sacerdotes, porque personificavam em sua função o que há de mais louvável em Israel, o bom estudo da Torá e a fidelidade a Iahweh. A classe dos Escribas salvara a própria religião, determinando a correta observância da Lei durante todo o período do exílio. Eles subsidiaram também toda adaptação do judaísmo, centrado no Templo e na Monarquia de Jerusalém, à realidade da diáspora, fundando as Sinagogas regionais, centros de estudo da religião e de toda piedade judaica.
Se a figura dos Fariseus lembra toda gama de guerreiros da fé em nossos dias, a dos Escribas claramente nos faz pensar naqueles santos homens que, com toda sua sabedoria e conhecimento teológico, mantém de pé aquilo que sabemos sobre a Bíblia. Quantos grandes mestres e pregadores não conhecemos hoje? Quantos não nos ensinam continuamente sobre o que deve ser feito? São homens assim, os Escribas modernos, que dominam o assunto das rodas de conversa que antecedem nossos cultos: “viu a pregação de Fulano? Que bênção! Quanta sabedoria e habilidade em ministrar a palavra! Como abençoou minha vida!”. Sobre alguns desses homens Jesus disse: “Tudo o que eles vos mandam, devem aceitá-lo e pô-lo em prática, mas não imitem o que eles fazem. É que eles dizem uma coisa e fazem outra”.
Os “Líderes” no Reino de Deus
Aprendemos que a classe sacerdotal era responsável pela guarda da Torá. Isso era um fato em tempos exílicos e anteriores à monarquia. Para entender o que Jesus queria dizer sobre a Cátedra de Moisés devemos contudo ir um pouco mais além. Se fizermos isso encontraremos a palavra hebraica que Cristo deve ter usado para aquilo que traduzimos como Cadeira. Provavelmente trata-se de כִּסֵּא (kissē’), “assento (de honra), trono, cadeira, banco; figurativamente: dignidade real, autoridade, poder”. Eis nosso kissē num livro de nome muito sugestivo, Deuteronômio, Devarim, ou “As Palavras”:
14 “Se quando entrarem na terra que o Senhor, o seu Deus, lhes dá, tiverem tomado posse dela, e nela tiverem se estabelecido, vocês disserem: ‘Queremos um rei que nos governe, como têm todas as nações vizinhas’, 15 tenham o cuidado de nomear o rei que o Senhor, o seu Deus, escolher. Ele deve vir dentre os seus próprios irmãos israelitas. Não coloquem um estrangeiro como rei, alguém que não seja israelita.
18 “Quando subir ao trono do seu reino, mandará fazer num rolo, para o seu uso pessoal, uma cópia da lei que está aos cuidados dos sacerdotes levitas. 19 Trará sempre essa cópia consigo e terá que lê-la todos os dias da sua vida, para que aprenda a temer o Senhor, o seu Deus, e a cumprir fielmente todas as palavras desta lei, e todos estes decretos. 20 Isso fará que ele não se considere superior aos seus irmãos israelitas e que não se desvie da lei, nem para a direita, nem para a esquerda. – Deuteronômio 17, (NVI).
Podemos dizer, com considerável grau de certeza, que essa é uma das mais objetivas definições da “Cátedra de Moisés”, ou seja, a liderança do povo de Deus. Agora, deixando o terreno das explicações históricas e conceituais, podemos entender melhor do que se trata a tal Cátedra se analisarmos alguns dos requisitos para tornar-se Rei (líder) em Israel.
O versículo 15 começa com o básico: o Senhor escolhe quem ele bem entender para comandar seu povo. Não existe democracia celestial, e sim uma teocracia absolutista. Para aplicar isso em nossos dias teríamos que contar com profetas competentes e devidamente reconhecidos, e confiar a eles a imposição de lideranças chanceladas pela vontade divina. Mas nem o básico está livre de requisitos: “Ele deve vir dentre os seus próprios irmãos israelitas. Não coloquem um estrangeiro como rei, alguém que não seja israelita”. Trazendo para os dias de hoje, não podemos admitir na qualidade de “líderes” aqueles que não vivem, pensam ou agem conforme os mais profundos rigores da Sagrada Escritura, que não tenham um comportamento que coincida com o de um membro do Povo de Deus.
Seguindo, à partir do verso 18, temos agravantes. Possuir uma “cópia da Lei” hoje é algo perfeitamente normal e até barato, mas “cumprir fielmente todas as palavras desta lei, e todos estes decretos”… Entre palavras e decretos, contamos exatamente 613 obrigações da Torá. E o Rei (Líder) tinha de obedecer a cada uma delas. Para Moisés era fácil, afinal ele havia escrito, quero ver para qualquer líder cristão dos dias de hoje. Claro, Jesus nos livrou do peso da Lei, não há o que se discutir nesse ponto. Mas Jesus não riscou da Torá o capítulo 17 de Deuteronômio. Ele está lá como um norte para toda a liderança que o Senhor instituir nos dias de hoje. A Bíblia permanece como guia indiscutível de moral e cidadania, e ela deve ser completamente obedecida para que o líder “não se considere superior aos seus irmãos israelitas e que não se desvie da lei, nem para a direita, nem para a esquerda”.
Paulo mostrou-se um tanto quanto mais severo que o próprio Moisés. Em 1ª Timóteo 3.1-7 o apóstolo detalha nada menos que 15 qualificações indispensáveis ao episcopado, cujo candidato deve ser:
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Irrepreensível: anepilēmpton. Inatacável, inexpugnável, que não pode ser repreendido, não censurável;
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Monógamo: isso também pode ser interpretado como “inimigo do mundo” (cf. Tiago 4.4-6);
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Moderado: nēphalion. Sóbrio, controlado, estar calmo e sereno de espírito; controlado, circunspecto;
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Sensato: sōphrona. De mente sã, equilibrado, que freia os próprios desejos e impulsos, autocontrolado, moderado;
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Respeitável: kósmion. Educado, polido, cortês, honrável, bem organizado, conveniente, modesto;
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Hospitaleiro: philóxenon. Literalmente, apreciador (que faz mimos ou é fã) de visitas; generoso para as visitas;
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Apto para ensinar: didaktikon. A raíz dessa palavra trás implicações de que aquele que ensina é, antes de tudo, alguém ensinável, que tem paixão por aprender. Só posso ensinar o que primeiro aprendi;
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Não apegado ao vinho: paroinon. Não ser dependente de bebidas; não ter tendências violentas;
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Não violento: plékten. Não ser brigão, pronto para um golpe, belicoso, contencioso, pessoa briguenta;
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Amável: epieikē. Apropriado, conveniente, eqüitativo (que julga com justiça), íntegro, suave, gentil;
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Pacífico: ámachon. Que se abstêm de lutar;
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Desapegado ao dinheiro: aphilarguron. Não mesquinho, liberal (quanto ao dinheiro), generoso, que não ama o dinheiro, não avarento;
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Bom governador de sua família: tou idiou oikou kalos proistamenon. Que governa (é um protetor ou guardião, dando ajuda) admiravelmente (belamente, finamente, excelentemente, corretamente, de forma a não deixar espaço para reclamação) sua própria casa;
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Sabe educar os filhos no respeito, com toda a dignidade: tekna echonta en hupotage meta pases semnotetos. Que está estreitamente unido aos filhos (desde pequenos) pelos laços da criação, educando-os em toda obediência (com muita disciplina), levando cada um deles a tornarem-se pessoas reverentes, respeitosas, dignas, santas, honradas e puras;
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Não recém-convertido: neophuton. Literalmente, não “recém-plantado”. Neófito = recém convertido.
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Com boa reputação perante os de fora da Igreja. Não precisa de tradução, mas o importante é a parte final, literalmente, “para não cair na repreensão e nas armadilhas do acusador (diabo)”.
Isso para não citarmos as qualificações necessárias aos Diáconos e Presbíteros, o que com absoluta certeza esvaziaria aqueles pequenos altares em forma de cadeira atrás dos púlpitos de algumas denominações evangélicas.
Se seus líderes não preenchem cada um desses 15 requisitos (absolutamente todos eles), então ele não pode liderar ninguém dentro da Igreja Cristã. Se o faz é contra a Escritura, contra as ordens do Espírito Santo, dadas através do Apóstolo Paulo.
A triste realidade é que, caso nossos líderes não preencham todos os requisitos exigidos por Paulo, somados àqueles enunciados por Moisés, nós estamos assistindo a volta dos Escribas e Fariseus. Não há espaço nesses textos para pensamentos como “mas ele é humano, sujeito a falhas”, ou ainda “temos de amar acima de tudo”. Líderes são humanos, e devem ser amados, mas se querem realmente exercer qualquer função de influência dentro do Reino de Deus, obrigatoriamente devem respeitar os requisitos bíblicos para tal.
A Relação Entre Ouvir, Falar e Fazer
Demos muitas voltas em nossos estudos, mas o leitor atento percebeu que ainda não tocamos no âmago da questão: por que afinal os Escribas e Fariseus foram tão severamente condenados por Jesus? Passamos primeiro pelos líderes porque o exemplo deve vir deles, mas se nosso problema fosse a liderança estaríamos salvos! Tiremos portanto a trave de nossos olhos.
Ainda ha pouco estávamos em Deuteronômio, e seria sábio se voltássemos àquele livro para entendermos algumas chaves no relacionamento de Deus com Israel.
1 E agora, ó Israel, ouça os decretos e as leis que lhes estou ensinando a cumprir, para que vivam e tomem posse da terra, que o Senhor, o Deus dos seus antepassados, dá a vocês. 2 Nada acrescentem às palavras que eu lhes ordeno e delas nada retirem, mas obedeçam aos mandamentos do Senhor, o seu Deus, que eu lhes ordeno.
5 Eu lhes ensinei decretos e leis, como me ordenou o Senhor, o meu Deus, para que sejam cumpridos na terra na qual vocês estão entrando para dela tomar posse. 6 Vocês devem obedecer-lhes e cumpri-los, pois assim os outros povos verão a sabedoria e o discernimento de vocês. Quando eles ouvirem todos estes decretos dirão: ‘De fato esta grande nação é um povo sábio e inteligente’.
7 Pois, que grande nação tem um Deus tão próximo como o Senhor, o nosso Deus, sempre que o invocamos? 8 Ou, que grande nação tem decretos e preceitos tão justos como esta lei que estou apresentando a vocês hoje?
9 Apenas tenham cuidado! Tenham muito cuidado para que vocês nunca se esqueçam das coisas que os seus olhos viram; conservem-nas por toda a sua vida na memória. Contem-nas a seus filhos e a seus netos. – Deuteronômio 4, (NVI).
Tudo começa pelo ouvir, como ensina Paulo em Romanos 10.17. Mas “ouvir” é a única coisa que o ensino de Moisés tem em comum com a maneira de pregar o Evangelho em nossos dias. Isso me faz lembrar um dos trechos mais conhecidos (e repetidos) da última fala de Jesus a seus discípulos:
16 Os onze discípulos partiram para a Galileia e foram para o monte que Jesus lhes tinha indicado. 17 Quando o viram, adoraram-no, mas alguns ainda duvidavam. 18 Então Jesus aproximou-se deles e declarou: “Foi-me dado todo o poder no Céu e na Terra. 19 Portanto, vão e façam com que todos os povos se tornem meus discípulos[BJ: Ide, portanto, e fazei com que todas as nações se tornem discípulos|NVI: Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações]. Baptizem-nos em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, 20 ensinando-os a obedecer a tudo quanto eu tenho mandado. E saibam que estarei sempre convosco até ao fim dos tempos”.
Nossa mente ocidental tende a ser exageradamente pragmática. Somos ligados a toda sorte de rituais de passagem ou confirmação, dependentes de símbolos que nos digam algo sobre as crenças que sustentamos. Assim, quando a Igreja gentílica, presa à cosmovisão greco-romana, leu “Batizem-nos em nome do Pai do Filho e do Espírito Santo”, automaticamente passou a criar rituais complicados para efetuar tal batismo. É assim que temos registros, já no segundo século, de ritos em que o candidato ao batismo tinha de ser completamente besuntado como óleo, sal era adicionado as águas de um rio, e extensas fórmulas imprecatórias de renúncia ao demônio, a pompa diabolli, como dizia Tertuliano.
Mas preste bastante atenção ao texto e procure interpretá-lo como uma criança da quarta série primária. A primeira parte do verso 19 pede para que das nações sejam feitos discípulos, a segunda parte começa a dizer como seriam feitos tais discípulos. Eles seriam batizados, em nome do Pai, do Filho e do Espírito. Acontece que quando Mateus escreveu seu evangelho ele não havia colocado pequenos números indicando onde acabava um versículo e começava o próximo. Originalmente, após o “Batizando-os…” havia uma virgula. Bem aventurada vírgula! E qualquer estudante primário pode constatar, tirando os versículos, o seguinte texto: “Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a obedecer a tudo o que eu lhes ordenei. E eu estarei sempre com vocês, até o fim dos tempos” (NVI). Fazer discípulos é a ordem dada pelo Senhor. Batizar ensinando-os a obedecer é o modo como tais discípulos deveriam ser feitos.
O discipulado corrompeu-se de tal modo que ficou reduzido ao decoreba de fórmulas ditadas por modelos de crescimento da Igreja. Lembro-me que, quando recém convertido, submeti-me ao “discipulado” com o pastor que me batizou, passei horas respondendo a um questionário que, entre outras coisas, perguntava se eu já havia praticado sexo com animais e quantas revistas pornográficas tinha lido. Que espécie de pessoa conta quantas revistas pornográficas leu na vida? Fico imaginando que modelo eles usam para as questões desse formulário, e orando para nunca encontrar-me com ele.
O problema é que o discurso assumiu o lugar da prática. Somos doutrinados a convencer pessoas do Evangelho, e isso acaba sendo mais importante que mostrar-lhes o Evangelho como nossas vidas. A base da didática de Moisés não era ensinar intelectualmente sobre a Torá, não era filosofar sobre o arrebatamento ser antes ou depois do milênio, era ensinar a cumprir o que foi ouvido.
Vocês devem obedecer-lhes e cumpri-los, pois assim os outros povos verão a sabedoria e o discernimento de vocês. Quando eles ouvirem todos estes decretos dirão: ‘De fato esta grande nação é um povo sábio e inteligente.
Sejamos sinceros, qual a fama que o evangélico tem nos dias de hoje? Somos estereotipados como ignorantes, fanáticos, burros até. Quantos cristãos você conhece que leêm mais de 20 livros por ano? Quantos de fato sabem ler, sem ficar gaguejando? Quantos sabem o que é “pragmatismo”? Pode parecer uma questão estúpida, mas acreditem-me leitores, nessas minhas caminhadas pelo submundo pentecostal, tenho encontrado coeficientes de intelecto que fazem “idiota” ser mais uma descrição clínica que ofensa. O “povo sábio e inteligente” não conhece a própria Bíblia que carrega embaixo do braço. Quantos “irmãos” seus já leram a Bíblia ao menos uma vez? Quantos sabem o que significa o Credo Niceno-Constantinopolitano? Quantos conhecem sobre Patrística e Apologética? Pois se não podem responder afirmativamente sobre as últimas três questões, eles não tem o direito de serem chamados “cristãos”, ao menos no sentido histórico do termo.
Por que não somos considerados “povo sábio e inteligente”? Porque ninguém nos ensina a cumprir as Leis.
Não há nada mais antibíblico nos dias de hoje que o evangelismo. Dizem que temos de chegar para um otário qualquer na rua, esfregar na cara dele um panfleto mal escrito, e convencê-lo de que Jesus morreu por ele e que ele vai para o inferno se não acreditar em mim. Pode até haver variantes, mas a síntese é essa. Depois, ele vai para uma “Igreja”, repetem essa ladainha, jogam ele na água, fazem-no passar por um curso ministrado por analfabetos, e o doutrinam a esquentar um banco todos os domingos, dando dízimo e oferta e cantando junto com os pseudo-músicos, desafinados e metidos a calouros do Raul Gil, autodenominados “Ministros de Louvor”. Não posso imaginar uma vida mais medíocre que essa! Se isso é uma prévia do céu não me admiro que a fila para o inferno seja bem mais freqüentada! É por isso que as pessoas estão acostumadas a assistir aos cultos, balançar a cabeça para qualquer obtuso que vocifera suas meias verdades, e voltar para suas casas, felizes por não fazer parte da massa destinada ao inferno, ao menos por mais uma semana.
Fazer discípulos é ensinar-lhes a praticar o que aprenderam, quotidianamente. Essa é a Cátedra de Moisés, e basta de vê-la ocupada pelas pessoas erradas. Israel foi destruído por não praticar o que Moisés ensinou. A Igreja está cada vez mais desacreditada exatamente pelo mesmo motivo. Porque pessoas acham que podem apenas “saber sobre” Jesus, sem que contudo tenham de se compromissar com sua pregação, ainda que isso lhes custe a própria vida.
Voltando a Deuteronômio, preste atenção no versículo 9. Passar para frente o que aprenderam era algo concebível apenas quando “essas coisas” fossem conservadas por toda vida na memória. “Essas coisas” abrangiam tudo o que Moisés os tinha ensinado a cumprir, o que obviamente haviam aprendido, e tudo que o Senhor havia feito no sentido de corroborar a Lei transmitida pelo grande Patriarca. Acontece que hoje qualquer neófito é incentivado a ensinar o que acha que aprendeu, isso porque ele só é ensinado a aprender. O ensino bíblico não é apenas conceitual, e nunca estritamente filosofal, ele é prático e visa a aplicação diária daquilo que a Palavra versa. Distanciar-se dessa padrão é perigoso, e pode custar-nos a salvação…
Seremos Julgados Pelas Obras
Uma horda de irresponsáveis com Bíblias (e guitarras) nas mãos tem pregado sobre “o fim da justiça própria”. Eles acusam de fariseu e puritano quem quer que fale sobre a necessidade de demonstrar a fé em obras e numa vida piedosa e claramente separada do mundo. Dizem que as obras não nos justificam perante Deus, no que tem toda a razão. Recebemos o dom da salvação pela graça de Deus, por intermédio de nosso Senhor Jesus Cristo. Mas, será que é só isso? Só a graça?
A obra do justo conduz à vida, o fruto do perverso, ao pecado. – Provérbios 10.16, (ACF).
Este é o julgamento: a luz veio ao mundo mas os homens preferiram as trevas à luz, porque suas obras eram más. – João 3.19, (BJ).
Como crente em Jesus Cristo, tenho pois muita honra neste serviço a Deus. Pois eu não me atrevo a falar senão naquilo que Cristo fez por meio de mim para levar os não-judeus a aceitarem Deus. Isso realizou-se por palavras e obras, por sinais milagrosos e prodígios, com o poder do Espírito de Deus. É assim que tenho dado plenamente a conhecer a boa nova de Cristo, desde Jerusalém e por toda a parte até à região da Ilíria. – Romanos 15.17-19, (TLM).
E se chamais Pai aquele que com imparcialidade julga a cada um de acordo com suas obras, comportai-vos como temor durante todo o tempo do vosso exílio. – 1ª Pedro 1.17, (BJ).
Vi um grande trono branco, e o que estava assentado sobre ele, de cuja presença fugiu a terra e o céu; e não se achou lugar para eles. E vi os mortos, grandes e pequenos, que estavam diante de Deus, e abriram-se os livros; e abriu-se outro livro, que é o da vida. E os mortos foram julgados pelas coisas que estavam escritas nos livros, segundo as suas obras. E deu o mar os mortos que nele havia; e a morte e o inferno deram os mortos que neles havia; e foram julgados cada um segundo as suas obras. E a morte e o inferno foram lançados no lago de fogo. Esta é a segunda morte. E aquele que não foi achado escrito no livro da vida foi lançado no lago de fogo. – Apocalipse 20.11-15, (NVI).
São cinco passagens, escritas por quatro autores em cinco períodos diferentes, que contudo falam a mesma coisa, repetindo o que Moisés deixou inequivocamente claro na Lei: seremos julgados de acordo com as nossas obras.
Merece destaque em nossa análise os versículos de Romanos 15. Note que Paulo “não se atreveu” a falar nada além daquilo que Cristo fez por meio dele, e isso por palavras e obras. E não pensem que o autor ali falava de “sinais e maravilhas”, porque isso até o Diabo faz, a prova que lhes ofereço é a continuação do texto, que, após as obras, fala de “sinais milagrosos e prodígios”, além do “poder do Espírito”. Quantos pregadores hoje podem dizer que não falam nada além das obras que realizam? Quantos podem mostrar uma lista de boas obras antes de pregarem?
Pedro é mais enfático, e diz que o “Pai” nos julga de acordo com nossas obras! Sempre desconfiei daqueles crentes que ficam falando de “Pai” para cima e para baixo, tudo é o “Pai”. Me lembra o Inri Cristo (os curitibanos sabem de quem estou falando…), daqui uns dias vão começar a dizer: “Meu inefável Paaaaiiii…”. Tratam Deus como se fosse um idiota babão que só sabe dar colo. Eu menti! Mas o “Pai é um babaca bonzinho que me dá colo e me mima”! Então eu estou perdoado, porque tenho todo o amor de “Paaaaiiii…”! Vírgula! Deus não perdoa o pecador a menos que ele se arrependa e deixe o pecado (na verdade deixar o pecado é o arrependimento em si). Temos que parar de esconder atrás da paternidade de Deus nossas falhas e imperfeições, nosso mau caráter e a pilantragem brasileira que tenta tirar vantagem em tudo, até no amor de Deus.
Apocalipse, um livro que não deixa espaço para lamentos posteriores (já que encerra a Bíblia e trata do Fim dos Tempos), afirma categoricamente aquilo que Pedro já havia dito, com agravantes. Não seremos julgados por termos ou não nossos nomes no Livro da Vida, mas de acordo com nossas obras.
Então não adianta sofrer de transtorno bipolar e refugiar-se atrás das barbas do “Inefável Paaaiii”, não adianta vir com essa conversa mole e herética de que é chegado o tempo da graça e não podemos buscar “justiça própria”, ninguém aqui está falando nisso. O fato é que seu cristianismo tem que ser demonstrado em obras, não há outra maneira de ser cristão que não essa. Mas o que são essas “obras”?
Enfatizo que, para alcançarmos a graça de Deus, o perdão e a justificação por nossos pecados, só dependemos de nossa fé em Cristo Jesus. Mas não seremos julgados pela fé com que falamos de Deus, nem pela justificação que recebemos de seu Filho, mas pelas obras que cometemos (ou deixamos de cometer). Segundo o DITNT:
CL 1.(b). ergon denota, a partir do grego miceneano, um “ato”, “ação”, por contraste com a inatividade ou com uma mera palavra. Pode referir-se a uma ocupação específica ou atividade oficial [...], e significa, em certos casos, “realização”, “trabalho”.
AT 2.(a). [... Na] vida de todos os dias é julgada positivamente a obra que se demonstra ser o cumprimento obediente da vontade divina, da lei [...]. Este julgamento é aplicado tanto à esfera comum do trabalho da pessoa [...] quanto a atos específicos de obediência. – DITNT, artigo “TRABALHAR”, verbete “ergazomai”, pgs. 2536 e 2538, respectivamente.
Segundo o Theological Dictionary of New Testament (TDNT), o conjunto de palavras do verbo ergazomai, desde Homero, denota ação ou atividade entusiasmada (zelosa). E meus dicionários não contam como obras o fato de você tocar no louvor domingo à noite. Meus dicionários também não falam nada sobre ser pastor ou diácono, ou ainda sobre “pregar a palavra”. Muito pouca coisa que fazemos nas igrejas hoje em dia entra na categoria de “obras”, valha-me o bom e velho Tiago:
Sejam praticantes da palavra, e não apenas ouvintes, enganando-se a si mesmos. Aquele que ouve a palavra, mas não a põe em prática, é semelhante a um homem que olha a sua face num espelho e, depois de olhar para si mesmo, sai e logo esquece a sua aparência. Mas o homem que observa atentamente a lei perfeita, que traz a liberdade, e persevera na prática dessa lei, não esquecendo o que ouviu mas praticando-o, será feliz naquilo que fizer.
Se alguém se considera religioso, mas não refreia a sua língua, engana-se a si mesmo. Sua religião não tem valor algum! A religião que Deus, o nosso Pai, aceita como pura e imaculada é esta: cuidar dos órfãos e das viúvas em suas dificuldades e não se deixar corromper pelo mundo. – Tiago 1.22-27, (NVI).
A palavra grega para “religião” aqui, meus bons leitores, é thrēskeia, cuja controversa etimologia aponta para “tremor”, mas que em boa parte da literatura grega significa (segundo o TDNT) “zelo religioso, adoração a Deus”. Isso mesmo! Vamos retraduzir Tiago 1.27: “A adoração que Deus, o nosso Pai, aceita como pura e imaculada é esta: cuidar dos órfãos e viúvas em suas dificuldades e não se deixar corromper pelo mundo”. Nunca mais diga que vai “adorar a Deus” com sua cantoria desafinada, ou que veio adorar ao Senhor, cheio de preguiça diga-se, no culto de domingo à noite. Adoração é o que Tiago fala, e acho difícil me provarem na Bíblia o contrário, a não ser que considerem-se mais sábios que o principal líder da Igreja Cristã no primeiro século, o Bispo de Jerusalém, Tiago, o Irmão do Senhor, e Mártir. Aliás, ele continua a falar, com propriedade aos nossos irmãos, filhos do “inefável Paaaiii”, que julgam-se supra-justificados pela graça:
De que adianta, meus irmãos, alguém dizer que tem fé, se não tem obras? Acaso a fé pode salvá-lo? Se um irmão ou irmã estiver necessitando de roupas e do alimento de cada dia e um de vocês lhe disser: “Vá em paz, aqueça-se e alimente-se até satisfazer-se”, sem porém lhe dar nada, de que adianta isso? Assim também a fé, por si só, se não for acompanhada de obras, está morta.
Mas alguém dirá: “Você tem fé; eu tenho obras”. Mostre-me a sua fé sem obras, e eu lhe mostrarei a minha fé pelas obras. Você crê que existe um só Deus? Muito bem! Até mesmo os demônios crêem – e tremem!
Insensato! Quer certificar-se de que a fé sem obras é inútil? Não foi Abraão, nosso antepassado, justificado por obras, quando ofereceu seu filho Isaque sobre o altar? Você pode ver que tanto a fé como as obras estavam atuando juntas, e a fé foi aperfeiçoada pelas obras. Cumpriu-se assim a Escritura que diz: “Abraão creu em Deus, e isso lhe foi creditado como justiça”e, e ele foi chamado amigo de Deus. Vejam que uma pessoa é justificada por obras, e não apenas pela fé. – Tiago 2.14-24, (NVI).
Insensato! Embora esse tenha sido um acréscimo textual da NVI, encaixa-se bem no que estamos tentando dizer.
A pergunta que lhe faço, dileto leitor, é: o que você fez exclusivamente para Deus, de modo entusiasmado, e que visava ajudar a um irmão seu no último mês? E não valem falas ao microfone, todos nós sabemos bem que o maior beneficiário com a grande maioria das pregações é somente o ego do palestrante. Vou te ajudar. Quantas vezes você limpou o chão de sua igreja? Quantos doentes visitou? Aliás, quantas pessoas visitou? Quanto tempo gastou ouvindo os problemas ou encorajando um irmão que não lhe daria louros por isso?
A grande maioria das pessoas sequer gastou tempo lendo a Bíblia, e são dissimuladas ao ponto de dizerem que vão para o céu. Se lessem o livro que ostentam como garantia de sua salvação veriam que o Juízo Final será algo bem mais complicado do que pensa a ignorância coletiva evangélica.
Anunciar o Evangelho ou Apenas “Pregar”?
Não há honra maior que eu possa antever além daquela que Cristo destinou a nós, simples mortais, de anunciar sua paixão, morte e ressurreição. Nosso Deus poderia usar anjos, poderia fazer montes tremerem novamente, mas escolheu a eterna linguagem do amor.
Contudo, seguindo a sanha humana de mercadejar tudo que de mais puro lhe pertence, os homens transformaram a digníssima pregação do Evangelho em profissão. Muitos cobram, e outros aceitam dinheiro por isso, pecado que confesso e do qual me arrependo amargamente.
Como disse no início, existe uma significativa diferença entre “pregar” e “pregar”, isso para utilizar as toscas versões portuguesas. Diferença técnica, em se tratando da língua grega, mas que se faz necessária em nossos dias. O apóstolo Paulo falou algo significativo aos Coríntios:
Vós sois a nossa carta, escrita em nossos corações, conhecida e lida por todos os homens. Porque já é manifesto que vós sois a carta de Cristo, ministrada por nós, e escrita, não com tinta, mas com o Espírito do Deus vivo, não em tábuas de pedra, mas nas tábuas de carne do coração. E é por Cristo que temos tal confiança em Deus; Não que sejamos capazes, por nós, de pensar alguma coisa, como de nós mesmos; mas a nossa capacidade vem de Deus, o qual nos fez também capazes de ser ministros de um novo testamento, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata e o espírito vivifica. – 2ª Coríntios 3.2-6, (ACF).
Gerações de crentes fiéis tem sido enganadas com uma diabólica interpretação dessa passagem, e mergulhado numa piedade desprovida de conhecimento. Mas Paulo só disse que “a letra mata” após mostrar onde é que as palavras de Deus deveriam ser escritas. Caro leitor, simplesmente “falar” do Evangelho nunca levou a nada, do contrário a Europa seria o continente mais cristãos do mundo, dada a profusão de missas celebradas naquele território desde o século III da nossa era.
Pregar não basta, falar não basta. Devemos abrir os nossos corações e evangelizar como cartas vivas que somos. Mostrar que nosso Salvador escreveu dentro de nós, em nosso sangue com o sangue dele, as palavras vivas que nos trazem a esperança da vida eterna. Euangelizomai predomina no livro de Atos e nas epístolas, quando a pregação era feita de boca à boca, de coração à coração. Kērýssō, por sua vez, é encontrado sobretudo nos evangelhos, quando nosso Messias falava para o Israel inconverso e os discípulos contentavam-se em expulsar demônios.
Que tipo de evangelho nós desejamos anunciar hoje? Palavras duras para uma geração condenada (cf. Mateus 23.37; Lucas 13.34)? Ou palavras de salvação para uma raça de eleitos (cf. 1ª Pedro 2.9)? De que lado estamos?
8 «Quanto a vós, não vos façais chamar “Rabi”: sim, vosso rabi é único e vós sois todos irmãos. 9 Não chameis a ninguém na terra de “Pai”: sim, vosso pai dos céus é único. 10 Não vos façais chamar “Chefe”: sim, vós tendes um único chefe, o messias. 11 O maior dentre vós será vosso servo. 12 Quem se eleva será humilhado; quem se humilha será elevado.» – Matyah 23.
Quantas “Escolas” nós conhecemos até hoje? Quantas placas, quantos títulos, quantos slogans. Não precisamos de nomes, nem de placas, nem de alianças profanas que vituperam a pureza do evangelho pelo dinheiro pago por um curso ou pelo status de “faculdade”.
Já falamos aqui de liderança, mas deixamos o aspecto mais importante da liderança cristã para o final: ser como aquele que serve.
24 Surgiu também uma discussão entre eles, acerca de qual deles era considerado o maior. 25 Jesus lhes disse: “Os reis das nações dominam sobre elas; e os que exercem autoridade sobre elas são chamados benfeitores. 26 Mas, vocês não serão assim. Ao contrário, o maior entre vocês deverá ser como o mais jovem, e aquele que governa, como o que serve. 27 Pois quem é maior: o que está à mesa, ou o que serve? Não é o que está à mesa? Mas eu estou entre vocês como quem serve. 28 Vocês são os que têm permanecido ao meu lado durante as minhas provações. 29 E eu lhes designo um Reino, assim como meu Pai o designou a mim, 30 para que vocês possam comer e beber à minha mesa no meu Reino e sentar-se em tronos, julgando as doze tribos de Israel. – Lucas 22, (NVI).
Perceba a diferença fundamental entre os dois exemplos dados por nosso Senhor. No versículo 25, os reis das nações dominam “sobre elas”, kyrieuousin, “ser senhor de, governar, ter domínio sobre; exercer influência sobre, ter poder sobre”; enquanto no versículo 27b, Jesus está “entre” os discípulos, en meso humon, “no meio de vocês”.
Preste muita atenção caro leitor, sobretudo nas “pregações” que ouvir sobre “Reino”, sobre “Igreja”, e atente se seus pregadores estão falando de cima, como quem sabe do assunto, ou estão entre vocês, ajudando a tornar realidade aquilo que foi pregado. Caso não estejam fazendo isso, retenham o que é bom e bíblico daquilo que eles ensinam, mas jamais os imitem.
Apostatamos sempre que pensamos ser nosso dever apenas pregar a Bíblia, sem que isso nos custe o compromisso de uma vida sacrificada. Apostatamos se posamos como cristãos mas não demonstramos nossa fé em obras. Apostatamos quando tentamos enganar a Deus com nossas falsas canções de amor, que apenas dizem enquanto nada fazemos para provar nossas lágrimas.
Quer um conselho? Informe-se quando será a próxima limpeza de sua igreja, ou procure um bom trabalho social. Ligue para seu irmão afastado, ore por um enfermo, fuja do inferno e da mediocridade dos hipócritas.
Por Emerson Silva.
Curitiba, 10 de setembro de 2008.
Falai, Senhor, que o vosso servo escuta: Vosso servo sou eu, daí-me inteligência para que conheça os vossos ensinamentos. Inclinai meu coração às palavras de vossa boca; nele penetre, qual orvalho, vosso discurso (1Rs 3,10; Sl 118.36.125; Dt 32,2). Diziam, outrora, os filhos de Israel a Moisés: Fala-nos tu e te ouviremos; não nos fale o Senhor, para que não morramos (Êx 20,19). Não assim, Senhor, não assim, vos rogo eu; antes, como o profeta Samuel, humilde e ansioso, vos suplico: Falai, Senhor, que o vosso servo escuta. Não fale Moisés, nem algum dos profetas, mas falai-me de vós, Senhor, Deus, que inspirastes e iluminastes todos os profetas, porque vós podeis, sem eles, me ensinar perfeitamente, ao passo que eles, sem vós, de nada me serviriam.
Podem muito bem proferir palavras, mas não conseguem dar o espírito; falam com muita elegância, mas, se vós vos calais, não inflamam o coração. Ensinam a letra; vós, porém, explicais o sentido. Propõem os mistérios, mas vós descobris a significação das figuras. Proclamam os mandamentos, mas vós ajudais a cumpri-los. Mostram o caminho, mas vós dais força para segui-lo. Eles regam a superfície, mas vós dais a fecundidade. Eles clamam com palavras, mas vós dais a inteligência ao ouvido.
Não me fale, pois, Moisés, mas vós, Senhor meu Deus, Verdade eterna, para que não morra sem ter alcançado fruto algum, se só for admoestado por fora e não abrasado interiormente; e não seja minha condenação a palavra ouvida e não praticada, conhecida e não amada, criada e não observada. – Falai, pois, Senhor, que o vosso servo escuta; porque possuís palavras de vida eterna (1 Rs 3,10; Jo 6,69). Falai-me para consolação de minha alma e emenda de minha vida, também para louvor, glória e perpétua honra vossa. – Kempis, Tomas de. A Imitação de Cristo, livro III, capítulo II.