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Visualize a Edição Crítica da Carta Aberta à Geração de Davi clicando aqui.

Aniversários são importantes datas festivas que devem ser comemoradas, uma vez que representam marcos da passagem do tempo em nossas vidas e servem como divisores úteis para comparações entre quem éramos no passado e quem somos hoje. Para muito além das festas, efemérides são um convite à reflexão, à crítica de si mesmo, momentos de introspecção onde temos a oportunidade de avaliar nossa conduta do passado, de acordo com novos parâmetros adquiridos pela experiência. Com o passar do tempo nos tornamos mais criteriosos com todas as coisas, as que vemos e, principalmente, aquelas que fazemos. Tudo isso contribui para que passemos a exigir uma conduta cada vez mais rigída, principalmente nos assuntos relacionados à nossa fé. Acreditar implica em uma série de responsabilidades éticas e morais, em nosso caso, como “Crentes em Jesus”, o próprio relacionamento cotidiano com Deus e com a Comunidade dos Cristãos nos leva cada vez mais a novos patamares de exigência, à busca por padrões cada dia mais austeros, sinceros e fiéis em relação à fé que professamos.

No âmbito das comemorações do segundo aniversário da publicação da Carta Aberta à Geração de Davi, em meio a uma turbulenta fase de revisão de valores e conformação de nossas convicções às verdades reveladas nas Sagradas Escrituras, consideramos de extrema importância realizar um comparativo sobre quem éramos quando escrevemos a Carta com quem nos tornamos dois anos depois, principalmente para verificar se seguimos aquilo que nós mesmos havíamos escrito. Os parâmetros para essa comparação foram principalmente o confronto de nossos escritos com a Bíblia como um todo, e a análise dos resultados daquilo que aplicamos e seu impacto imediato em nossas próprias vidas e nas vidas das pessoas em nossa volta.

Faz parte da maturidade cristã a unidade “da fé e do conhecimento do Filho de Deus”, afinal, é próprio das crianças serem “jogadas para cá e para lá por todo vento de doutrina” (cf. Efésios 4.13-16), mudando de opinião a cada nova moda. Nós acreditamos na responsabilidade ética por tudo aquilo que falamos e escrevemos, que devemos manter nossas palavras, mesmo quando saímos prejudicados (Salmo 15.4). Por isso, findos esses dois primeiros anos, foi muito importante parametrizarmos o quanto mudamos, quanto vivemos (praticamos) daquilo que ensinamos, e o quanto estávamos certos ou errados. Nossa preocupação é com a conformidade escriturística de nossas ideias, não que acreditemos ter a posse de verdades absolutas, mas por reconhecermos que uma fé que ultrapassa os limites da Palavra Revelada de Deus (a Bíblia) é deficiente e comprometedora da sanidade espiritual de seus praticantes.

Os motivos que nos levaram à presente Edição Crítica foram vários, mas, talvez, o principal deles tenha sido o profundo rompimento ideológico que tivemos com os ensinos da Missão Mobilização e sua Escola de Adoradores (hoje chamada Sacerdócio Real), a qual estivemos ligados por algum tempo. Alguns conceitos difundidos, como a ênfase exagerada na “Manifestação do Reino de Deus” (e sua “tomada pela força”), um “Sacerdócio de Todos os Santos” desvinculado do necessário comprometimento eclesial, do ataque às “Estruturas” da Igreja, da crítica infundada ao “Sistema” vigente no cristianismo hodierno e na ascenção de uma “Geração de Escolhidos”, que promoverá a Reforma definitiva do Cristianismo, bem como a defesa e propagação de heresias mitraítas, como “Manifestações Proféticas” baseadas em transe extático com a utilização de “espadas invisíveis”, imitações de animais, “dores no corpo” enquanto “identificação espiritual” e até “dores de parto” sentidas fisicamente por seus membros. Vimos os resultados da práxis das doutrinas propagadas pela Missão Mobilização manifestando-se na divisão de algumas Igrejas, no desamparo de muitas pessoas que se sentiram iludidas pelas pregações vazias de acompanhamento, e pela mudança constante de opinião de seus membros. Nos arrependemos por ter ajudado a propagar algumas ideologias propostas pela Missão Mobilização, sobretudo por não termos confrontado o que nos era ensinado (e o que passávamos para frente) com as Sagradas Escrituras. Apesar disso, enfatizamos que nossas divergências são apenas doutrinárias e de forma alguma pessoais. Convivemos tempo suficente com alguns de seus membros para aprender a respeitá-los e amá-los enquanto filhos de Deus, e lamentamos profundamente a obscuridade e o misticismo em que estão envolvidos.

Não escrevemos com o objetivo de refutar ou corrigir alguém além de nós mesmos. Nossas divergências já foram expostas reservadamente, e um debate público é completamente desnecessário. A presente Edição Crítica da Carta Aberta à Geração de Davi é uma resposta ao mandado de nosso Senhor Jesus Cristo, de tirar primeiro a trave de nossos olhos (cf. Mateus 7.1-5). Pretendemos julgar a nós mesmos, refinar nossos argumentos, reafirmar nossas convicções fundamentais e refutar proposições inexatas. Para realizar tal tarefa relemos a carta diversas vezes de forma crítica. Mesmo cada um de nós estando em cidades diferentes conseguimos realizar tal empreendimento em unidade, discutindo ponto a ponto os problemas encontrados.

Realizar esta edição crítica, apesar do esforço envolvido, foi algo novo e do qual pudemos tirar importantes lições. A reflexão proporcionada por essa segunda edição foi fundamental para nossa formação cristã, um passo a mais em direção ao crescimento espiritual, uma jornada em busca da maturidade da fé. Nesse sentido pudemos mensurar aquilo que foi consolidado em nossas vidas, as práticas que se tornaram rotina, as verdades bíblicas que se incorporaram ao nosso caráter, e também enxergar graves problemas que precisam ser imediatamente corrigidos. Aceitamos o desafio de repensar a qualidade do conhecimento produzido à respeito da Bíblia e do Cristianismo, e na nossa responsabilidade direta em sua construção. Os parâmetros propostos à partir de nossas releituras e da presente Edição Crítica são árduos, e as dificuldades suscitadas por eles, variadas, de modo que encontramos diretrizes que podem ser compartilhadas e executadas nos próximos meses.

Reforçamos nossa fidelidade à verdade revelada de nosso Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, obtida através do criterioso estudo das Sagradas Escrituras. Nosso compromisso com a fé cristã, com a unidade da Igreja, e nosso amor por todos os santos, valores implícitos e explícitos já na primeira edição da Carta Aberta à Geração de Davi, são reiterados com todas as letras na presente Edição Crítica.

Servilmente,

Emanuel A. Schimidt & Emerson R. A. Silva.

Porto Alegre/ Curitiba, 06 de dezembro de 2009.

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apostatamos_06

Argumento e nota introdutória.

Lá se vai um ano desde que esse blog lançou a primeira “Apostatamos!”, e esse colunista, a despeito da prolixidade irritante de seu estilo e de todo o palavrório reacionário aqui despejado, não está andando em círculos ao voltar-se novamente ao tema de nosso título. Do longínquo carnaval passado tiramos isto:

A palavra αποστασια (apostasia) quer dizer “separação, divórcio, deserção”, logo, se nos conformarmos com o que afeta os sentimentos desse século, seu comportamento, discurso ou ações, estaremos separados dos padrões do Reino de Deus, ou seja, apostatamos! [...] O que esperamos do amanhã? É a primeira pergunta que lhes faço. A única coisa que a Bíblia diz que devemos esperar é o Reino de Deus.” ─ Apostatamos!, nº 01, 23/02/2008 [acesse on-line].

Se um ano atrás ocupei-me com o passado, voltado a 1989 e aos vícios que nos ligam ao “presente século”, na feliz coincidência da escolha de Esperança, como primeiro tema desse novo formato do Aheb, me volto ao futuro, não necessariamente o dito como futuro escatológico ou apocalíptico, mas ao amanhã tal qual como é moldado por nossas posições e atitudes hodiernas. Pensar é um posicionamento, crer é uma atitude, o que pensamos e em que cremos nesse ano de dois mil e nove? “O que esperamos do amanhã”, perguntei a meus augustos leitores no passado, qual é nossa esperança?, pergunto-lhes agora…

Estejam sempre preparados para responder a qualquer pessoa que lhes pedir a razão da esperança que há em vocês. Contudo, façam isso com mansidão e respeito, conservando boa consciência.” ─ 1ª Pedro 3.15a,16b, (NVI).

Boa leitura.

“Sobre a Esperança de um Tolo”

Obrigado. Obrigado a todos. Muito obrigado pelo apoio de vocês. “Uma vitória esmagadora”. É como estão chamando. Sinto muito por meu irmão não estar conosco hoje, mas o Peter ama esta cidade mais do que qualquer um. O nosso pai sempre disse que temos o dever de usar o que Deus nos deu para ajudar as pessoas e para melhorar o mundo. O papai sempre tomou decisões difíceis em prol do bem maior. Ele acreditava nisso. E eu também acredito. Os nossos filhos merecem isso. Merecem um futuro melhor. Um futuro onde não tenham que encarar os medos sozinhos. Onde possam olhar a escuridão e encontrar esperança. Peço que todos aqui sejam exemplos inspiradores. E que entrem nessa luta, custe o que custar. Porque o mundo está doente. Está fugindo do controle. Mas nós podemos ajudar. Com a nossa ajuda, ele pode ser curado. Com o nosso amor, com a nossa compaixão e com a nossa força, poderemos curar o mundo. Coloquem de lado as diferenças e abracem objetivos comuns. Vamos fazer isso pelos nossos filhos. Vamos mostrar a eles o que somos capazes de fazer. Obrigado a todos. Muito obrigado. Obrigado. ─ Discurso de Nathan Petrelli. Série de TV Heroes. 1ª Temporada, episódio 22 (40’25’’ – 42’06’’).

Todos deixaram então o Senhor da Cidade e foram descansar enquanto ainda podiam. Do lado de fora havia uma escuridão sem estrelas quando Gandalf, com Pippin ao seu lado levando uma pequena tocha, dirigiu-se para o seu alojamento. Não disseram nada até estarem a portas fechadas. Então, finalmente, Pippin tomou a mão de Gandalf. [§] ─ Diga-me – disse ele – , há alguma esperança? Quero dizer, para Frodo; ou pelo menos sobretudo para Frodo? [§] Gandalf colocou a mão sobre a cabeça de Pippin. ─ Nunca houve muita esperança – disse ele. Só houve a esperança de um tolo, como me disseram.Tolkien, John Ronald Reuel. O Senhor dos Anéis. Terceira Parte: O Retorno do Rei. Livro V, capítulo 4.

Essas duas frases, símbolos máximos de dois momentos (na verdade, mundos) diferentes, ilustram bem os tipos de esperança que gostaria de tratar neste Apostatamos!. Por um lado, a crença no aparentemente impossível, na mais improvável circunstância, no pior dos momentos; por outro, a plena confiança nas aparências e nas pessoas certas. Quando recebeu o Oscar de Melhor Documentário Longa Metragem, por Bowling for Columbine, em 2003, o diretor Michael Moore disse em seu discurso que os Estados Unidos viviam tempos fictícios, onde um presidente fictício, eleito em uma eleição fictícia, perpetrava uma guerra fictícia. A ironia do comentário se acentua ao fim da era George Walker Bush, quando o mundo assiste a eventos políticos que antes só eram possíveis no terreno da ficção. Parece fantasiosa também a situação desse nosso tempo. O caos chegou a tal ponto que, assistindo à edição do Jornal da Globo de 30 de outubro de 2008, fui surpreendido com o seguinte comentário: “Eu tenho a impressão de que Deus está abandonando a América”. O entrevistado era um afro-descendente, e morava numa daquelas inúmeras cidades atingidas pela Crise Financeira. Por isso, caro leitor, inicio essa nossa coluna com perícopes tiradas da mais incrível ficção, para mostrar que nosso mundo real não é tão concreto assim.

Em Heroes, o personagem Nathan Petrelli é eleito para a Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, não sem uma pequena ajuda de um grupo de pessoas que queria explodir metade da cidade de Nova Iorque. Seu discurso da vitória é entusiasta e inspirador. Me lembra, por sinal, uma fantástica interpretação de Meryl Streep:

I’m a believer. I am an optimist. I believe in the future. And people who do, the ones who make history instead of just sitting around watching it, no, they’re willing to take the big riskis.” [Eu tenho fé. Sou otimista. Acredito no futuro. E os que crêem escrevem a história, ao invés de só olhar. Estão prontos a correr grandes riscos.] ─ The Manchurian Candidate [Sob o Domínio do Mal], filme de Jonathan Demme. © MMIV, Paramount Pictures Corporation.

A senadora Eleanor Shaw defendia nessa pequena fala o fato de ter feito com que seu filho cometesse dois assassinatos, e de estar planejando a morte do Presidente Eleito dos Estados Unidos, de quem seu filho era vice, em plena festa da vitória. Em Heroes, Petrelli aceitou ser eleito às custas de milhões de vidas inocentes. O que os dois tem em comum? Ofereciam ao mundo esperança em meio ao caos, conforto na tragédia. Raymond Prentis Shaw, na película de Jonathan Demme, seria a “Nova Cara da América”, um candidato jovem e inteligente, que resolveria todos os problemas da nação. Nathan Petrelli, o líder forte em tempos de angústia e medo.

Em seu discurso ao Congresso, Sobre o Estado da União, de 29 de janeiro de 2008, o então presidente George W. Bush disse:

Os Estados Unidos são uma força de esperança no mundo, porque somos um povo compassivo, e alguns dos americanos mais compassivos são aqueles que se mostraram dispostos a nos proteger. [...§] Ao confiarem no povo, as gerações que se sucederam transformaram nossa democracia jovem e frágil na nação mais poderosa da Terra e em uma fonte de esperança para milhões de pessoas.

A patética fala de Bush dividia-se entre a tentativa de incutir o medo, personificado nos famigerados terroristas, e fomentar a esperança, que só era possível através de sua pessoa e das ações bélicas de sua gestão. Guardadas as devidas proporções, e desacreditando veementemente de todas as teorias de conspiração da qual o governo Bush é alvo, não parece haver tanta diferença assim entre a ficção e a realidade. O que nos leva inevitavelmente à eleição de Barack Hussein Obama, de cujo discurso de aceitação da nomeação oficial de sua candidatura pelo Partido Democrata, extraímos o que segue:

E restaurarei nossa posição moral, de modo que a América volte a ser a última e melhor esperança para todos aqueles que se sentem convocados para a causa da liberdade, que anseiam por vidas de paz e que aspiram a um futuro melhor. [...§] América, não podemos voltar atrás. Não quando ainda resta tanto trabalho a ser feito. Não com tantas crianças para educar e tantos veteranos de quem cuidar. Não com uma economia para consertar, cidades para reconstruir e fazendas a salvar. Não com tantas famílias para proteger e tantas vidas para resolver. América, não podemos retroceder. Não podemos caminhar sozinhos. Neste momento, nesta eleição, precisamos prometer mais uma vez marchar para o futuro. Vamos cumprir essa promessa – aquela promessa americana – e, nas palavras da Bíblia, nos atermos com firmeza, sem vacilar, à esperança que professamos.

Esse blog é notoriamente apolítico, embora o entusiasmo da candidatura, vitória e possibilidade de um governo Obama, contagiem de maneira especial a este autor, não é possível deixar de notar que o discurso de pré-destinação da “América”, ideologia fomentada pelos colonos Puritanos, e mantida em toda tradição político-religiosa daquela nação, é evocado com uma freqüência impressionante, e na eleição do ano passado o foi por ambos os partidos.

Não restam dúvidas no que tange as dificuldades a serem enfrentadas nesses tempos. Sob nossa geração pesa a responsabilidade de reverter os males causados por um sistema financeiro cegado pelo lucro, obcecado pela vantagem pessoal, escravo do dinheiro. Somos nós que devemos invadir as livrarias e arrancar das prateleiras os livros de auto-ajuda, colecionados e idolatrados por muitos de nossos pais, reservando para sua alienação desumana uma grande fogueira em praça pública. Somos nós que devemos dizer não a formação mesquinha que recebemos, doutrinando-nos a estudar para o Mercado de Trabalho, a viver para esse grande câmbio de escravos, em que o burro de carga mais forte, o idiota mais subserviente, é sempre o melhor. A atual sociedade condena a subjetividade, assassina a criatividade abstrata, encarcera os mais nobres potenciais humanos, reduzindo mentes brilhantes a micos de circo, descascadores de banana. Tudo está errado, e os noticiários escancaram essa premissa todos os dias, mostram-nos como a humanidade se desintegra num caos de imoralidade, descaso com a vida; terrorismos, guerras, fome, morte, as páginas do Apocalipse saltam da profecia para o cumprimento, seus Quatro Cavaleiros trotam por nossas páginas de jornal. A velha Terra parece mesmo girar confusa e sem rumo, doente, fugindo do controle. Precisamos como nunca de referenciais, de um líder, de alguém que saiba o que é melhor para nós, que possa nos conduzir em direção ao certo. Nossa geração tem em suas mãos, como nenhuma outra até agora, o destino de todo o Planeta. A própria sustentação da vida na Terra depende de nossas posições em relação ao Aquecimento Global. De nossas decisões sobre a distribuição de riqueza e renda dependem milhões de pratos de comida na África-subsaariana. De nossa opção por um consumo sustentável de combustíveis, e outros recursos naturais dependem os rumos da política de investimento das grandes corporações. Ao contrário do que muitos pensam, tais arbítrios não são obrigação exclusiva dos detentores do poder político, dependem sim de nossas atitudes, menores que sejam, impotentes que pareçam. O mundo nunca se mostrou tão globalizado, e a globalização tem como conseqüência direta a criação de uma Comunidade Internacional, à qual estamos irrevogavelmente ligados, irmanados pelo mesmo sangue vermelho que pulsa em nossos sete bilhões de corações. Nossas almas obviamente não podem suportar o peso de tais responsabilidades, portanto, repito, necessitamos como nunca de alguém que nos guie, de um caminho seguro a seguir. Esse alguém é Jesus Cristo, via et veritas et vita (João 14.6, segundo a Vulgata).

Incrivelmente distante do que foi proclamado por nosso Senhor, o maior continente cristão do mundo moderno parece pender para um utilitarismo político assustador. Em 2002 o povo brasileiro ouviu de seu Presidente Eleito que “a esperança venceu o medo”, tínhamos escolhido Luiz Inácio da Silva. Em 2009 os Estados Unidos ouviram que “neste dia, estamos aqui reunidos porque escolhemos a esperança em vez do medo”, Barack Hussein Obama tomava posse como seu 44º Presidente. De maneira inédita desde a Revolução Industrial, os povos do mundo voltaram seus olhos para o Estado em busca de soluções para uma crise que parece não ter fim. Seja a social no Brasil de Lula, ou a econômica na América de Obama.

Here is what Adonai says: “A curse on the person who trusts in humans, who relies on merely human strength, whose heart turns away from Adonai” [Tradução livre: Prestem atenção no que diz Adonai (o Senhor): “Amaldiçoada seja a pessoa que confia em humanos, que conta com forças meramente humanas, que afasta seu coração de Adonai]. – Jeremias 17.5, Complete Jewish Bible.

Confio plenamente na fé do presidente Obama, acredito que ele busca profundamente no Senhor, e nos mais nobres ideais de liberdade humana, forças para exercer a árdua tarefa para qual foi eleito, e se creio assim é porque ele não deu motivos ao mundo para que se duvidasse de suas boas intenções. Esses versos de Jeremias podem muito bem não ser para ele, na verdade espero que não o sejam. O Profeta discorre sobre uma verdade crucial à fé monoteísta, verdade revelada a Abraão, nos primórdios das relações entre Deus e os homens, verdade contrariada no Éden, segundo relato do Gênesis, na primeira infância da humanidade, desobediência que nos custou a inocência do paraíso.

É justamente sobre a sensação de “Paraíso Perdido” que gostaria de meditar, juntamente com você, leitor. Sobre o sentimento que se tem ao tomar um ônibus e ver-se obrigado a conviver com a sensação de insegurança, com a constatação da penúria nas relações humanas, com aqueles jovens que desperdiçam as forças de sua idade na alienação animal de suas músicas, instintos e roupas sem sentido. Sobre a descrença no homem e na fé do homem ao assistir-se todos os domingos ao mesmo culto repetitivo, desprovido de conteúdo ou mesmo vida. Sobre o desespero que nasce em nossos corações ao imaginar-se as tragédias humanitárias que não perdoam nenhum país do globo. De New Orleans à China, da Palestina ao Sudão, do Chade à Santa Catarina, da Austrália à Amazônia. O texto que escolhi em Jeremias, com a tradução humanizada e contextualizada de David Stern, nos dá a noção do que Deus espera de cada um de nós num momento de crise como o que vivemos.

A Septuaginta interpretou o conceito de “amaldiçoar” em Jeremias como έπικατάρατος (epikatarátos), que, mesmo correndo o risco anticientífico de minimizar seu significado, traduzirei literalmente por “exposto à execração”. Uma coincidência interessante do uso desta palavra pelos LXX está em sua primeira ocorrência no texto grego da Bíblia, em Gênesis 3.14, quando a serpente é amaldiçoada por ter seduzido Adão. Em Deuteronômio, só no capítulo 27, encontramos treze ocorrências de epikatarátos. Mais uma vez, arriscando-me a interpolar o sentido original da palavra e dos conceitos a que ela nos remente, gostaria de propor uma ligação, ainda que filosófica, entre a idéia de confiar em homens de Jeremias 17, e as conseqüências de se confiar na Serpente de Gênesis 3. Segundo o Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, traduzir o hebraico אָרוּר (ārûr) por simplesmente “amaldiçoar” é muito superficial. Suas raízes etimológicas remontam ao Acadiano arāru , “capturar com armadilha, amarrar”, e talvez isso nos ajude a entender textos como Juízes 2.3, quando Deus declara que não expulsará os povos das nações vizinhas, com seus respectivos deuses, para que eles sirvam de laço para Israel (cf. Salmo 106.36). Um exemplo claro da ligação que há entre a idéia de “laço” ou “armadilha” e “maldição” está na fala de Bildade, em Jó 18.9: “O laço o apanhará pelo calcanhar, e a armadilha o prenderá”, esse “amigo” de Jó reafirmava seu discurso sobre o destino dos ímpios. Contra os ímpios também é o clamor do Servo do Senhor, no vigésimo segundo verso do Salmo 69, que é messiânico: “Torne-se-lhes a sua mesa diante deles em laço, e a prosperidade em armadilha”. Provérbios 29.6 diz que: “Na transgressão do homem mau há laço, mas o justo jubila e se alegra”. Em Isaías 24.17 e Jeremias 48.43 o “laço” é comparado ao medo que se tem da sepultura. No Novo Testamento, Paulo recomenda a Timóteo que tenha bom testemunho com os de fora, para que assim não caia no “laço do Diabo” (até aqui, ACF). Se consegui expor meu raciocínio de maneira inteligível ao leitor, podemos traçar uma linha reta desde a Queda em Gênesis até suas últimas conseqüências, com todo o pecado que assola o mundo. O padrão é sempre o mesmo, o homem decide deixar de confiar em Deus, isso o faz cair numa armadilha, num laço, pois só Deus é capaz de ser fiel àqueles que nEle confiam, desse pecado surge a maldição que macula a terra. E por que o homem deixa de confiar no Senhor? Porque perdeu a esperança.

Não há, caro leitor, como viver o cristianismo sem esperança. Quando tudo mais acabar, além do amor e da fé, restará a esperança. Talvez não aja meio de viver uma vida alienada de algum tipo de esperança. Segundo o Papa João Paulo II,

O homem, ser que busca a verdade, é também aquele que vive de crenças.” – Carta Encíclica Fides Et Ratio, 31.

Crer é entregar-se a algum tipo de espera. Essa máxima abrange absolutamente todos os aspectos de nossa vida. Não existe relação ou atitude humana desinteressada, por mais generosos que sejamos, sempre esperamos algo, nem que seja aquela sensação de dever cumprido ao praticar uma boa ação. Nem que essa espera seja inconsciente, involuntária. Nosso cérebro, como o de qualquer outro animal, é movido por instintos de recompensa, espera algum retorno do mundo que o cerca. Voltando ao texto de Jeremias, reduzindo nossas especulações ao âmbito escriturístico da questão, e com a conclusão de João Paulo II em mente, como aqueles que vivem de crenças, devemo-nos indagar sobre os fins últimos dessas crenças que definem nossas vidas.

Na Epístola aos Romanos, justamente no momento de transição entre a apresentação dos modus vivendi gentio, seguida pela doutrina da Justificação pela Fé, o apóstolo Paulo passa a descrever a nova vida, pautada na fé, suavizada pela graça, possível graças a Esperança:

Tendo sido, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo, por meio de quem obtivemos acesso pela fé a esta graça na qual agora estamos firmes; e nos gloriamos na esperança da glória de Deus. Não só isso, mas também nos gloriamos nas tribulações, porque sabemos que a tribulação produz perseverança; a perseverança, um caráter aprovado; e o caráter aprovado, esperança. E a esperança não nos decepciona, porque Deus derramou seu amor em nossos corações, por meio do Espírito Santo que ele nos concedeu. ─ Romanos 5.1-5, Nova Versão Internacional.

O texto é parte da introdução da segunda parte da Epístola, e é notória a seqüência de idéias que são apresentadas. Perceba:

Evolução desde as tribulações até a esperança

Evolução de idéias iniciada nas tribulações e que culmina na esperança (clique para ampliar)

A justificação termina, no versículo dois, com a “esperança da glória de Deus”; e não é só! Dos versos três à cinco, temos outra evolução de idéias, agora mais afinadas com o ensino que o apóstolo pretende introduzir. Começa-se com tribulações, conseqüências naturais da vida “peregrina” que levamos nesse mundo (cf. Salmo 119.19; João 17.16; Atos 7.6; Efésios 2.19; Hebreus 11.13; 1ª Pedro 2.11), mas estas dão frutos, “produzem” perseverança, ou “constância, estabilidade”; essa perseverança, além de conseqüência da tribulação é pré-requisito para uma próxima virtude, que a supera e completa ao mesmo tempo, o que a NVI traduz por “caráter aprovado” a Bíblia de Jerusalém lê “virtude comprovada”, e as versões de Almeida “experiência”. Trata-se de δοκιμήυ (dokimén), que os gregos entendiam por “um exemplar de valor comprovado”, muito usada para a aferição da autenticidade de jóias ou moedas. Então, o sujeito que começou sua vida cristã justificado pela fé, quando Deus resolveu, através de Cristo se reconciliar com ele e esquecer todos os seus pecados, passou por uma vida interessante do ponto de vista espiritual e angustiante sob a ótica desse mundo, agora finalmente “passou no teste”, ou nas provas finais, e então recebe um dom: έλπιδά (elpida). Sim, o radical é o mesmo do versículo dois, mas trata-se de uma evolução do conceito. Lá tínhamos um substantivo no caso dativo, uma espécie de “objeto indireto” em português, indicando geralmente interesse pessoal, vantagem ou desvantagem, ou seja, ali o apóstolo trata de uma “esperança singular” na glória de Deus, no verso cinco temos o caso acusativo, que denota extensão do pensamento ou ação de um verbo, em português seria algo como o “objeto direto”, aqui se trata de uma Esperança imediata e ampla, ativa e frutuosa, tanto que não nos decepciona jamais! Sobre essa esperança a Bíblia de Jerusalém versa:

A esperança cristã é a expectativa dos bens escatológicos: a ressurreição do corpo (Romanos 8.18-23; 1ª Tessalonicenses 4.13s; cf. Atos 2.26; 23.6; 24.15; 26.6-8; 28.20), a herança dos santos (Efésios 1.18; cf. Hebreus 6.11s; 1ª Pedro 1.3s), a vida eterna (Tito 1.2; cf. 1ª Coríntios 15.19), a glória (Romanos 5.2; 2ª Coríntios 3.7-12; Efésios 1.18; Colossenses 1.27; Tito 2.13), a visão de Deus (1ª João 3.2s), numa palavra, a salvação (1ª Tessalonicenses 5.8; cf. 1ª Pedro 1.3-5) própria e dos outros (2ª Coríntios 1.6s; 1ª Tessalonicenses 2.19). Designando em primeiro lugar a virtude que espera esses bens, ela pode, às vezes, designar estes mesmos bens celestes (Gálatas 5.5; Colossenses 1.5; Tito 2.13; Hebreus 6.18). Outrora depositada em Israel (Efésios 1.11-12; cf. João 5.45; Romanos 4.18), com exclusão dos gentios (Efésios 2.12; cf. 1ª Tessalonicenses 4.13, ela preparava uma esperança melhor (Hebreus 7.19), que hoje é oferecida também aos gentios (Efésios 1.8; Colossenses 1.27; cf. Mateus 12.21; Romanos 15.12), no mistério de Cristo (Romanos 16.25). Ela se fundamenta em Deus (1ª Timóteo 5.5; 6.17; 1ª Pedro 1.21; 3.5), em seu amor (2ª Tessalonicenses 2.16), em seu apelo (1ª Pedro 1.13-15; cf. Efésios 1.18; 4.4), em seu poder (Romanos 4.17-21), em sua veracidade (Tito 1.2; Hebreus 6.18) e na sua fidelidade (Hebreus 10.23) em manter as promessas consignadas nas Escrituras (Romanos 15.4) e no Evangelho (Colossenses 1.23), e realizadas na pessoa de Cristo (1ª Timóteo 1.1; 1ª Pedro 1.3,21). Ela não pode decepcionar (Romanos 5.5). – Bíblia de Jerusalém, comentário d, em Romanos 5.2. pg. 1973.

Tudo isso e muito mais será bem explicado e explicitado no artigo de meu amigo Emanuel Schimidt, sobre esse tema. Agora que conseguimos explicar (de maneira bastante superficial, admito) o que é esperança e sua relação com a vida cristã, podemos retomar nosso raciocínio.

Comecei falando de pessoas que pregam esperança, e daqueles que acreditam nessa esperança. Mostrei o que Deus pensa disso, e quais as conseqüências dessa expectativa humana. Em seguida vimos o que é a esperança desejada por Deus, suas fontes, sua relação com nossa vida. Agora, diante desses fatos, caro leitor, sou forçado a perguntar-me sobre minhas próprias esperanças. Será que para escrever esse artigo, garboso de minha pseudo-intelectualidade, decidi falar o que pensava, o que “sabia”, o que “achava”, ou me submeti humildemente a Escritura e ao Espírito de Deus para dirimir minha ignorância humana? Na próxima semana, quando receber meu salário, vou sair por aí gastando como desejar, já que foi meu suado trabalho que o propiciou, ou agradecerei a Deus pela oportunidade de poder trabalhar, e tentarei encontrar junto com ele, como servo e Senhor fariam, a melhor maneira de distribuir meus rendimentos? E segunda-feira, quando o ano letivo começar, e eu passar a ser um “acadêmico de História”, vou me lembrar que não tenho direito de fazer o que bem entendo, e, se estou na Academia é para cumprir desígnios infinitamente maiores que minha débil compreensão? Vou mais longe! Quando votar para Presidente da República, nas eleições de 2010, pesarei bem as propostas e escolherei o candidato que apresentar o melhor currículo pessoal e o melhor projeto factual para meu país, ou deixar-me-ei levar por aspectos ideológicos ou emotivos do marketing político? E no próximo domingo, quando me sentar no banco de uma igreja, vou até lá para receber uma mensagem, uma bênção, ouvir o louvor, conversar com os amigos, ou para encontrar uma forma de servir ao próximo, de amá-lo como a mim mesmo, porque, afinal, essa é a única maneira de ter um encontro com Deus (cf. 1ª João 4.7-21).

O que eu espero do mundo que me cerca? Onde estão fundamentadas minhas expectativas? Em “O Senhor dos Anéis”, Gandalf e Peregrin Tûk observaram o avanço do mal sobre seu mundo. Um exército tão grande e devastador que poria fim a era em que estavam acostumados a viver, introduzindo na Terra Média um Império de dor e sofrimento. Não havia lá muito o que esperar, a não ser a guerra e morte, como hoje não parece haver nada em que possamos nos apoiar. Nossos empregos estão ameaçados, nossas igrejas vazias, a mente da maioria de nossos irmãos e líderes também, o Apocalipse, tão esperado e temido, parece finalmente inevitável. Diante disso, a pergunta que nos faço é se temos em nossos corações a “esperança de um tolo”, tudo que restava a Gandalf, e exatamente aquilo que o salvou, ou se devemos mesmo continuar procurando no mundo à nossa volta tábuas de salvação para nossa alto-estima.

Não vou terminar esse Apostatamos! como os outros, não vou apontar meu dedo acusador em seu rosto e dizer o que está errado. Esse é um tema diferente e infinitamente delicado. Prefiro lembra-lo de que não estamos em casa, de que essa terra, esse mundo, essa Era não nos pertence. De que somos “concidadãos dos céus”. Prefiro pedir que você volte seu pensamento para as informações que chegam aos seus olhos e ouvidos todos os dias. As “profanas”, que falam de pacotes econômicos, planos de governo, discursos de esperança em meio ao caos. Aquelas idéias dos políticos, dos autores de auto-ajuda, dos conselheiros de plantão. As “sagradas”, dos boletins de igreja que apresentam novos “projetos evangelísticos”, metas, “sonhos de Deus para a igreja”; os projetos de ampliação do templo, as campanhas para arrecadação disso e daquilo, os livros que passaram a acrescentar vários hifens após a palavra “Evangelho”, as novas ondas, missões e movimentos que se aglomeram em volta do povo de Deus, cada uma com uma idéia, com sua parte da Babel evangélica. Peço que você pese, pondere, reflita. Suas relações com o mundo, suas expectativas sobre o amanhã, seus horizontes, estão voltados e enraizados no Deus, que é Patrem Omnipotentem? Se estão, que Ele nos ajude a permanecer assim, rumo à nossa verdadeira Pátria Celestial. Se não estão, é hora de voltar ao primeiro amor.

asseras

Portanto, quem ouve estas minhas palavras e as pratica é como um homem prudente que construiu a sua casa sobre a rocha. Caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e deram contra aquela casa, e ela não caiu, porque tinha seus alicerces na rocha. Mas quem ouve estas minhas palavras e não as pratica é como um insensato que construiu a sua casa sobre a areia. Caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e deram contra aquela casa, e ela caiu. E foi grande a sua queda” – Mateus 7.24-27, NVI.

Após todas as tempestades que enfrentamos em dois mil e oito finalmente podemos ver os alicerces que sobreviveram às intempéries. Aprendemos com satisfação que a fé, quando colocada em prática, destrói todo fundamento alheio à Deus e fortalece as raízes de eternidade semeadas por Ele em nossos corações.

Depois de um ano como este, seria impossível deixar de vir a público agradecer toda a ajuda que recebemos, toda a confiança e dedicação em nós depositada pelas almas piedosas colocadas pelo Senhor em nosso caminho. A base do cristianismo é a vivência comunitária (cf. 1ª João 4.7-21), e pudemos ver e ouvir nosso querido Jesus na vida de cada irmão. Não faltaram gestos, atitudes ou palavras que nos fizeram refletir, ensinando verdades evangélicas que hoje sedimentam nossa identidade.

Vocês são jovens demais”, disseram alguns, como os irmãos de Davi as vésperas da derrota de Golias. De fato, foi com entusiasmo juvenil que a Igreja nascente evangelizou o mundo. O próprio Cristo era jovem quando iniciou seu ministério. E a História nos fala de incontáveis mártires que, apesar da pouca idade, com seu sangue inspiraram e impulsionaram várias gerações de fiéis. Além de sua juventude, em comum também tinham a coragem de pôr sua fé em prática, desafiando os limites impostos pela própria juventude.

Devemos admitir que somos imaturos, o que nos foi lembrado à exaustão. Contudo, talvez esse seja o nosso maior patrimônio, pois se por um lado isso acusa nossas infantes aspirações, por outro evidencia o potencial latente de caráteres que rumam à plena maturidade. É essa busca pela perfeita varonilidade que Paulo exorta à nós e a toda Igreja em Efésios 4.11-16, uma diretiva fundamental que norteou nossos esforços durante esse ano. Sequiosos pelo ideal de um Corpo de Cristo pautado em amor, por unidade e pluralidade, buscamos incansavelmente viver e propagar essas verdades, único caminho para a edificação da Igreja. Lutando aberta e declaradamente contra a “ditadura do relativismo”, resistimos o quanto foi possível aos muitos ventos de doutrina que vimos soprar. Cônscios de nossa imaturidade, optamos por nos alienar de toda idéia humana, misticismo ou contemplação vã, aceitando a Escritura como única autoridade capaz de elevar o caráter cristão a sua plenitude.

À exemplo de todos os fiéis servos de Jesus, aceitamos seu chamado ao serviço (cf. Mateus 9.35-38; Lucas 22.26). Somos inexperientes, sim, mas obedecendo ao imperativo do Senhor da Colheita, optamos por não enterrar os poucos talentos que nos foram confiados, antes buscamos multiplicá-los (cf. Mateus 25.14-30). Cremos que o serviço aos santos se trata menos de uma questão de disposição, arbítrio ou coragem, e mais de uma obrigação embutida na própria essência de nossa natureza como filhos de Deus (cf. 1ª Coríntios 9.16-18; Filipenses 2.5-11). Paulo novamente nos subsidia, argumentando em favor desta imatura inexperiência, ou melhor, de nossa busca por uma experiência genuína, quando, escrevendo aos filipenses, afirma que “Todos nós que alcançamos a maturidade devemos ver as coisas dessa forma, e, se em algum aspecto vocês pensam de modo diferente, isso também Deus lhes esclarecerá. Tão-somente vivamos de acordo com o que já alcançamos” (3.15,16). Nossa inexperiência nos coloca ao lado daqueles imaturos que esperam ver as coisas de uma forma esclarecida pelo próprio Deus. Até lá, de forma alguma podemos esperar de braços cruzados. Somente os que buscam encontram (cf. Mateus 7.7). Apesar do pouco que tivemos a oferecer aos nossos diletos irmãos além de nossas boas intenções, acreditamos que era preciso começar de alguma forma, como diz a Bíblia: “Quando existe a boa vontade, somos bem aceitos com os recursos que temos; pouco importa o que não temos.” (2ª Coríntios 8.12, Bíblia de Jerusalém).

Uma vez rememoradas as fraquezas desse ano quase infinito de contrastes, damos graças ao Eterno Rei pelas pedras-vivas (cf. 1ª Pedro 2.5) usadas por Ele, que nos moldaram (cf. Provérbios 27.17), aperfeiçoando nossos espíritos, nos tornando melhores, mais experientes e maduros. Mesmo correndo o risco de esquecer pessoas importantes, gostaríamos de agradecer:

Claudemir e Fátima

Pais, pastores, amigos, nos amando incondicionalmente em todos os momentos;

Felipe Veronezi

Por nos dar verdadeiras lições de amizade, honra e lealdade, se preocupando tanto com nosso bem-estar e se esforçando pelo nosso bem;

Luiz Cláudio e Poline

Seus corações compungidos nos inspiraram a buscar a verdadeira face do Rei (cf. Salmo 27.8). Obrigado pela hospitalidade (leia-se a comida Divina da Poline), pelas excelentes piadas e em 2009 somos voluntários para a reconstrução das telas;

Anderson Bomfim

Por pacientemente tentar entender os rumos que estávamos tomando, sem graves objeções e com veemente e responsável preocupação;

Elenice Malzoni

Que abriu tantas vezes sua casa para dois jovens imaturos e inexperientes, e que nos proporcionou tantos momentos de aprendizado;

Polaco e Andressa

Por também abrirem suas casas e aceitarem serem batizados por pessoas como nós;

Velder e Aline

Parabéns pela casa (e família) que estão formando juntos. Nos confessamos surpreendidos por tamanho progresso. São amigos leais, e saibam que bons amigos fazem falta;

Emmanuel Carreteiro

Quem crer e for batizado será salvo (ehehe)! Podemos dizer que estivemos juntos até o fim, só não se pode dizer exatamente o fim de que. Esteve conosco nos piores e melhores momentos. Obrigado por toda a ajuda, que nossa amizade se fortaleça no ano vindouro;

André e Simone

Sábios conselheiros, grandes mestres, alguns dos poucos referenciais que nos sobraram. Graças a Deus por suas vidas! Não devem imaginar como nos sentimos à vontade na casa de vocês, muito menos na alegria de poder servi-los nos dias em que estiveram conosco. Obrigado por tal honra!;

Erik e Christofer

Jovens que demonstram a esperança de um futuro melhor para o Reino;

Todo o MAP Gileade

Talvez o último remanescente fiel de profetas e intercessores leais ao Rei e completamente desprendidos de qualquer consolação humana;

Jeferson e Mônica

Estiveram ao nosso lado em tantos momentos! Somos eternos devedores de sua hospitalidade, confiança, carinho e lealdade. E parabéns pelos trabalhos de profecia!;

Hamilton e Jordana

Obrigado por nos ensinarem com a sabedoria que vocês têm e que nos edificou, inclusive todo o incentivo;

Mariane Benke

Agradecemos sua amizade, dedicação (principalmente pelos bolos de chocolate com morango!) e carinho;

Bruno

Obrigado por todo o amor. Seu coração é lindo, não deixe que nada faça essa beleza se perder. É dom de Deus, que sara as pessoas. Valeu por nos receber em sua casa, e ainda estamos de devendo os 3kg de frango (ou eram 5kg?);

Milton e Lídia

A oportunidade de serví-los, ensinando em sua Escola Dominical foi importantíssima. Esperamos ter podido oferecer um mínimo do tanto que recebemos por aqueles domingos especiais na presença dos santos que se reúnem na Aliança Cristã e Missionária.

Adilson e Rosana!!!

A maneira como nos receberam atesta sua proverbial bondade, são exemplos fiéis e dignos de um cristianismo que ainda sonhamos em ver sobre a face da terra;

Tadeu e Rosane

O amor de vocês pelo Reino de Deus nos constrange e contagia. São professores de uma conduta piedosa, servidores fiéis e completamente despretensiosos, como todos deveríamos ser;

Fábio e Erika

Obrigado pela lembrança durante esse ano, toda a demonstração de carinho e preocupação, exemplos de amor pelos irmãos. Fábio, continue sendo esse adorador “racional” (cf. Romanos 12.1), que busca continuamente conhecer a mente (doxa, glória) de Deus;

Josias e Genize

Agradecemos vocês pelas lições que nos ensinam ao mostrar o esforço e dedicação de buscar ao Senhor, vivendo o amor em família e congregação. Promessa de Ano Novo: visitar vocês!;

Clóvis e Vera

Por abrirem a porta de seu lar (tanto na cidade quanto na praia!) e nos permitirem compartilhar nosso aprendizado;

Marcelo, Soraia e Milena

Nesse ano assistimos ao nascimento de uma esperança feita de lágrimas e pureza infantil. Que o Senhor lhes dê sabedoria para regar esse jardim. Obrigado por toda ajuda;

Agora que dois mil e oito faz parte da História, tais vultos se revestem de singular importância. Embora tenhamos trilhado caminhos notoriamente distintos de algumas das pessoas que merecem nossa gratidão formal, em nossos corações repousa a certeza de que cada uma delas foi usada por Deus, e é assim que permanecerão em nossa memória.

E a História da Eternidade continua. Nosso principal desejo é fazer parte dela, como cartas vivas (cf. 2ª Coríntios 3.1-5) escritas pelo Senhor, e esse ano nos reserva diversas oportunidades de continuarmos demonstrando a razão da nossa fé (cf. 1ª Pedro 3.15). Reafirmamos nosso compromisso com o serviço e o ensino. Nossa busca por uma melhor compreensão da Verdade escriturística continuará até o fim, quando completarmos a carreira que nos é proposta (cf. 2ª Timóteo 4.7). Esse blog voltará ao ar em Fevereiro, num novo formato e com ânimo renovado pelas respostas que teremos do Senhor nas próximas semanas.

Como sempre, apesar da juventude, inexperiência e imaturidade, todos os que de coração sincero buscam ao Senhor podem contar inteiramente com tudo que tenhamos a oferecer.

Seus amigos, colaboradores da verdade,

Emerson Silva e Emanuel A. Schimidt

Curitiba, 01 de Janeiro 2009.

Mas o que para mim era lucro, passei a considerar como perda, por causa de Cristo. Mais do que isso, considero tudo como perda, comparada com a suprema grandeza do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor, por quem perdi todas as coisas. […] Esquecendo-me das coisas que ficam para trás, e avançando para as que estão adiante, prossigo para o alvo, afim de ganhar o prêmio do chamado celestial de Deus em Cristo Jesus.” – Filipenses 3.7-8, 13b-14.

Eles Dizem e Não Fazem!

|Apostatamos!|nº 05, 10 de setembro de 2008|versão para impressão|

Assim como o corpo sem alma não passa de carcaça morta, também o falar vazio não passa de carcaça sem vida. A alma da religião é a prática. [...] Disso Tagarela não se dá conta; ele acha que ouvir e falar fazem um bom cristão, e assim engana a própria alma. Ouvir é somente a semeadura; falar não é suficiente para provar que o fruto já está de fato no coração e na vida. É bom que saibamos que no dia do juízo os homens serão julgados segundo os seus frutos, pois não lhes será perguntado: “Vocês acreditaram?”, mas “Vocês foram praticantes ou meramente faladores?”. E assim serão julgados. – Bunyan, John. “O Peregrino”, capítulo 10: Os Falsos Mestres.

Jamais me convide para pregar! Por favor, entenda-me, não nasci de novo para isso. E nascer do alto é algo que sempre procurei levar muito à sério. Nada tenho contra uma boa pregação, de fato, leio a maioria das homilias do Papa Bento XVI que posso, e, sendo sincero, sou um tanto quanto apaixonado pela arte da retórica, mas amo muito mais ao meu Senhor.

O problema não é o que não tenho contra a pregação, mas sim o que tenho a favor do anúncio neotestamentário do Evangelho de Jesus Cristo. Por falar na metade grega da Bíblia, existem dois verbos por trás do português “pregar”. O primeiro deles é técnico, kērýssō, “anunciar, proclamar”, e o outro mais vago, euangelizomai, “trazer boas notícias, anunciar boas novas”. São palavras tão parecidas que, é claro, mereceram uma tradução idêntica no inglês da King James, que João Ferreira de Almeida não teve vergonha de copiar e influenciar várias gerações de leitores na boa língua lusitana. Contudo, basta a qualquer tradutor esforçar-se um pouco mais para encontrar logo ali, na Vulgada de Jerônimo, alternativas completamente diferentes de tradução. É assim que temos “In diebus autem illis venit Ioannes Baptista praedicans in deserto Iudaeae” (Mateus 3.1), num clássico emprego de kērýssō, contra “Nam si evangelizavero, non est mihi gloria; necessitas enim mihi incumbit. Vae enim mihi est, si non evangelizavero!” (1ª Coríntios 9.16), não menos importante utilização de euangelizomai. Ora, praedicans e evangelizavero são tão fundamentalmente diferentes quanto “falar sobre a última rodada do Campeonato Brasileiro de Futebol” e “anunciar que eu e minha noiva vamos nos casar em dezembro próximo”.

Jonh Bunyan pagava com a privação de sua liberdade a ousadia de praticar a fé quando decidiu falar sobre ela no clássico The Pilgrim’s Progress (O Peregrino). O trecho que escolhi para começar essa coluna talvez trate-se da mais ácida e severa denúncia que o cristianismo episcopal inglês sofreu até hoje por meios oficiais e amplamente difundidos. O problema é que o Protestantismo esqueceu de protestar. Esqueceu-se que Lutero começou a mudar o mundo ao pregar aquelas teses e desafiar Leão X ao debate racional e escriturístico das doutrinas ensinadas pela Igreja. Poucos tiveram a coragem de Bunyan em falar – não o que pensam – mas o que diz a Bíblia sobre a conduta e a moral evangélica. Tudo agora são panos quentes, e somos como que prisioneiros de “Oz, o Grande e Terrível”, sem jamais saber que é um patife franzino e mais covarde do que nós a esconder-se atrás do biombo. Para isso existe o Apostatamos!, para falar sem medo o que deve ser falado, porque a verdade urge ser dita. Como diziam os latinos, veritas odium parit (a verdade atrai o ódio), mas Jesus nos alertou sobre o ódio e os inimigos que granjearíamos com a Palavra. Nas últimas colunas, mostramos como alguns tem dissimulado a verdade e lucrado com a ignorância do povo de Deus, pedindo dízimos em nome de uma interpretação apóstata das Sagradas Escrituras. Agora precisamos ir mais longe, pois tenho visto lobos como nunca antes a rondar o rebanho de nosso Senhor. São falsos mestres, que falam demais e fazem de menos. Falsos discípulos, que amam os altares, os holofotes e o púlpito, mas fogem do pano, do rodo e da vassoura. Mercenários que ostentam o título de pastores para alimentar-se da carne e agasalharem-se com a pele das pobres ovelhas. Oportunistas que vociferam profecias em nome Daquele que jamais conheceram ou mesmo esforçaram-se sinceramente por conhecer.

O tema dessa coluna é hipocrisia, o pior dos tipos dela. Nosso título baseia-se num trecho do capítulo 23 do Evangelho segundo Mateus, formidavelmente traduzido por André Chouraqui:

1 Então Iéshoua‘ fala às multidões e a seus adeptos. 2 Ele diz: «Na cadeira de Moshè estão sentados os Sopherîms e os Peroushîms. 3 Portanto, tudo o que eles vos dizem, fazei-o e guardai-o. Apenas não façais segundo suas obras. Sim, eles dizem e não fazem. 4 Eles fazem cargas pesadas e as impõem sobre os ombros dos homens; mas eles próprios não são capazes de movê-las com seu dedo».

5 «Eles fazem todas as suas obras para serem notados pelos homens. Sim, eles incham seus tephilîms, alongam seus sisits; 6 eles gostam do melhor lugar nos jantares, do primeiro assento nas sinagogas, 7 das saudações nos mercados, e de serem chamados pelos homens: “Rabi”».

8 «Quanto a vós, não vos façais chamar “Rabi”: sim, vosso rabi é único e vós sois todos irmãos. 9 Não chameis a ninguém na terra de “Pai”: sim, vosso pai dos céus é único. 10 Não vos façais chamar “Chefe”: sim, vós tendes um único chefe, o messias. 11 O maior dentre vós será vosso servo. 12 Quem se eleva será humilhado; quem se humilha será elevado.» – Chouraqui, André. Matyah (O Evangelho Segundo Mateus). pgs. 283-85.

Como destaquei, o capítulo começa com uma peculiaridade em relação aos demais discursos de nosso Senhor Jesus Cristo. Isso porque o Messias raras vezes falava diretamente às multidões, o que é claramente afirmado no mesmo Evangelho de Mateus, capítulo 13, verso 34. Segundo Reese, esse foi o décimo sexto discurso de Jesus, feito apenas quatro dias antes da crucificação. Antes disso ele havia proferido vinte e nove parábolas e discursado outras quinze vezes, todas falas importantes o suficiente para constar no relato canônico de sua vida. A questão é por que, justamente agora, próximo do fim, uma condenação tão severa do farisaísmo é proferida, e isto diante de toda Jerusalém. A opinião deste autor é que, ante à sua paixão e a consumação de seu propósito, era necessário ao Cristo chamar ainda uma última vez Israel de volta à Torá. Isso porque, caro leitor, a obediência é a alma da Lei.

Eles dizem e não fazem! Essa é a condenação final aos fariseus, o Salvador só tornará a vê-los no Sinédrio, e na inglória posição de réu, sentenciado por antecipação à morte. Esse foi o último apelo de um Deus amoroso aos líderes de uma nação fadada à destruição total. Esse é o mesmo apelo de Jesus ressurreto, e Ele o faz à imensa orbe daqueles que dizem crer em suas palavras. Eles dizem e não fazem! Cristo se dirige a todos, desde os apóstolos, incumbidos de gerenciar a Ekklēsía nascente, até o mais provinciano camponês que peregrinava à Cidade Santa por ocasião da Páscoa. Essas são asseverações que todos nós devemos observar e entender, porque de sua observância depende nossa salvação (cf. Provérbios 16.17).

A Cátedra de Moisés

Por hora deixemos de lado Mateus 23.1-12 e concentremos nossos esforços em tentar entender um importante conceito dentro do contexto da passagem: “A Cátedra de Moisés”, ou a “Cadeira de Moshè”, segundo os hebraísmos de Chouraqui. O único motivo pelo qual o povo deveria dar ouvidos as palavras dos líderes religiosos daquela época era o fato de ocuparem tal assento.

No mundo moderno temos dois exemplos gerais de Cátedra. O mais comum é o acadêmico, assim a “Cátedra de Biologia da Universidade Federal do Paraná é ocupada pelo Doutor Fulano de Tal”, e tal ocupante tem certa autoridade sobre o curso universitário. O outro, restrito ao círculo eclesiástico, representa a jurisdição de um Bispo, por exemplo, “o Papa assenta-se sobre a Cátedra de São Pedro, como Bispo de Roma”, ou “Cláudio Cardeal Hummes ocupava até outubro de 2006 a Cátedra episcopal da cidade de São Paulo”. Dentro da hierarquia Católica Romana o Sumo Pontífice têm autoridade sobre os Arcebispos Metropolitanos, que por sua vez tem autoridade sobre os demais Bispos e Padres. Em síntese, o entendimento de Cátedra não mudou muito desde os tempos de Cristo, e assim podemos resumir o termo como o lugar de honra ocupado por um grande vulto do passado, e que a concede a seus atuais ocupantes o seu mesmo nível de autoridade.

Na época de nosso Senhor, segundo ele próprio, esse lugar era ocupado pelos Escribas e Fariseus, portanto devemos voltar ao passado e entender melhor um pouco desses dois importantes elementos da sociedade judaica do primeiro século.

Para compreender o farisaísmo devemos voltar aos tempos da Revolução dos Macabeus. Tudo começou com a revolta de um grande herói judeu, Judas ben Matatias (cujo sobrenome, em grego, Makkabaios, acabou por nominar toda sua descendência). Judas e seus partidários iniciaram uma insurreição contra os desmandos de Antíoco IV (Epifânio), que, entre outras barbaridades, vendia o Sumo Sacerdócio de Jerusalém a quem lhe pagasse mais, profanou o Templo instituindo ali prostituição cultual e sacrifícios pagãos, e instituiu altares reais nas vilas da região, onde deveriam ser oferecidos sacrifícios a seus deuses. Judas, cuja bravura e representação na Judéia é comparada por alguns a de Wilhelm Tell na Suíça, mesmo idoso, assassinou um compatriota traidor que viera até sua aldeia (Modein, à cerca de 32 km de Jerusalém) oferecer sacrifícios sobre o altar real. A guerrilha começou nas colinas da região, e certos hassideanos, (do hebraico hasidim, “leais” ou “santos”), leais a Onias III, último Sumo Sacerdote legítimo, deposto por Antíoco IV, e extremamente patriotas, juntaram-se a eles. Num resumo extremo da história, os Macabeus, com a ajuda dos Hasidim, venceram a opressão estrangeira e iniciaram uma dinastia sacerdotal na Judéia. O primeiro a acumular o cargo de Governador e Sumo Sacerdote foi Simão, último dos sobreviventes de Matatias. Simão Macabeu acabou sendo assassinado pelo genro em 135 a.e.c., e seu filho, João Hircano, assumiu então o governo da Judéia, ainda que temporariamente vassalado ao Império Selêucida (fragmentário do Império Macabeu, de Alexandre Magno). Hircano contou com o apoio dos Hasidim, que por volta dessa época passaram a ser conhecidos como Peroushîms (Fariseus, termo que mui provavelmente significa “os separados”). Contudo os Peroushîms voltaram-se contra a perigosa mistura entre religião e política e deixaram de lado as lutas revolucionárias, por isso foram ferozmente perseguidos por Hircano e seus filhos, perseguição que foi aplacada somente com a ascensão ao poder da esposa do governador, Alexandra Salomé entre os anos de 76 e 67 a.e.c.. Como governadora ela abdicou do poder espiritual e o colocou em mãos dos Fariseus, que passaram a dominar o Sinédrio. Na época que antecedeu a dominação romana na Judéia, sobretudo durante o governo dos tetrarcas Antípater e Herodes Magno, o partido dos Fariseus sofreu pesada oposição, que os levou a adotar definitivamente uma política de separação entre religião e estado, ao ponto de solicitar de Roma um governador direto e independente das questões espirituais dos judeus. E assim os temos na época de Jesus, defensores de um estado laico (tanto quanto for possível aplicar esse termo ao mundo romano), e guardiães da mais pura tradição mosaica.

Como vimos, sob muitos aspectos o partido dos Peroushîms tem uma trajetória louvável, defenderam a religião e a dominação estrangeira, derramaram seu sangue pela causa santa, e mantiveram-se firmes na salvaguarda a Lei, mesmo que isso custasse para muitos deles a terrível crucificação. Obviamente em nossos dias encontramos muitos com a impecável ficha dos Fariseus, que podemos chamar de “revolucionários”, ou ainda “desbravadores”. Homens que lutaram, à frente de sua época, por uma fé mais pura. Mas o tempo, hábil degenerador de ideais, terrível devorador de sonhos, é capaz de petrificar consciências. Jesus condenou os Peroushîms por não viverem o que pregavam, e desse crivo não há passado brilhante que nos possa livrar.

Começamos pelos Fariseus porque, nos seis primeiros séculos de nossa era, esse partido e a linhagem dos Sopherîms eram praticamente sinônimos. O termo “Escriba” é muito amplo, e esse cargo existiu por todo o Oriente Próximo na antiguidade. Do Egito à Babilônia, de Canaã à Pérsia, todos os grandes impérios tiveram na profissão dos escribas a garantia de preservação de suas mais caras tradições. Em Israel os escribas eram técnicos no estudo da Torá. Tinham basicamente três funções fundamentais: Preservar a Lei, como estudiosos profissionais e fiéis transmissores de seus rigores a todo o povo; Instruir novos discípulos, que seriam responsáveis por propagar a Tradição perpetuamente; Julgar a aplicação da Lei, como juízes do Sinédrio, ou “Doutores da Lei”, um sinônimo de sua profissão no primeiro século. Se os Peroushîms começaram sua história com a glória das batalhas nacionais, os Sopherîms tiveram uma origem ainda mais nobre, que remonta as longínquas épocas de Esdras e à reconstrução do Templo de Jerusalém. Por volta daquela época a função de conservar, ensinar e julgar a Lei era exclusividade da classe Sacerdotal, como versa todo o livro de Levítico. Esdras mesmo era sacerdote, mas ficou conhecido como Escriba (Esdras 7.11,12,21; Neemias 8.1,4,9,13; 12.26,36). Como sucessores diretos de Esdras, os Sopherîms conservavam um status superior até mesmo aos sacerdotes, porque personificavam em sua função o que há de mais louvável em Israel, o bom estudo da Torá e a fidelidade a Iahweh. A classe dos Escribas salvara a própria religião, determinando a correta observância da Lei durante todo o período do exílio. Eles subsidiaram também toda adaptação do judaísmo, centrado no Templo e na Monarquia de Jerusalém, à realidade da diáspora, fundando as Sinagogas regionais, centros de estudo da religião e de toda piedade judaica.

Se a figura dos Fariseus lembra toda gama de guerreiros da fé em nossos dias, a dos Escribas claramente nos faz pensar naqueles santos homens que, com toda sua sabedoria e conhecimento teológico, mantém de pé aquilo que sabemos sobre a Bíblia. Quantos grandes mestres e pregadores não conhecemos hoje? Quantos não nos ensinam continuamente sobre o que deve ser feito? São homens assim, os Escribas modernos, que dominam o assunto das rodas de conversa que antecedem nossos cultos: “viu a pregação de Fulano? Que bênção! Quanta sabedoria e habilidade em ministrar a palavra! Como abençoou minha vida!”. Sobre alguns desses homens Jesus disse: “Tudo o que eles vos mandam, devem aceitá-lo e pô-lo em prática, mas não imitem o que eles fazem. É que eles dizem uma coisa e fazem outra”.

Os “Líderes” no Reino de Deus

Aprendemos que a classe sacerdotal era responsável pela guarda da Torá. Isso era um fato em tempos exílicos e anteriores à monarquia. Para entender o que Jesus queria dizer sobre a Cátedra de Moisés devemos contudo ir um pouco mais além. Se fizermos isso encontraremos a palavra hebraica que Cristo deve ter usado para aquilo que traduzimos como Cadeira. Provavelmente trata-se de כִּסֵּא (kissē’), “assento (de honra), trono, cadeira, banco; figurativamente: dignidade real, autoridade, poder”. Eis nosso kissē num livro de nome muito sugestivo, Deuteronômio, Devarim, ou “As Palavras”:

14 Se quando entrarem na terra que o Senhor, o seu Deus, lhes dá, tiverem tomado posse dela, e nela tiverem se estabelecido, vocês disserem: ‘Queremos um rei que nos governe, como têm todas as nações vizinhas’, 15 tenham o cuidado de nomear o rei que o Senhor, o seu Deus, escolher. Ele deve vir dentre os seus próprios irmãos israelitas. Não coloquem um estrangeiro como rei, alguém que não seja israelita.

18 Quando subir ao trono do seu reino, mandará fazer num rolo, para o seu uso pessoal, uma cópia da lei que está aos cuidados dos sacerdotes levitas. 19 Trará sempre essa cópia consigo e terá que lê-la todos os dias da sua vida, para que aprenda a temer o Senhor, o seu Deus, e a cumprir fielmente todas as palavras desta lei, e todos estes decretos. 20 Isso fará que ele não se considere superior aos seus irmãos israelitas e que não se desvie da lei, nem para a direita, nem para a esquerda. – Deuteronômio 17, (NVI).

Podemos dizer, com considerável grau de certeza, que essa é uma das mais objetivas definições da “Cátedra de Moisés”, ou seja, a liderança do povo de Deus. Agora, deixando o terreno das explicações históricas e conceituais, podemos entender melhor do que se trata a tal Cátedra se analisarmos alguns dos requisitos para tornar-se Rei (líder) em Israel.

O versículo 15 começa com o básico: o Senhor escolhe quem ele bem entender para comandar seu povo. Não existe democracia celestial, e sim uma teocracia absolutista. Para aplicar isso em nossos dias teríamos que contar com profetas competentes e devidamente reconhecidos, e confiar a eles a imposição de lideranças chanceladas pela vontade divina. Mas nem o básico está livre de requisitos: “Ele deve vir dentre os seus próprios irmãos israelitas. Não coloquem um estrangeiro como rei, alguém que não seja israelita”. Trazendo para os dias de hoje, não podemos admitir na qualidade de “líderes” aqueles que não vivem, pensam ou agem conforme os mais profundos rigores da Sagrada Escritura, que não tenham um comportamento que coincida com o de um membro do Povo de Deus.

Seguindo, à partir do verso 18, temos agravantes. Possuir uma “cópia da Lei” hoje é algo perfeitamente normal e até barato, mas “cumprir fielmente todas as palavras desta lei, e todos estes decretos”… Entre palavras e decretos, contamos exatamente 613 obrigações da Torá. E o Rei (Líder) tinha de obedecer a cada uma delas. Para Moisés era fácil, afinal ele havia escrito, quero ver para qualquer líder cristão dos dias de hoje. Claro, Jesus nos livrou do peso da Lei, não há o que se discutir nesse ponto. Mas Jesus não riscou da Torá o capítulo 17 de Deuteronômio. Ele está lá como um norte para toda a liderança que o Senhor instituir nos dias de hoje. A Bíblia permanece como guia indiscutível de moral e cidadania, e ela deve ser completamente obedecida para que o líder “não se considere superior aos seus irmãos israelitas e que não se desvie da lei, nem para a direita, nem para a esquerda”.

Paulo mostrou-se um tanto quanto mais severo que o próprio Moisés. Em 1ª Timóteo 3.1-7 o apóstolo detalha nada menos que 15 qualificações indispensáveis ao episcopado, cujo candidato deve ser:

  • Irrepreensível: anepilēmpton. Inatacável, inexpugnável, que não pode ser repreendido, não censurável;

  • Monógamo: isso também pode ser interpretado como “inimigo do mundo” (cf. Tiago 4.4-6);

  • Moderado: nēphalion. Sóbrio, controlado, estar calmo e sereno de espírito; controlado, circunspecto;

  • Sensato: sōphrona. De mente sã, equilibrado, que freia os próprios desejos e impulsos, autocontrolado, moderado;

  • Respeitável: kósmion. Educado, polido, cortês, honrável, bem organizado, conveniente, modesto;

  • Hospitaleiro: philóxenon. Literalmente, apreciador (que faz mimos ou é fã) de visitas; generoso para as visitas;

  • Apto para ensinar: didaktikon. A raíz dessa palavra trás implicações de que aquele que ensina é, antes de tudo, alguém ensinável, que tem paixão por aprender. Só posso ensinar o que primeiro aprendi;

  • Não apegado ao vinho: paroinon. Não ser dependente de bebidas; não ter tendências violentas;

  • Não violento: plékten. Não ser brigão, pronto para um golpe, belicoso, contencioso, pessoa briguenta;

  • Amável: epieikē. Apropriado, conveniente, eqüitativo (que julga com justiça), íntegro, suave, gentil;

  • Pacífico: ámachon. Que se abstêm de lutar;

  • Desapegado ao dinheiro: aphilarguron. Não mesquinho, liberal (quanto ao dinheiro), generoso, que não ama o dinheiro, não avarento;

  • Bom governador de sua família: tou idiou oikou kalos proistamenon. Que governa (é um protetor ou guardião, dando ajuda) admiravelmente (belamente, finamente, excelentemente, corretamente, de forma a não deixar espaço para reclamação) sua própria casa;

  • Sabe educar os filhos no respeito, com toda a dignidade: tekna echonta en hupotage meta pases semnotetos. Que está estreitamente unido aos filhos (desde pequenos) pelos laços da criação, educando-os em toda obediência (com muita disciplina), levando cada um deles a tornarem-se pessoas reverentes, respeitosas, dignas, santas, honradas e puras;

  • Não recém-convertido: neophuton. Literalmente, não “recém-plantado”. Neófito = recém convertido.

  • Com boa reputação perante os de fora da Igreja. Não precisa de tradução, mas o importante é a parte final, literalmente, “para não cair na repreensão e nas armadilhas do acusador (diabo)”.

Isso para não citarmos as qualificações necessárias aos Diáconos e Presbíteros, o que com absoluta certeza esvaziaria aqueles pequenos altares em forma de cadeira atrás dos púlpitos de algumas denominações evangélicas.

Se seus líderes não preenchem cada um desses 15 requisitos (absolutamente todos eles), então ele não pode liderar ninguém dentro da Igreja Cristã. Se o faz é contra a Escritura, contra as ordens do Espírito Santo, dadas através do Apóstolo Paulo.

A triste realidade é que, caso nossos líderes não preencham todos os requisitos exigidos por Paulo, somados àqueles enunciados por Moisés, nós estamos assistindo a volta dos Escribas e Fariseus. Não há espaço nesses textos para pensamentos como “mas ele é humano, sujeito a falhas”, ou ainda “temos de amar acima de tudo”. Líderes são humanos, e devem ser amados, mas se querem realmente exercer qualquer função de influência dentro do Reino de Deus, obrigatoriamente devem respeitar os requisitos bíblicos para tal.

A Relação Entre Ouvir, Falar e Fazer

Demos muitas voltas em nossos estudos, mas o leitor atento percebeu que ainda não tocamos no âmago da questão: por que afinal os Escribas e Fariseus foram tão severamente condenados por Jesus? Passamos primeiro pelos líderes porque o exemplo deve vir deles, mas se nosso problema fosse a liderança estaríamos salvos! Tiremos portanto a trave de nossos olhos.

Ainda ha pouco estávamos em Deuteronômio, e seria sábio se voltássemos àquele livro para entendermos algumas chaves no relacionamento de Deus com Israel.

1 E agora, ó Israel, ouça os decretos e as leis que lhes estou ensinando a cumprir, para que vivam e tomem posse da terra, que o Senhor, o Deus dos seus antepassados, dá a vocês. 2 Nada acrescentem às palavras que eu lhes ordeno e delas nada retirem, mas obedeçam aos mandamentos do Senhor, o seu Deus, que eu lhes ordeno.

5 Eu lhes ensinei decretos e leis, como me ordenou o Senhor, o meu Deus, para que sejam cumpridos na terra na qual vocês estão entrando para dela tomar posse. 6 Vocês devem obedecer-lhes e cumpri-los, pois assim os outros povos verão a sabedoria e o discernimento de vocês. Quando eles ouvirem todos estes decretos dirão: ‘De fato esta grande nação é um povo sábio e inteligente’.

7 Pois, que grande nação tem um Deus tão próximo como o Senhor, o nosso Deus, sempre que o invocamos? 8 Ou, que grande nação tem decretos e preceitos tão justos como esta lei que estou apresentando a vocês hoje?

9 Apenas tenham cuidado! Tenham muito cuidado para que vocês nunca se esqueçam das coisas que os seus olhos viram; conservem-nas por toda a sua vida na memória. Contem-nas a seus filhos e a seus netos. – Deuteronômio 4, (NVI).

Tudo começa pelo ouvir, como ensina Paulo em Romanos 10.17. Mas “ouvir” é a única coisa que o ensino de Moisés tem em comum com a maneira de pregar o Evangelho em nossos dias. Isso me faz lembrar um dos trechos mais conhecidos (e repetidos) da última fala de Jesus a seus discípulos:

16 Os onze discípulos partiram para a Galileia e foram para o monte que Jesus lhes tinha indicado. 17 Quando o viram, adoraram-no, mas alguns ainda duvidavam. 18 Então Jesus aproximou-se deles e declarou: “Foi-me dado todo o poder no Céu e na Terra. 19 Portanto, vão e façam com que todos os povos se tornem meus discípulos[BJ: Ide, portanto, e fazei com que todas as nações se tornem discípulos|NVI: Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações]. Baptizem-nos em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, 20 ensinando-os a obedecer a tudo quanto eu tenho mandado. E saibam que estarei sempre convosco até ao fim dos tempos”.

Nossa mente ocidental tende a ser exageradamente pragmática. Somos ligados a toda sorte de rituais de passagem ou confirmação, dependentes de símbolos que nos digam algo sobre as crenças que sustentamos. Assim, quando a Igreja gentílica, presa à cosmovisão greco-romana, leu “Batizem-nos em nome do Pai do Filho e do Espírito Santo”, automaticamente passou a criar rituais complicados para efetuar tal batismo. É assim que temos registros, já no segundo século, de ritos em que o candidato ao batismo tinha de ser completamente besuntado como óleo, sal era adicionado as águas de um rio, e extensas fórmulas imprecatórias de renúncia ao demônio, a pompa diabolli, como dizia Tertuliano.

Mas preste bastante atenção ao texto e procure interpretá-lo como uma criança da quarta série primária. A primeira parte do verso 19 pede para que das nações sejam feitos discípulos, a segunda parte começa a dizer como seriam feitos tais discípulos. Eles seriam batizados, em nome do Pai, do Filho e do Espírito. Acontece que quando Mateus escreveu seu evangelho ele não havia colocado pequenos números indicando onde acabava um versículo e começava o próximo. Originalmente, após o “Batizando-os…” havia uma virgula. Bem aventurada vírgula! E qualquer estudante primário pode constatar, tirando os versículos, o seguinte texto: “Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a obedecer a tudo o que eu lhes ordenei. E eu estarei sempre com vocês, até o fim dos tempos” (NVI). Fazer discípulos é a ordem dada pelo Senhor. Batizar ensinando-os a obedecer é o modo como tais discípulos deveriam ser feitos.

O discipulado corrompeu-se de tal modo que ficou reduzido ao decoreba de fórmulas ditadas por modelos de crescimento da Igreja. Lembro-me que, quando recém convertido, submeti-me ao “discipulado” com o pastor que me batizou, passei horas respondendo a um questionário que, entre outras coisas, perguntava se eu já havia praticado sexo com animais e quantas revistas pornográficas tinha lido. Que espécie de pessoa conta quantas revistas pornográficas leu na vida? Fico imaginando que modelo eles usam para as questões desse formulário, e orando para nunca encontrar-me com ele.

O problema é que o discurso assumiu o lugar da prática. Somos doutrinados a convencer pessoas do Evangelho, e isso acaba sendo mais importante que mostrar-lhes o Evangelho como nossas vidas. A base da didática de Moisés não era ensinar intelectualmente sobre a Torá, não era filosofar sobre o arrebatamento ser antes ou depois do milênio, era ensinar a cumprir o que foi ouvido.

Vocês devem obedecer-lhes e cumpri-los, pois assim os outros povos verão a sabedoria e o discernimento de vocês. Quando eles ouvirem todos estes decretos dirão: ‘De fato esta grande nação é um povo sábio e inteligente.

Sejamos sinceros, qual a fama que o evangélico tem nos dias de hoje? Somos estereotipados como ignorantes, fanáticos, burros até. Quantos cristãos você conhece que leêm mais de 20 livros por ano? Quantos de fato sabem ler, sem ficar gaguejando? Quantos sabem o que é “pragmatismo”? Pode parecer uma questão estúpida, mas acreditem-me leitores, nessas minhas caminhadas pelo submundo pentecostal, tenho encontrado coeficientes de intelecto que fazem “idiota” ser mais uma descrição clínica que ofensa. O “povo sábio e inteligente” não conhece a própria Bíblia que carrega embaixo do braço. Quantos “irmãos” seus já leram a Bíblia ao menos uma vez? Quantos sabem o que significa o Credo Niceno-Constantinopolitano? Quantos conhecem sobre Patrística e Apologética? Pois se não podem responder afirmativamente sobre as últimas três questões, eles não tem o direito de serem chamados “cristãos”, ao menos no sentido histórico do termo.

Por que não somos considerados “povo sábio e inteligente”? Porque ninguém nos ensina a cumprir as Leis.

Não há nada mais antibíblico nos dias de hoje que o evangelismo. Dizem que temos de chegar para um otário qualquer na rua, esfregar na cara dele um panfleto mal escrito, e convencê-lo de que Jesus morreu por ele e que ele vai para o inferno se não acreditar em mim. Pode até haver variantes, mas a síntese é essa. Depois, ele vai para uma “Igreja”, repetem essa ladainha, jogam ele na água, fazem-no passar por um curso ministrado por analfabetos, e o doutrinam a esquentar um banco todos os domingos, dando dízimo e oferta e cantando junto com os pseudo-músicos, desafinados e metidos a calouros do Raul Gil, autodenominados “Ministros de Louvor”. Não posso imaginar uma vida mais medíocre que essa! Se isso é uma prévia do céu não me admiro que a fila para o inferno seja bem mais freqüentada! É por isso que as pessoas estão acostumadas a assistir aos cultos, balançar a cabeça para qualquer obtuso que vocifera suas meias verdades, e voltar para suas casas, felizes por não fazer parte da massa destinada ao inferno, ao menos por mais uma semana.

Fazer discípulos é ensinar-lhes a praticar o que aprenderam, quotidianamente. Essa é a Cátedra de Moisés, e basta de vê-la ocupada pelas pessoas erradas. Israel foi destruído por não praticar o que Moisés ensinou. A Igreja está cada vez mais desacreditada exatamente pelo mesmo motivo. Porque pessoas acham que podem apenas “saber sobre” Jesus, sem que contudo tenham de se compromissar com sua pregação, ainda que isso lhes custe a própria vida.

Voltando a Deuteronômio, preste atenção no versículo 9. Passar para frente o que aprenderam era algo concebível apenas quando “essas coisas” fossem conservadas por toda vida na memória. “Essas coisas” abrangiam tudo o que Moisés os tinha ensinado a cumprir, o que obviamente haviam aprendido, e tudo que o Senhor havia feito no sentido de corroborar a Lei transmitida pelo grande Patriarca. Acontece que hoje qualquer neófito é incentivado a ensinar o que acha que aprendeu, isso porque ele só é ensinado a aprender. O ensino bíblico não é apenas conceitual, e nunca estritamente filosofal, ele é prático e visa a aplicação diária daquilo que a Palavra versa. Distanciar-se dessa padrão é perigoso, e pode custar-nos a salvação…

Seremos Julgados Pelas Obras

Uma horda de irresponsáveis com Bíblias (e guitarras) nas mãos tem pregado sobre “o fim da justiça própria”. Eles acusam de fariseu e puritano quem quer que fale sobre a necessidade de demonstrar a fé em obras e numa vida piedosa e claramente separada do mundo. Dizem que as obras não nos justificam perante Deus, no que tem toda a razão. Recebemos o dom da salvação pela graça de Deus, por intermédio de nosso Senhor Jesus Cristo. Mas, será que é só isso? Só a graça?

A obra do justo conduz à vida, o fruto do perverso, ao pecado. – Provérbios 10.16, (ACF).

Este é o julgamento: a luz veio ao mundo mas os homens preferiram as trevas à luz, porque suas obras eram más. – João 3.19, (BJ).

Como crente em Jesus Cristo, tenho pois muita honra neste serviço a Deus. Pois eu não me atrevo a falar senão naquilo que Cristo fez por meio de mim para levar os não-judeus a aceitarem Deus. Isso realizou-se por palavras e obras, por sinais milagrosos e prodígios, com o poder do Espírito de Deus. É assim que tenho dado plenamente a conhecer a boa nova de Cristo, desde Jerusalém e por toda a parte até à região da Ilíria. – Romanos 15.17-19, (TLM).

E se chamais Pai aquele que com imparcialidade julga a cada um de acordo com suas obras, comportai-vos como temor durante todo o tempo do vosso exílio. – 1ª Pedro 1.17, (BJ).

Vi um grande trono branco, e o que estava assentado sobre ele, de cuja presença fugiu a terra e o céu; e não se achou lugar para eles. E vi os mortos, grandes e pequenos, que estavam diante de Deus, e abriram-se os livros; e abriu-se outro livro, que é o da vida. E os mortos foram julgados pelas coisas que estavam escritas nos livros, segundo as suas obras. E deu o mar os mortos que nele havia; e a morte e o inferno deram os mortos que neles havia; e foram julgados cada um segundo as suas obras. E a morte e o inferno foram lançados no lago de fogo. Esta é a segunda morte. E aquele que não foi achado escrito no livro da vida foi lançado no lago de fogo. – Apocalipse 20.11-15, (NVI).

São cinco passagens, escritas por quatro autores em cinco períodos diferentes, que contudo falam a mesma coisa, repetindo o que Moisés deixou inequivocamente claro na Lei: seremos julgados de acordo com as nossas obras.

Merece destaque em nossa análise os versículos de Romanos 15. Note que Paulo “não se atreveu” a falar nada além daquilo que Cristo fez por meio dele, e isso por palavras e obras. E não pensem que o autor ali falava de “sinais e maravilhas”, porque isso até o Diabo faz, a prova que lhes ofereço é a continuação do texto, que, após as obras, fala de “sinais milagrosos e prodígios”, além do “poder do Espírito”. Quantos pregadores hoje podem dizer que não falam nada além das obras que realizam? Quantos podem mostrar uma lista de boas obras antes de pregarem?

Pedro é mais enfático, e diz que o “Pai” nos julga de acordo com nossas obras! Sempre desconfiei daqueles crentes que ficam falando de “Pai” para cima e para baixo, tudo é o “Pai”. Me lembra o Inri Cristo (os curitibanos sabem de quem estou falando…), daqui uns dias vão começar a dizer: “Meu inefável Paaaaiiii…”. Tratam Deus como se fosse um idiota babão que só sabe dar colo. Eu menti! Mas o “Pai é um babaca bonzinho que me dá colo e me mima”! Então eu estou perdoado, porque tenho todo o amor de “Paaaaiiii…”! Vírgula! Deus não perdoa o pecador a menos que ele se arrependa e deixe o pecado (na verdade deixar o pecado é o arrependimento em si). Temos que parar de esconder atrás da paternidade de Deus nossas falhas e imperfeições, nosso mau caráter e a pilantragem brasileira que tenta tirar vantagem em tudo, até no amor de Deus.

Apocalipse, um livro que não deixa espaço para lamentos posteriores (já que encerra a Bíblia e trata do Fim dos Tempos), afirma categoricamente aquilo que Pedro já havia dito, com agravantes. Não seremos julgados por termos ou não nossos nomes no Livro da Vida, mas de acordo com nossas obras.

Então não adianta sofrer de transtorno bipolar e refugiar-se atrás das barbas do “Inefável Paaaiii”, não adianta vir com essa conversa mole e herética de que é chegado o tempo da graça e não podemos buscar “justiça própria”, ninguém aqui está falando nisso. O fato é que seu cristianismo tem que ser demonstrado em obras, não há outra maneira de ser cristão que não essa. Mas o que são essas “obras”?

Enfatizo que, para alcançarmos a graça de Deus, o perdão e a justificação por nossos pecados, só dependemos de nossa fé em Cristo Jesus. Mas não seremos julgados pela fé com que falamos de Deus, nem pela justificação que recebemos de seu Filho, mas pelas obras que cometemos (ou deixamos de cometer). Segundo o DITNT:

CL 1.(b). ergon denota, a partir do grego miceneano, um “ato”, “ação”, por contraste com a inatividade ou com uma mera palavra. Pode referir-se a uma ocupação específica ou atividade oficial [...], e significa, em certos casos, “realização”, “trabalho”.

AT 2.(a). [... Na] vida de todos os dias é julgada positivamente a obra que se demonstra ser o cumprimento obediente da vontade divina, da lei [...]. Este julgamento é aplicado tanto à esfera comum do trabalho da pessoa [...] quanto a atos específicos de obediência. – DITNT, artigo “TRABALHAR”, verbete “ergazomai”, pgs. 2536 e 2538, respectivamente.

Segundo o Theological Dictionary of New Testament (TDNT), o conjunto de palavras do verbo ergazomai, desde Homero, denota ação ou atividade entusiasmada (zelosa). E meus dicionários não contam como obras o fato de você tocar no louvor domingo à noite. Meus dicionários também não falam nada sobre ser pastor ou diácono, ou ainda sobre “pregar a palavra”. Muito pouca coisa que fazemos nas igrejas hoje em dia entra na categoria de “obras”, valha-me o bom e velho Tiago:

Sejam praticantes da palavra, e não apenas ouvintes, enganando-se a si mesmos. Aquele que ouve a palavra, mas não a põe em prática, é semelhante a um homem que olha a sua face num espelho e, depois de olhar para si mesmo, sai e logo esquece a sua aparência. Mas o homem que observa atentamente a lei perfeita, que traz a liberdade, e persevera na prática dessa lei, não esquecendo o que ouviu mas praticando-o, será feliz naquilo que fizer.

Se alguém se considera religioso, mas não refreia a sua língua, engana-se a si mesmo. Sua religião não tem valor algum! A religião que Deus, o nosso Pai, aceita como pura e imaculada é esta: cuidar dos órfãos e das viúvas em suas dificuldades e não se deixar corromper pelo mundo. – Tiago 1.22-27, (NVI).

A palavra grega para “religião” aqui, meus bons leitores, é thrēskeia, cuja controversa etimologia aponta para “tremor”, mas que em boa parte da literatura grega significa (segundo o TDNT) “zelo religioso, adoração a Deus”. Isso mesmo! Vamos retraduzir Tiago 1.27: “A adoração que Deus, o nosso Pai, aceita como pura e imaculada é esta: cuidar dos órfãos e viúvas em suas dificuldades e não se deixar corromper pelo mundo”. Nunca mais diga que vai “adorar a Deus” com sua cantoria desafinada, ou que veio adorar ao Senhor, cheio de preguiça diga-se, no culto de domingo à noite. Adoração é o que Tiago fala, e acho difícil me provarem na Bíblia o contrário, a não ser que considerem-se mais sábios que o principal líder da Igreja Cristã no primeiro século, o Bispo de Jerusalém, Tiago, o Irmão do Senhor, e Mártir. Aliás, ele continua a falar, com propriedade aos nossos irmãos, filhos do “inefável Paaaiii”, que julgam-se supra-justificados pela graça:

De que adianta, meus irmãos, alguém dizer que tem fé, se não tem obras? Acaso a fé pode salvá-lo? Se um irmão ou irmã estiver necessitando de roupas e do alimento de cada dia e um de vocês lhe disser: “Vá em paz, aqueça-se e alimente-se até satisfazer-se”, sem porém lhe dar nada, de que adianta isso? Assim também a fé, por si só, se não for acompanhada de obras, está morta.

Mas alguém dirá: “Você tem fé; eu tenho obras”. Mostre-me a sua fé sem obras, e eu lhe mostrarei a minha fé pelas obras. Você crê que existe um só Deus? Muito bem! Até mesmo os demônios crêem – e tremem!

Insensato! Quer certificar-se de que a fé sem obras é inútil? Não foi Abraão, nosso antepassado, justificado por obras, quando ofereceu seu filho Isaque sobre o altar? Você pode ver que tanto a fé como as obras estavam atuando juntas, e a fé foi aperfeiçoada pelas obras. Cumpriu-se assim a Escritura que diz: “Abraão creu em Deus, e isso lhe foi creditado como justiça”e, e ele foi chamado amigo de Deus. Vejam que uma pessoa é justificada por obras, e não apenas pela fé. – Tiago 2.14-24, (NVI).

Insensato! Embora esse tenha sido um acréscimo textual da NVI, encaixa-se bem no que estamos tentando dizer.

A pergunta que lhe faço, dileto leitor, é: o que você fez exclusivamente para Deus, de modo entusiasmado, e que visava ajudar a um irmão seu no último mês? E não valem falas ao microfone, todos nós sabemos bem que o maior beneficiário com a grande maioria das pregações é somente o ego do palestrante. Vou te ajudar. Quantas vezes você limpou o chão de sua igreja? Quantos doentes visitou? Aliás, quantas pessoas visitou? Quanto tempo gastou ouvindo os problemas ou encorajando um irmão que não lhe daria louros por isso?

A grande maioria das pessoas sequer gastou tempo lendo a Bíblia, e são dissimuladas ao ponto de dizerem que vão para o céu. Se lessem o livro que ostentam como garantia de sua salvação veriam que o Juízo Final será algo bem mais complicado do que pensa a ignorância coletiva evangélica.

Anunciar o Evangelho ou Apenas “Pregar”?

Não há honra maior que eu possa antever além daquela que Cristo destinou a nós, simples mortais, de anunciar sua paixão, morte e ressurreição. Nosso Deus poderia usar anjos, poderia fazer montes tremerem novamente, mas escolheu a eterna linguagem do amor.

Contudo, seguindo a sanha humana de mercadejar tudo que de mais puro lhe pertence, os homens transformaram a digníssima pregação do Evangelho em profissão. Muitos cobram, e outros aceitam dinheiro por isso, pecado que confesso e do qual me arrependo amargamente.

Como disse no início, existe uma significativa diferença entre “pregar” e “pregar”, isso para utilizar as toscas versões portuguesas. Diferença técnica, em se tratando da língua grega, mas que se faz necessária em nossos dias. O apóstolo Paulo falou algo significativo aos Coríntios:

Vós sois a nossa carta, escrita em nossos corações, conhecida e lida por todos os homens. Porque já é manifesto que vós sois a carta de Cristo, ministrada por nós, e escrita, não com tinta, mas com o Espírito do Deus vivo, não em tábuas de pedra, mas nas tábuas de carne do coração. E é por Cristo que temos tal confiança em Deus; Não que sejamos capazes, por nós, de pensar alguma coisa, como de nós mesmos; mas a nossa capacidade vem de Deus, o qual nos fez também capazes de ser ministros de um novo testamento, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata e o espírito vivifica. – 2ª Coríntios 3.2-6, (ACF).

Gerações de crentes fiéis tem sido enganadas com uma diabólica interpretação dessa passagem, e mergulhado numa piedade desprovida de conhecimento. Mas Paulo só disse que “a letra mata” após mostrar onde é que as palavras de Deus deveriam ser escritas. Caro leitor, simplesmente “falar” do Evangelho nunca levou a nada, do contrário a Europa seria o continente mais cristãos do mundo, dada a profusão de missas celebradas naquele território desde o século III da nossa era.

Pregar não basta, falar não basta. Devemos abrir os nossos corações e evangelizar como cartas vivas que somos. Mostrar que nosso Salvador escreveu dentro de nós, em nosso sangue com o sangue dele, as palavras vivas que nos trazem a esperança da vida eterna. Euangelizomai predomina no livro de Atos e nas epístolas, quando a pregação era feita de boca à boca, de coração à coração. Kērýssō, por sua vez, é encontrado sobretudo nos evangelhos, quando nosso Messias falava para o Israel inconverso e os discípulos contentavam-se em expulsar demônios.

Que tipo de evangelho nós desejamos anunciar hoje? Palavras duras para uma geração condenada (cf. Mateus 23.37; Lucas 13.34)? Ou palavras de salvação para uma raça de eleitos (cf. 1ª Pedro 2.9)? De que lado estamos?

8 «Quanto a vós, não vos façais chamar “Rabi”: sim, vosso rabi é único e vós sois todos irmãos. 9 Não chameis a ninguém na terra de “Pai”: sim, vosso pai dos céus é único. 10 Não vos façais chamar “Chefe”: sim, vós tendes um único chefe, o messias. 11 O maior dentre vós será vosso servo. 12 Quem se eleva será humilhado; quem se humilha será elevado.» – Matyah 23.

Quantas “Escolas” nós conhecemos até hoje? Quantas placas, quantos títulos, quantos slogans. Não precisamos de nomes, nem de placas, nem de alianças profanas que vituperam a pureza do evangelho pelo dinheiro pago por um curso ou pelo status de “faculdade”.

Já falamos aqui de liderança, mas deixamos o aspecto mais importante da liderança cristã para o final: ser como aquele que serve.

24 Surgiu também uma discussão entre eles, acerca de qual deles era considerado o maior. 25 Jesus lhes disse: “Os reis das nações dominam sobre elas; e os que exercem autoridade sobre elas são chamados benfeitores. 26 Mas, vocês não serão assim. Ao contrário, o maior entre vocês deverá ser como o mais jovem, e aquele que governa, como o que serve. 27 Pois quem é maior: o que está à mesa, ou o que serve? Não é o que está à mesa? Mas eu estou entre vocês como quem serve. 28 Vocês são os que têm permanecido ao meu lado durante as minhas provações. 29 E eu lhes designo um Reino, assim como meu Pai o designou a mim, 30 para que vocês possam comer e beber à minha mesa no meu Reino e sentar-se em tronos, julgando as doze tribos de Israel. – Lucas 22, (NVI).

Perceba a diferença fundamental entre os dois exemplos dados por nosso Senhor. No versículo 25, os reis das nações dominam “sobre elas”, kyrieuousin, “ser senhor de, governar, ter domínio sobre; exercer influência sobre, ter poder sobre”; enquanto no versículo 27b, Jesus está “entre” os discípulos, en meso humon, “no meio de vocês”.

Preste muita atenção caro leitor, sobretudo nas “pregações” que ouvir sobre “Reino”, sobre “Igreja”, e atente se seus pregadores estão falando de cima, como quem sabe do assunto, ou estão entre vocês, ajudando a tornar realidade aquilo que foi pregado. Caso não estejam fazendo isso, retenham o que é bom e bíblico daquilo que eles ensinam, mas jamais os imitem.

Apostatamos sempre que pensamos ser nosso dever apenas pregar a Bíblia, sem que isso nos custe o compromisso de uma vida sacrificada. Apostatamos se posamos como cristãos mas não demonstramos nossa fé em obras. Apostatamos quando tentamos enganar a Deus com nossas falsas canções de amor, que apenas dizem enquanto nada fazemos para provar nossas lágrimas.

Quer um conselho? Informe-se quando será a próxima limpeza de sua igreja, ou procure um bom trabalho social. Ligue para seu irmão afastado, ore por um enfermo, fuja do inferno e da mediocridade dos hipócritas.

Por Emerson Silva.

Curitiba, 10 de setembro de 2008.

Falai, Senhor, que o vosso servo escuta: Vosso servo sou eu, daí-me inteligência para que conheça os vossos ensinamentos. Inclinai meu coração às palavras de vossa boca; nele penetre, qual orvalho, vosso discurso (1Rs 3,10; Sl 118.36.125; Dt 32,2). Diziam, outrora, os filhos de Israel a Moisés: Fala-nos tu e te ouviremos; não nos fale o Senhor, para que não morramos (Êx 20,19). Não assim, Senhor, não assim, vos rogo eu; antes, como o profeta Samuel, humilde e ansioso, vos suplico: Falai, Senhor, que o vosso servo escuta. Não fale Moisés, nem algum dos profetas, mas falai-me de vós, Senhor, Deus, que inspirastes e iluminastes todos os profetas, porque vós podeis, sem eles, me ensinar perfeitamente, ao passo que eles, sem vós, de nada me serviriam.

Podem muito bem proferir palavras, mas não conseguem dar o espírito; falam com muita elegância, mas, se vós vos calais, não inflamam o coração. Ensinam a letra; vós, porém, explicais o sentido. Propõem os mistérios, mas vós descobris a significação das figuras. Proclamam os mandamentos, mas vós ajudais a cumpri-los. Mostram o caminho, mas vós dais força para segui-lo. Eles regam a superfície, mas vós dais a fecundidade. Eles clamam com palavras, mas vós dais a inteligência ao ouvido.

Não me fale, pois, Moisés, mas vós, Senhor meu Deus, Verdade eterna, para que não morra sem ter alcançado fruto algum, se só for admoestado por fora e não abrasado interiormente; e não seja minha condenação a palavra ouvida e não praticada, conhecida e não amada, criada e não observada. – Falai, pois, Senhor, que o vosso servo escuta; porque possuís palavras de vida eterna (1 Rs 3,10; Jo 6,69). Falai-me para consolação de minha alma e emenda de minha vida, também para louvor, glória e perpétua honra vossa. – Kempis, Tomas de. A Imitação de Cristo, livro III, capítulo II.

Orgulho, o Princípio da Queda

(Pastoral, nº 04 – 03 de Setembro de 2008)

A soberba precede a ruína, e a altivez

do espírito, a queda.” ― Provérbios 16.18 (ARA)

É com imensa alegria que passados dois meses da última edição da coluna pastoral seja o tempo de voltar. Foram momentos de muitas mudanças em nossas vidas. O último ano foi maravilhoso, onde eu e o Emerson crescemos como nunca poderíamos ter crescido, tornando-nos, a cada dia, mais homens como Deus deseja. Ele tem permitido que passemos por diversas lições, e tudo tem cooperado para nosso crescimento, não importam as circunstâncias. Hoje entendemos o que Paulo disse em Filipenses 4.11b-13: “…pois aprendi a adaptar-me a toda e qualquer circunstância. Sei o que é passar necessidade e sei o que é ter fartura. Aprendi o segredo de viver contente em toda e qualquer situação, seja bem alimentado, seja com fome, tendo muito, ou passando necessidade. Tudo posso naquele que me fortalece.” (NVI). Foi um ano muito intenso este em que vivemos apenas para nosso Senhor, onde cada detalhe passou a ser belo, onde uma gota de chuva iluminada pelos raios de Sol passou a ter uma beleza indescritível, ou ainda uma singela caminhada rumo a alguma visita tomava proporções de uma jornada. Nosso Pai nos presenteou com lindos dias, mesmo aqueles mais sombrios e pesados.

Desde Junho último, quando completamos um ano somente na “obra” (não gosto desse termo, mas como é muito utilizado e de fácil assimilação…), Deus direcionou outros rumos. Estamos novamente no mercado de trabalho. A dedicação integral de nosso tempo pode ter acabado, mas não a dedicação integral de nossas vidas. E é por isso que no aniversário de um ano do Aheb estamos voltando às colunas e, em breve, teremos mais novidades. Por enquanto, a principal lição que temos tentado aprender é a de sermos disciplinados, a ponto de dedicarmos metade do nosso dia ao trabalho e aproveitarmos o tempo restante para tudo o que deve ser feito. Não tem sido fácil essa fase de adaptação, mas com a graça de Deus iremos conseguir. Até aqui nos ajudou o Senhor!

Vimos muitas coisas nos últimos tempos, por exemplo, pastores se reunindo para discutir um meio de “evangelizar” e ainda ganhar uma grana. Como? Gravando cd’s com pregações afim de se tornarem ídolos (com esses exatos termos, infelizmente…). Em outra ocasião, vimos um “pastor” curandeiro que aconselhava aos jovens experimentar maconha pra saber que não é bom. Enfim, tantas coisas que devem entristecer muito mais o coração do Pai do que a tristeza que sentimos. Num primeiro momento, a reação pode ser de olhamos pra isso e alegrarmo-nos de não sermos como eles. Isso não é um problema em si, desde que não nos consideremos superiores aos outros, desde que nossa intenção seja de misericórdia e desejo de mudar e não a de criticar apenas. É aí que a situação fica complicada.

No último pastoral, “Olhando para as Virtudes”, abordamos um importante aspecto do caráter necessário a todos os servos de Cristo, que é a humildade. O antônimo de humildade é orgulho, atitude esta completamente abominada por Deus, vide o versículo-chave desse mês. Esta foi uma das primeiras lições que Deus me ensinou, lição esta que foi-nos reforçada há cerca de dois anos, inclusive permitindo que um acidente de carro acontecesse. Era uma tarde chuvosa de segunda-feira. Estávamos indo visitar um grupo caseiro. O trânsito estava lento, e eu com carteira provisória há menos de 1 mês. Algumas quadras antes eu estava me achando o bom motorista, com total domínio do carro, até que… Sim, bati numa Parati. Está certo, foi uma batida leve, uns R$300,00 de prejuízo pra consertar os dois carros, mas a lição que Deus nos ensinaria não tem preço. Na hora da batida fiquei muito calmo, e de súbito o Espírito ministrou que eu estava me orgulhando. O Emerson estava ao meu lado, no banco do passageiro. Como ele ficou no carro enquanto eu saía pra conversar com o outro motorista, percebeu a bandeira do Líbano na Parati. Após entrar no carro, ouvir algumas buzinas, inclusive do Ligeirinho que estava atrás de mim, fomos conversando e louvando a Deus, porque nada acontece por acaso. De noite, o Emerson me liga e diz que Líbano significa orgulho, o que confirmava o ensinamento. A cobrança não era relativa apenas à soberba no trânsito, não, mas muito mais relacionada ao ministério. Essa visita era uma das quatro ou cinco que estávamos fazendo toda semana, direção dada por Deus para tentar trazer alguma união para os dispersos grupos. Em algum momento, isso começou a ser um orgulho e, antes que crescesse, Deus, com seu imenso amor, nos deu uma pequena palmada e nos corrigiu. Aleluia! Ele corrige aos seus amados filhos! (vide Hebreus 12.6).

Desde então temos vigiado um ao outro nessa área, e sempre que deseja crescer cortamos pela raíz. Situações, principalmente no último ano, não faltaram para adubar essa iniqüidade, mas tentamos deixar o solo o mais estéril possível para não frutificar. Mas, infelizmente, somos obrigado a admitir que em nosso meio, o dos evangélicos, há ainda muito orgulho, principalmente em se tratando de “placas denominacionais”, mesmo que não haja uma placa, como é o nosso caso. Quantas vezes não ouvimos dois irmãos de diferentes congregações dando argumentos do por que a “sua” igreja era melhor do que a do outro? Ou quantas pessoas não defendem (se duvidar com suas próprias vidas) que o G12 é o “modelo de Deus para a Igreja”, e que quem não as implementa está errado? Ou ainda sobre as leis humanas, como não poder ter televisão em casa. Aqueles que criticam e falam com astúcia daqueles que não têm por motivos religiosos. Já aqueles que não possuem criticam e se consideram mais santos por manter longe de seu lar tal “objeto do Inferno”. Mas o pior caso talvez seja o nosso, de alguns se acharem melhor pelo fato de nos reunirmos apenas nas casas. Tudo bem, é algo bem mais espontâneo do que um culto congregacional, mas se não vivermos o que pregamos, como doação, serviço e principalmente amor, tudo isso é em vão, é lixo.

Nessa coluna gostaria de abordar mais profundamente o tema do orgulho. Não escreverei muito, mas sim deixarei que as dezenas de versículos nos ensinem. Apenas farei um comentário aqui e acolá. Mas, antes, colocarei as palavras nos originais mais utilizadas para descrever tal atitude.

No Antigo Testamento (ou Tanakh), são usadas diversas raízes (e suas derivadas):

  • ga’own: substantivo, 45 ocorrências. Num sentido bom, foi utilizada para dizer “excelência” (de Deus, em Êxodo 15.7; Jó 40.10), “majestade” de Deus (Jó 37.4; Isaías 2.10, 19, 21; Miquéias 5.4), “orgulho” da terra de Israel (Isaías 4.2), “glória” (Isaías 24.14, de Deus; Isaías 60.15, eterna; Amós 8.7 e Naum 2.2, de Jacó), ou em outro sentido, como “floresta” (Jeremias 12.5, 49.19, 50.44). Mas, na maioria das ocorrências, ocorre negativamente, “no sentido de conotar ‘orgulho’ humano como antônimo de humildade (Provérbios 16.18)”(Vine), sendo traduzida para “orgulho” ou “soberba” em Levíticos 26.19; Jó 35.12, 38.11; Salmos 59.12; Provérbios 8.13; 16.18; Isaías 13.11, 19; 14.11; 16.6 (2 vezes); 23.9; 24.14; 60.15; Jer 13.9 (2 vezes); 48.29 (2 vezes); Ezequiel 7.20, 24; 16.49, 56; 24.21; 30.6, 18; 32.12; 33.28; Oséias 5.5; 7.10; Amós 6.8; Sofonias 2.10; Zacarias 9.6; 10.11; 11.3. Por sua vez, é proveniente da raíz ga’ah, “levantar, crescer, ser exaltado em triunfo; ser erguido, ser elevado, ser exaltado”.

  • zed: substantivo, 13 ocorrências. Salmos 19.13; 86.14; 119.21, 51, 69, 78, 85, 122; Provérbios 21.24; Isaías 13.11; Jeremias 43.2; Malaquias 3.15; 4.1. Significa “orgulho, insolência, presunção, arrogância, excesso de confiança”. Vem da raíz zuwd, que significa “cozinhar, ferver, agir com arrogância, agir presunçosamente, agir com rebeldia, ser presunçoso, ser arrogante, ser orgulhoso com rebeldia”.

  • zadown: 11 ocorrências (Deuteronômio 17:12, 18:22; 1 Samuel 17:28; Provérbios 11:2, 13:10, 21:24; Jeremias 49:16, 50:31, 50:32; Ezequiel 7:10; Obadias 1:3).

  • gabowahh: ocorre 32 vezes, mas na grande parte dos versículos quer dizer “alto”, sejam os muros, montes, portas ou a estatura de uma pessoa. Em 1º Samuel 2.3 foi traduzida por “orgulho”, enquanto que em Salmos 138.6 e Ezequiel 21.26 traduz-se por “soberbos”. Em Isaías 5.15 trata dos que possuem olhos “altivos”.

  • Ainda outras duas palavras que ocorrem são “shachats, em Jó 41.34, e “rachab(“amplo, largo”), traduzido por “soberba” em Salmos 101.5 e “orgulhoso” em Provérbios 21.4.

Na Septuaginta e Novo Testamento, são utilizadas duas palavras principais:

  • hubris, “insolência, arrogância”.

  • Huperephania, “arrogância, altivez, orgulho, soberba”. Sua raíz é huperephanos, sempre usada, no Novo Testamento, no mau sentido. Quer dizermostrar-se a si mesmo acima dos outros”. Ocorre em Lucas 1.51; Romanos 1.30; 2ª Timóteo 3.2; Tiago 4.6 e 1ª Pedro 5.5. Uma de suas derivadas, “huperephania”, ocorre em Marcos 7.22.

  • Tuphoõ. “Significa corretamente ‘envolto em fumaça’ (derivado de tuphos, ‘fumaça’; metaforicamente, ‘vaidade’, ‘tornar-se arrogante, encher-se de orgulho, tornar-se insolente; estar cheio de arrogância e orgulho; cegar com orgulho ou convencimento’).” (Vine e Strong). “Se tornar estúpido, tolo, absurdo, a partir de um sentido da própria importância do indivíduo”(Friberg).

Os significados foram colocados apenas para mostrar que todas as palavras querem dizer a mesma coisa, ou seja, orgulho, e  abordaremos diferentes versículos que estão falando do mesmo assunto. Abaixo listarei alguns que indicam características daqueles que são soberbos, assim como as conseqüências de seus atos e atitudes de Deus.

Deuteronômio 17.12: “O homem, pois, que se houver soberbamente, não dando ouvidos ao sacerdote, que está ali para servir ao SENHOR, teu Deus, nem ao juiz, esse morrerá; e eliminarás o mal de Israel,…”

Ou seja, aquele que não fosse humilde e ouvisse aquilo que o servo do Senhor ensinava deveria morrer. Imagine se isso acontecesse hoje? As funerárias agradeceriam, os cemitérios estariam lotados!

Deuteronômio 18:22: “Sabe que, quando esse profeta falar em nome do SENHOR, e a palavra dele se não cumprir, nem suceder, como profetizou, esta é palavra que o SENHOR não disse; com soberba, a falou o tal profeta; não tenhas temor dele.”

Alerta para aqueles que possuem dons! Um profeta pode estar falando com soberba mas, antecipando-o, Deus faz com que suas palavras não se cumpram, escancarando sua máscara e desnudando seu caráter.

Neemias 9:10: “Fizeste sinais e milagres contra Faraó e seus servos e contra todo o povo da sua terra, porque soubeste que os trataram com soberba; e, assim, adquiriste renome, como hoje se vê.”

Deus fez sinais por causa da maneira soberana que trataram seu povo. Se Ele tomou tais atitudes com ímpios, quanto mais àqueles que se dizem seus filhos, seguidores de Cristo?

Neemias 9:29: “Testemunhaste contra eles, para que voltassem à tua lei; porém eles se houveram soberbamente e não deram ouvidos aos teus mandamentos, mas pecaram contra os teus juízos, pelo cumprimento dos quais o homem viverá; obstinadamente deram de ombros, endureceram a cerviz e não quiseram ouvir.”

A atitude de soberba deixa as pessoas surdas. Elas ouvem apenas a si mesmas, correndo um perigo muito grande de errar o caminho a qualquer momento.

Salmos 5.5: “Os arrogantes não permanecerão à tua vista; aborreces a todos os que praticam a iniqüidade.”

Aqui fica novamente o alerta que os arrogantes não ficarão no campo de visão de Deus, sendo totalmente esquecidos.

Salmos 10.4: “O perverso, na sua soberba, não investiga; que não há Deus são todas as suas cogitações.”

Justamente por estar cegado considera as suas opiniões as únicas corretas, deixa de inferir sobre Deus e conclui que Ele não existe.

Salmos 19.13: “Também da soberba guarda o teu servo, que ela não me domine; então, serei irrepreensível e ficarei livre de grande transgressão.”

Dominar a soberba e arrogância nos torna irrepreensíveis.

Salmos 31.23: “Amai o SENHOR, vós todos os seus santos. O SENHOR preserva os fiéis, mas retribui com largueza ao soberbo.”

Deus concede bençãos aos santos, mas retribui com abundância aqueles que são soberbos.

Salmos 76:12: “Ele quebranta o orgulho dos príncipes; é tremendo aos reis da terra.”

Sim, até os príncipes pagam alto preço pelo seu orgulho. Tomemos cuidado!

Salmos 119.21: “Increpaste os soberbos, os malditos, que se desviam dos teus mandamentos.”

Increpaste significa “reprovar, repreender”, atitudes tomadas com todos os soberbos. Interessante também o uso de “malditos”, sinônimo da população em geral.

Salmos 119:51: “Os soberbos zombam continuamente de mim; todavia, não me afasto da tua lei.”

Salmos 119:69: “Os soberbos têm forjado mentiras contra mim; não obstante, eu guardo de todo o coração os teus preceitos.”

Salmos 119:78: “Envergonhados sejam os soberbos por me haverem oprimido injustamente; eu, porém, meditarei nos teus preceitos.”

Bom, temos três características do soberbo: é zombador, pois, estando num “nível” superior sempre estão tirando sarro dos que ainda não alcançaram tal nível (se é que algum dia chegarão).

Além disso, os soberbos também são mentirosos e oprimem ao próximo.

Salmos 138.6: “O SENHOR é excelso, contudo, atenta para os humildes; os soberbos, ele os conhece de longe.”

Deus sabe muito bem quem é soberbo ou não.

Provérbios 8:13: “O temor do SENHOR consiste em aborrecer o mal; a soberba, a arrogância, o mau caminho e a boca perversa, eu os aborreço.”

Deus odeia essas atitudes, tem asco, e faz com que temamos mais ainda Sua Majestade.

Provérbios 11:2: “Em vindo a soberba, sobrevém a desonra, mas com os humildes está a sabedoria. ”

Provérbios 29:23: “A soberba do homem o abaterá, mas o humilde de espírito obterá honra.”

Versículo que não tem muito o que comentar. Está claro que ao se deixar ensoberbecer, a chance de cair aumenta a cada dia, até se tornar uma queda feita. A sabedoria com os humildes está, e não com os orgulhosos, assim como a honra!

Provérbios 16:19: “Melhor é ser humilde de espírito com os humildes do que repartir o despojo com os soberbos [ge'eh].”

Humildade, novamente, é uma das melhores atitudes que todos podemos ter, e está intimamente ligada com o amor, engrenagem principal necessária a todos os santos. É uma ação pacífica, que visa a paz e a harmonia.

Provérbios 21.4: “A vida de pecado dos ímpios se vê no olhar orgulhoso e no coração arrogante”.

O orgulho é perceptível a todos, sendo possível enxergá-lo em quem o pratica.

Provérbios 21:24: “Quanto ao soberbo e presumido, zombador é seu nome; procede com indignação e arrogância.”

Zombador… Assim são chamados os soberbos e presumidos.

Isaías 2:12: “Porque o Dia do SENHOR dos Exércitos será contra todo soberbo e altivo e contra todo aquele que se exalta, para que seja abatido;”

O próprio general será contra os soberbos e altivos. A solução é, desde já, vivermos o serviço às igrejas, além de buscar o que Cristo alcançou.

Jeremias 49:16: “O terror que inspiras e a soberba do teu coração te enganaram. Tu que habitas nas fendas das rochas, que ocupas as alturas dos outeiros, ainda que eleves o teu ninho como a águia, de lá te derribarei, diz o SENHOR.”

Mesmo que o soberbo suba alto como a águia, o Senhor promete o derrubar. Além disso, a soberba nos engana sobre a realidade das coisas.

Jeremias 50:32: “Então, tropeçará o soberbo, e cairá, e ninguém haverá que o levante; porei fogo às suas cidades, o qual consumirá todos os seus arredores.”

O soberbo cairá e será difícil até mesmo se reerguer, a não ser com a ajuda do Pai que está nos céus.

Ezequiel 21:26: “assim diz o SENHOR Deus: Tira o diadema e remove a coroa; o que é já não será o mesmo; será exaltado o humilde e abatido o soberbo.”

Novamente, os orgulhosos serão humilhados, enquanto que os humildes serão exaltados.

Ezequiel 31:14: “para que todas as árvores junto às águas não se exaltem na sua estatura, nem levantem o seu topo no meio dos ramos espessos, nem as que bebem as águas venham a confiar em si, por causa da sua altura; porque todos os orgulhosos estão entregues à morte e se abismarão às profundezas da terra, no meio dos filhos dos homens, com os que descem à cova.”

O verso é claro, “todos” os orgulhosos serão entregues à morte. Quem tem enveredado por esse caminho, arrependam-se, mudem, e Cristo os salvará.

Oséias 5:5: “A soberba de Israel, abertamente, o acusa; Israel e Efraim cairão por causa da sua iniqüidade, e Judá cairá juntamente com eles.”

Oséias 7:10: “A soberba de Israel, abertamente, o acusa; todavia, não voltam para o SENHOR, seu Deus, nem o buscam em tudo isto.”

A soberba abertamente nos acusa. Devemos manter nossos caminhos retos se não quisermos desviar da rota.

Obadias 1:3: “A soberba do teu coração te enganou, ó tu que habitas nas fendas das rochas, na tua alta morada, e dizes no teu coração: Quem me deitará por terra?”

Mais um exemplo de que o orgulho nos cega e engana.

Habacuque 2:4: “Eis o soberbo! Sua alma não é reta nele; mas o justo viverá pela sua fé.”

A alma de uma pessoa soberba não é reta, mas os que são justos, humildes, terão sua fé recompensada.

Zacarias 9:6: “Povo bastardo habitará em Asdode, e exterminarei a soberba dos filisteus.”

Outro exemplo de Deus mexendo com outros povos que eram soberbos. Novamente faço a pergunta, o que será de nós se mesmo os ímpios eram exterminados? E os pseudo-justos orgulhosos?

Malaquias 4:1: “Pois eis que vem o dia e arde como fornalha; todos os soberbos e todos os que cometem perversidade serão como o restolho; o dia que vem os abrasará, diz o SENHOR dos Exércitos, de sorte que não lhes deixará nem raiz nem ramo.”

Os soberbos serão queimados assim como a palha o é, destruindo-os completamente, sem deixar sinal dos seus antepassados ou descendentes.

Marcos 7:22: “a avareza, as malícias, o dolo, a lascívia, a inveja, a blasfêmia, a soberba, a loucura.”

Nesta lista de maus pensamentos, a soberba está incluída. No verso 23 diz que “esses males vêm de dentro e tornam o homem impuro”. A soberba está em nós, e é nossa responsabilidade lutar contra ela.

Romanos 1:30: “caluniadores, aborrecidos de Deus, insolentes, soberbos, presunçosos, inventores de males, desobedientes aos pais,”

Em mais outra lista, Paulo está falando da situação mental estabelecida pelo mundo que desconhece a Deus. Soberba está entre eles.

Romanos 12:16: “Tende o mesmo sentimento uns para com os outros; em lugar de serdes orgulhosos, condescendei com o que é humilde; não sejais sábios aos vossos próprios olhos.”

Tema abordado na última coluna pastoral, sobre não sermos sábios aos nossos olhos e escolher se submeter aos demais santos.

1ª Timóteo 6:17: “Exorta aos ricos do presente século que não sejam orgulhosos, nem depositem a sua esperança na instabilidade da riqueza, mas em Deus, que tudo nos proporciona ricamente para nosso aprazimento;”

Naquela época de Cristo muitas pessoas deviam depositar sua confiança dos seus bens e, naquele tempo, Jesus já alerta aos ricos para terem cuidado.

Tiago 4:6: “Antes, ele dá maior graça; pelo que diz: Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes.”

1 Pedro 5:5: “Rogo igualmente aos jovens: sede submissos aos que são mais velhos; outrossim, no trato de uns com os outros, cingi-vos todos de humildade, porque Deus resiste aos soberbos, contudo, aos humildes concede a sua graça.”

A palavra nos originais traduzida por “resiste” é antitassomai, e quer dizer “organizar-se para batalha contra; opor-se, resistir”. Uau! Deus batalha contra os soberbos!

Já a graça, charis, é concedida gratuitamente aos humildes.

Como vimos, e reforçando, Deus abomina o pecado do orgulho. É um pecado grave que faz com que Deus precise agir energicamente, destruindo completamente ao soberbo, sem deixar resquícios do que era. Precisamos estar sempre atentos, vigiando. Todos estamos suscetíveis à quedas, mas quanto mais rapidamente entendermos que nada somos sem Deus, quanto mais reconhecermos sua Graça em nossas vidas, aqueles que são orgulhosos começarão a ter sua mente alterada.

Sejamos práticos. Sejamos simples. Sejamos puros. Sejamos santos. Chega de nos considerarmos melhores por termos mais conhecimento, ou por não termos algumas regras de homens. Quantas vezes agimos como aquele fariseu diante do templo, agradecendo por não ser um publicano (Lucas 18.11)! Quanto orgulho havia naquele coração! E quantos repetem a mesma frase, hoje, trocando apenas o “publicano” por “assembleiano”, ou “batista”, ou “crente”, ou ainda “evangélico”! Sejamos simplesmente servos, que estão prontos a dedicar suas vidas até àqueles que não merecem, exatamente como Cristo fez por nós.

Por Emanuel Amaral Schimidt.

Curitiba, 03 de Setembro de 2008.

Dízimos e Ofertas? Parte Final

|Apostatamos!|nº 04, 30 de agosto de 2008|versão para impressão|

Somewhere over the rainbow/ Way up high/ And the dreams that you dreamed of…

Somewhere over the rainbow bluebirds fly/ And the dream that you dare to,why, oh why can’t I?…

Well I see trees of green and/ Red roses too,/ I’ll watch them bloom for me and you…

And I think to myself/ What a wonderful world…

The colors of the rainbow so pretty in the sky/ Are also on the faces of people passing by/ I see friends shaking hands/ Saying, “How do you do?”/ They’re really saying, I…I love you/ I hear babies cry and I watch them grow,/ They’ll learn much more/ Than we’ll know/ And I think to myself…

Someday I’ll wish upon a star,/ Wake up where the clouds are far behind me/ Oh, Somewhere over the rainbow way up high/ And the dream that you dare to, why, oh why can’t I?…” – Israel Kamakawiwo’ole

Ouvi essa edição de duas maravilhosas canções pela primeira vez alguns meses atrás. Estava na formatura do meu melhor amigo, e o “grande” Israel Kamakawiwo’ole parecia um profeta tangendo seu primitivo instrumento musical havaiano. Enquanto projetavam alguns dos melhores momentos da vida dos formandos, meu querido Emanuel entre eles, não deixava de pensar no que significava tudo aquilo. Acompanhei seus últimos semestres na UFPR, seu estágio numa multi-nacional, suas prósperas perspectivas de futuro, afinal naquele momento ele graduava-se honrosamente como um “Cientista da Computação”, e uma carreira de gordos salários o aguardava bem ali, do lado de fora do teatro onde estava se formando. O desconcertante, que tornou singular cada instante de sua cerimônia de formatura, foi o fato de ele ter escolhido abrir mão de seu diploma e aceitar deixar tudo, emprego, carreira e sonhos, para viver somente pela fé em Deus, trabalhando para o Senhor Jesus.

Já ouvimos todo o tipo de crítica sobre essa nossa decisão de não depender de homens, nem de “Igrejas”, nem de “Missões”, simplesmente acreditando em Deus, que Ele nos supriria todas as necessidades. Desde que estávamos completamente loucos, que éramos burros, até que isso de “viver só pra Deus” é uma “utopia”. Como diria padre Zezinho, “chame a isso de utopia, eu a isso chamo ‘paz’”. E é sobre paz e em clima de paz que escrevo esse Apostatamos!, sobre a paz que devemos ter em obedecer ao Senhor, a cada dia de nossas vidas, seja para dar tudo que temos e somos, seja para entregar dez, quinze, vinte por cento de nossos salários uma vez por mês. Fomos chamados para obedecer, e isso resume nosso Ministério (“Serviço”) como Servos (“Escravos”) do Deus Vivo.

I hear babies cry and I watch them grow (Eu ouço bebês chorando e eu os vejo crescer)/ They’ll learn much more (Eles vão aprender muito mais)/ Than we’ll know (Que nós saberemos)/ And I think to myself (E eu penso comigo)/ What a wonderful world (Que mundo maravilhoso)…

Nas últimas duas décadas uma leve brisa de mudança começou a soprar sobre a mentalidade dos cristãos. Ainda que tenhamos assistido a infeliz ascensão da “Teologia da Prosperidade”, e das “i”grejas mercenárias, no subsolo do cristianismo oficial, alheia as fileiras capitalistas do protestantismo, nasceu e começou a criar força uma geração esclarecida e apaixonada pela verdade. Essa geração não está preocupada com dinheiro, nem em dar ou deixar de dar ofertas. A única preocupação dessas valentes pessoas é com o que a Bíblia diz sobre as coisas, como sublinhou Barth:

Doutrina reformadora justamente não parte de uma posição mais elevada. Ela não fica comparando, não fica pesando, ela não discute. Ao invés ela acusa, ela explica e entra em disputa. É isto que lhe dá o gume e direção. É isto que ela tem em comum com a proclamação dos profetas e apóstolos. É isto que não existia na igreja Católica antes da reforma, nem tampouco existe na igreja Católica após a Reforma. Barth, Karl. In: “Reforma e Decisão” (Reformation als Entscheigdung). Theologische Existenz Heute. Müchen, Christian Kaiser Verlag, 3:5-24, 1993.

Com esse pequeno esclarecimento em mente, que aliás muito nos ajuda a explicar o sentido desta coluna, vamos prosseguir com nossos estudos.

Na última coluna aprendemos que a grande maioria das palavras bíblicas traduzidas por “oferta” apontavam, tanto etimológica quanto conceitualmente, para o sacrifício vicário de Cristo, com suas definições de “culpa”, “oferta pelo pecado”, “aproximação de Deus”. Chegamos a conclusão que a maioria dos versículos que tratam de oferta falam na verdade da aproximação do homem com o Criador, e essa aproximação só pode ser alcançada através do sangue de Jesus. Perplexos, constatamos finalmente que é um pecado terrível ofertar com o intuito de aproximar-se do Senhor, já que essa aproximação e a oferta definitiva para tanto foi feita no Calvário. Agora vamos prosseguir estudando as demais palavras bíblicas para oferta, e veremos se chegamos a alguma conclusão diferente daquela finalizada na última coluna.

Principiemos pelo verbo אָשַׁם (āšhām), que ocorre 84 vezes em toda a Bíblia Hebraica. Segundo os principais léxicos, o significado de āšhām de é “ser vazio, arrasado, desconsolado; ser culpado”. O sentido é o da desolação que a culpa causa. Em 35 versículos as palavras derivadas de āšhām estão diretamente ligadas a oferta: Levítico 5.6,7,15,16,18,19; 6.6,17; 7.1,2,5,7,37; 14.12-14,17,21,24,25,28; 19.21,22; Números 6.12, 18.9; 1º Samuel 6.3,4,8,17; 2º Reis 12.16; Isaías 53.10; Ezequiel 40.39; 42.13; 44.29; 46.20. O leitor que se preocupou em analisar todas as passagens viu alguns padrões e curiosidades. Primeiramente, o duplo sentido da palavra dentro da Torá. As derivadas de āšhām significam “pecados por ignorância”, ou seja, aqueles que cometemos sem saber que eram pecados. Esse tipo de falta não faz sentido diante da manifestação do Espírito Santo, uma vez que é o Espírito que convence do “pecado, da justiça e do juízo” (João 16.8). Ora, se o Espírito Santo convence-nos, então não resta espaço para pecados involuntários, uma vez que estamos sempre em contato com o Espírito, Ele sempre está nos convencendo, e, se pecamos, fomos alertados por Ele com antecedência. O segundo sentido é o de “oferta pela culpa”, e já estudamos com certa riqueza de detalhes as implicações de “culpa” diante da revelação de Jesus Cristo. As curiosidades sobre āšhām não param por aí. Em 2º Reis 12.16 fala-se do “dinheiro de oferta”, exatamente no sentido de moeda corrente. Alguém do outro lado do monitor deve ter esboçado um sorriso de “eu sabia!”, e está esperando minhas desculpas, já que esse versículo prova que devemos dar dinheiro como oferta, e que podemos dar até dinheiro para ofertas pela culpa. Mas por hora engula essa sua felicidade, e leia os versículos precedentes. O contexto da passagem é dos mais interessantes. Em 2º Reis 12.7, o Rei Joás inicia sua reforma religiosa, à partir da reparação do Templo do Senhor. Para tanto, o rei ordena que os sacerdotes PAREM DE RECEBER DINHEIRO, e doem todos os valores recolhidos para a restauração do Templo. Os versos 13-14 dizem que “a prata trazida ao Templo [...] era usada como pagamento dos trabalhadores, e eles a empregavam no reparo do Templo. A única exceção era quanto ao dinheiro de ofertas pela culpa, destinado a subsistência dos sacerdotes. Ou seja, os sacerdotes resolveram abrir mão da grande maioria de seus salários em prol da restauração do Templo do Senhor. Diante do que nos diz o livro de Hebreus, e entendendo que não existe “Templo” hoje, (a não ser os restos dele em Jerusalém), não temos muitos lugares onde colocar nosso dinheiro. As surpresas não param por aí. Isaías 53.10 nos diz que:

Contudo, foi da vontade do Senhor esmagá-lo e fazê-lo sofrer, e, embora o Senhor tenha feito da vida dele uma oferta pela culpa [āšhām], ele verá sua prole e prolongará seus dias, e a vontade do Senhor prosperará em sua mão” (NVI).

Pois bem diletos leitores, eis o fato: Jesus Cristo foi a definitiva āšhām, oferta pela culpa, para toda a humanidade. Logo, é sacrílego imaginar āšhām como um tipo válido de oferta em nossos dias.

Vamos deixar de lado as palavras que significam o “sacrifício” em si, uma vez que não conferem nenhum progresso conceitual a nossa pesquisa. Assim sendo, a próxima parada está em נֶדֶר (der), derivada do verbo dar. Essa raiz denota a verbalização da consagração de algo, prometendo fazer-se um determinado sacrifício a Deus, geralmente em agradecimento a alguma graça concedida. São 57 ocorrências de der ligadas a idéia de um voto feito a Deus. A primeira delas em Gênesis 28.20, onde Jacó promete dar o “dízimo”, o que nesse caso transforma o dízimo em uma forma válida de der. Votos são sagrados, toda a Torá legisla sobre a obrigatoriedade de seu cumprimento. O raciocínio é simples: a natureza de um “voto” é voluntária, ou seja, Deus não obriga ou mesmo pede a ninguém um voto, que é prerrogativa do indivíduo, uma aliança sua com o Senhor, assim sendo, é uma espécie de “brincadeira” de mal gosto com a divindade prometer algo que não se está disposto ou pronto a cumprir. Um trágico exemplo da obrigatoriedade no cumprimento dos votos está no capítulo onze do livro dos Juízes, quando Jefté é obrigado a sacrificar sua única filha devido a um voto. Este é o único caso de sacrifício humano em todo o Antigo Testamento. 1º Samuel 1.11,21 registra o voto de Ana, que a levou a entregar seu único filho, Samuel, aos cuidados da corrupta família do sacerdote Eli. Imaginem o quanto isso custou aquela mãe! Os votos são compromissos públicos, e, como tais, devem ser cumpridos diante da Congregação dos Santos (cf. Salmo 22.25). Provérbios 20.25 ensina que aquilo que é votado ao Senhor torna-se santo, propriedade de Deus, e é um laço apropriar-se daquilo. Essa advertência vale para muitos cristãos hoje em dia, que apressam-se em “consagrar a Deus” tudo o que possuem. Cada automóvel adquirido é “ungido” pelo pastor e “consagrado”, a casa, o escritório, a empresa inteira! Consagrar algo a Deus só pode ser entendido de duas formas. A que deveria ser óbvia (mas quase nunca o é), trata de que a pessoa que consagrou realmente devotou ao Senhor aquele bem, e não vai NUNCA MAIS utiliza-lo em benefício próprio. Então, o “carro consagrado” só pode ser usado de acordo com a vontade de Deus, e é bom que você não volte para sua casa no domingo, após o culto, até ter dado carona ao último irmão, aquele que mora do outro lado da cidade, sem cobrar nada por isso, e cantando de alegria, sem reclamações. A segunda forma de entender uma “consagração” é acreditar que o evangélico moderno sofre de uma terrível epidemia de estupidez, uma vez que é idiotice, ou, como diz o Pregador: “tolice” (Eclesiastes 5.4), consagrar algo a Deus e não entregar a ele. Votos são uma forma absolutamente válida de oferta, mas são um contrato perigoso com o Senhor. Devemos cumprir aquilo que prometemos, entregar aquilo que consagramos, ou sofrer as conseqüências de roubar a Deus.

קִטַּרְ (qātar) é o próximo verbo a ser estudado. São 110 ocorrências da palavra, a maioria delas em Levítico e Jeremias. O verbo trata de um termo técnico para sacrifícios completamente queimados e a fumaça que subia, geralmente fumaça de incenso, que subia daquele sacrifício. Esse é o sentido das 44 passagens que ligam qātar a ofertas: Êxodo 29.18,25; 30.20; Levítico 1.9,13,17; 2.2,9,11,16; 3.5,11,16; 4.26,35; 5.12; 6.12,15; 7.5; 8.21,28; 9.10,17; 16.25; Números 5.26; 18.17; 1º Samuel 2.16,28; 1º Reis 9.25; 16.13,15; 1º Crônicas 6.49; 2º Crônicas 13.11; 29.7; Jeremias 19.13; 32.29; 33.18; 44.17-19,25; Amós 4.5; Habacuque 1.16; Malaquias 1.11. Perceba que nos livros proféticos existe uma intensa ligação entre qātar e o sacrifício a deuses estranhos. Amós nos dá uma nova informação, admitindo a possibilidade da existência de “sacrifícios de louvor”. Seja como for, a idéia básica de qātar é queimar-se completamente um determinado sacrifício, e oferecer sua fumaça ao Senhor. Assim sendo, gostaria de lançar o desafio aos nossos irmãos defensores dos dízimos e ofertas exorbitantes: vamos queimar dinheiro! Aí talvez Deus se agrade do que é feito por aí nos cultos.

A última palavra que vamos analisar é תּודָה (tôdāh). Sua tradução literal é “ação de graças, agradecimento, e vem de uma raíz que significa “confessar, louvar, agradecer, reconhecer. Trata-se de uma oferta prevista na Lei, e isso é claro logo na primeira das 32 ocorrências do termo:

Se o oferecer por oferta de ação de graças, com o sacrifício de ação de graças, oferecerá bolos ázimos amassados com azeite; e coscorões ázimos amassados com azeite; e os bolos amassados com azeite serão fritos, de flor de farinha. Levítico 7.12, (ACF).

Você nunca se perguntou porque Deus pedia que se oferecessem pães e bolos em seus altares? Sempre me intrigou esse tipo de ofertas, isso porque demorei muito para conseguir entender as implicações espirituais de entregar a Deus um bolo ou um pão como oferta. Infelizmente nossa mente tende a analisar o óbvio e dificilmente compreende o que transcende o lógico e racional. Assim, compreendemos perfeitamente a natureza simbólica da oferta de touros, ovelhas e cabras, pois sabemos do valor sacrifical do derramamento de sangue. Vimos anteriormente que a grande maioria dessas ofertas destinava-se a cobrir os pecados do homem, justifica-lo diante do Senhor, não é o caso das ocorrências de tôdāh.

Todas as quintas feiras eu e o Emanuel freqüentamos um culto de adoração na igreja Fé em Ação. Particularmente considero os cultos do meio da semana os melhores em todas as igrejas, isso porque só comparecem os que querem realmente algum compromisso com o Senhor, não vão pelo peso da obrigação religiosa implícito no culto de domingo, e muito menos pela boa música ou requintados programas, inexistentes nos “cultinhos do meio da semana”, com baixíssima audiência e pregações e música absolutamente simples. Na quinta-feira quase não comparece ninguém lá, e o ambiente espiritual que se cria com aquelas poucas (porém sedentas) almas é fantástico, é como se estivéssemos no céu, e de certa maneira estamos. Dia desses os pastores, Adilson e Rosana, me deram uma ótima lição sobre o que a Torá ensina sobre a tôdāh. No meio da tarde recebemos uma ligação, era o pastor Adilson, com sua costumeira brevidade ao telefone. Ele perguntava se não queríamos passar na casa dele, antes do culto, para tomar café, disse que, caso não fossemos, perderíamos um bolo de limão feito para a ocasião. Quando chegamos, cansados pelo trabalho e pelos ônibus lotados, encontramos uma mesa muito bem servida, com refrigerante, café (a pastora faz o melhor café de Curitiba), pão, queijo e, é claro, ele, cheiroso e fofinho, apetitoso e belo, nosso bolo de limão! A voz da pastora é um caso à parte. Poucas pessoas deixam transparecer tão obviamente amor, dedicação e humildade ao falar, e lá estava ela, com sua voz doce nos pedindo perdão porque o bolo não ficou do jeito que ela gostaria. Era um bolo normal, com uma deliciosa cobertura de limão, bastante saboroso por sinal, minha mãe provavelmente não faria melhor, mas para a pastora parecia que estávamos comendo lavagem, tudo porque não havia ficado do jeito que ela planejou. Não caro leitor, não fugi do assunto para narrar uma história fora do contexto. É que a pastora aquele dia teve de ir ao médico, tratar alguns problemas de saúde, o pastor recuperava as forças após um longo dia de trabalho, e ainda assim eles gastaram tempo para preparar aquela mesa. A Rosana teve de juntar os ingredientes, mexer a massa, cuidar do forno, preparar a cobertura. Não haviam outros convidados, só nós dois, “moleques” sem nome ou “ministério”. E por que aquilo tudo? Porque nos amam e querem mostrar isso de alguma maneira. É por isso que Deus pedia aqueles pães e bolos, porque os animais eram criados ao relento, mas os bolos eram feitos com trigo, e esse trigo tinha de ser cultivado com cuidado. Haviam mesmo festas para a colheita, tamanha era a importância da “sorte” de se colher o que plantava. Depois de colhido o trigo, o suor dos moedores o transformava em farinha, e a dedicação das donas de casa, sem liquidificador ou batedeira, preparava com habilidade e muito carinho o pão e os bolos. Enquanto eram cozidos naqueles fornos arcaicos se agradecia de coração sincero a Deus por tudo que Ele tinha feito, se celebrava o amor pelo Senhor que lhes dera tudo aquilo. Por isso a tôdāh devia ser entregue principalmente na forma de pães e bolos, porque esses eram alimentos humanos, feitos por homens e para os homens. Lá havia o suor e esperança dos homens nas plantações e colheitas, o esmero e o carinho das mulheres, a alegria das crianças que ajudavam as mães no preparo dos alimentos. Toda a família participava da confecção da oferta, que era levada com muita gratidão aos altares hebreus.

Da mesma maneira que os pastores se esforçaram bastante para nos presentear com aquele pequeno banquete no fim da tarde de quinta, e toda a dedicação daquele casal de santos nos causou imensa alegria e o sentimento de realmente fazer parte daquela linda família, nosso Senhor sentia-se extremamente satisfeito quando via os filhos de Israel chegarem, com os bolos nas mãos e o sorriso nos lábios, para oferecer sua gratidão ao Deus que lhes deu tudo que tinham.

A tôdāh não era uma obrigação legal, porque não se pode legislar sobre gratidão. Agradecer é um dever moral, uma obrigação humana. Nada Não há desvio de caráter mais terrível que a ingratidão, não há pior tipo de orgulho. Porque o ingrato acredita que não depende de ninguém, que chegou até onde está sozinho, sem Deus ou homens. Hora ou outra o ingrato descobrir-se-á encurralado e se perderá em meio a própria soberba. Devemos entregar tôdāh a Deus em nossos dias? Creio que cada instante deve haver oportunidade de ofertar tôdāh. Levítico 22.29 fala de “oferecer um sacrifício de louvor ao Senhor, isso mesmo, tôdāh trata-se também de louvor! Por isso sua raiz quer dizer também “arremessar, lançar”, já que louvor é algo que se lança aos céus. Muitas pessoas “honram” a Deus com seu dinheiro e não com sua boca, seu tempo, sua dedicação. As vezes é fácil entregar uma quantia que nos sobra, mas é sempre complicado gastar tempo, limpando a igreja ou preparando um café que será oferecido aos visitantes ao final da celebração. O que louva mais a Deus, seu dinheiro no envelope ou seu suor no chão do templo? O que agrada mais a Deus, mil reais de oferta para se pagar o aluguel de um prédio, ou um jantar oferecido a um irmão que não teria condições de comer tão bem em sua própria casa? A maldição pragmática do capitalismo mercenário evangélico nos levou a traduzir nossa gratidão a Deus pelo dinheiro que entregamos nas igrejas, mas convenhamos, pães e bolos nunca foram artigos de luxo, e toda tôdāh começava com pães e bolos. Esdras 10.11 nos ensina o que é gratidão:

Agora confessem seu pecado ao Senhor, o Deus dos seus antepassados, e façam a vontade dele. Separem-se dos povos vizinhos e das suas mulheres estrangeiras. – (NVI).

Oferecer gratidão é bem mais que cantar louvores no culto de domingo à noite, é bem mais que separar dez, quinze ou cem por cento de seus ganhos e dar à igreja. Entregar tôdāh é fazer a vontade de Deus, separando-nos do mundo, servindo ao Senhor de todo nosso coração. É preparar bolos para as visitas, é limpar o banheiro das igrejas, é abraçar e acolher quem nunca foi abraçado ou acolhido.

O problema das pessoas é que elas dão seu dinheiro como se aquilo fosse a essência da oferta. Como se Deus fosse um banqueiro que só pensa em lucros. Dinheiro pode até ser parte ou mesmo a maneira de se manifestar uma oferta, mas está longe de ser a essência. Talvez tôdāh seja a essência. Gratidão, louvor sincero manifesto em atos de obediência, em ações voluntárias para a glória de Deus. Nunca fui contra ofertas, mas não posso aceitar que as pessoas transformem o ofertar a Deus num leilão de bênçãos. Isso é retroceder as barracas de indulgências mantidas por Tetzel, que revoltaram Lutero ao ponto de dividir o cristianismo entre católicos e protestantes. Não somos dignos de nada! Somos pó, lixo inútil. Não temos direito a nada, e nada nesse mundo pode comprar-nos direitos celestiais. Nosso destino é o inferno, somente ele. Estamos perdidos! É isso que a Bíblia diz: “todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus(Romanos 3.23). Só a graça, manifesta no amargo sacrifício de nosso Senhor Jesus Cristo é capaz de nos justificar, pela fé. E não é fé que move os fiéis a entregarem seus bens, mas o mercenarismo daqueles que prometem o céu em troca do dinheiro. Deus jamais vai nos ouvir pela oferta que damos, jamais vai se sentir feliz com nosso dinheiro, muito menos repreender qualquer demônio. Ele ouve corações compungidos, que manifestam devoção sincera, expressa em atos de obediência irrestrita. O que se vê nos dízimos e ofertas hoje é um legalismo mantido pelo demoníaco sentimento de justiça própria. Não há pecado pior do que o do ignorante que diz: “Deus tem que me abençoar porque sou dizimista, tem que repreender o devorador e me fazer próspero. Tal pessoa cospe na cruz de nosso Salvador, renega-lhe o sacrifício e acredita que pode fazer algo para obter os favores de Deus. Só a misericórdia, só o sangue de Jesus pode nos aproximar do Pai. Se dermos dinheiro, que seja em obediência a uma ordem de nosso Senhor, não uma tentativa de obter favores, comprando a divino com o efêmero.

Caro leitor, encerramos aqui essa longa jornada sobre Dízimos e Ofertas. Quase todas as palavras foram analisadas, e, caso tenha sentido falta dos vocábulos gregos, basta recorrer à tabela da última versão para impressão. Lá estão todas as palavras e ocorrências citadas e não citadas em nossos artigos. Não analisei nada em grego porque não mudaria o resultado final e tanto as traduções da Septuaginta quanto o Novo Testamento mantiveram inalterados os ideais hebraicos estudados aqui.

Em 2ª Coríntios 9 Paulo resume todo o ensino neotestamentário a respeito de ofertas:

Não tenho necessidade de escrever-lhes a respeito dessa assistência aos santos. Reconheço a sua disposição em ajudar e já mostrei aos macedônios o orgulho que tenho de vocês, dizendo-lhes que, desde o ano passado, vocês da Acaia estavam prontos a contribuir; e a dedicação de vocês motivou a muitos. Contudo, estou enviando os irmãos para que o orgulho que temos de vocês a esse respeito não seja em vão, mas que vocês estejam preparados, como eu disse que estariam, a fim de que, se alguns macedônios forem comigo e os encontrarem despreparados, nós, para não mencionar vocês, não fiquemos envergonhados por tanta confiança que tivemos. Assim, achei necessário recomendar que os irmãos os visitem antes e concluam os preparativos para a contribuição que vocês prometeram. Então ela estará pronta como oferta generosa, e não como algo dado com avareza.

Lembrem-se: aquele que semeia pouco, também colherá pouco, e aquele que semeia com fartura, também colherá fartamente. Cada um dê conforme determinou em seu coração, não com pesar ou por obrigação, pois Deus ama quem dá com alegria. E Deus é poderoso para fazer que lhes seja acrescentada toda a graça, para que em todas as coisas, em todo o tempo, tendo tudo o que é necessário, vocês transbordem em toda boa obra. E Deus é poderoso para fazer que lhes seja acrescentada toda a graça. Como está escrito: “Distribuiu, deu os seus bens aos necessitados; a sua justiça dura para sempre”.

Aquele que supre a semente ao que semeia e o pão ao que come, também lhes suprirá e multiplicará a semente e fará crescer os frutos da sua justiça. Vocês serão enriquecidos de todas as formas, para que possam ser generosos em qualquer ocasião e, por nosso intermédio, a sua generosidade resulte em ação de graças a Deus.

O serviço ministerial que vocês estão realizando não está apenas suprindo as necessidades do povo de Deus, mas também transbordando em muitas expressões de gratidão a Deus. Por meio dessa prova de serviço ministerial, outros louvarão a Deus pela obediência que acompanha a confissão que vocês fazem do evangelho de Cristo e pela generosidade de vocês em compartilhar seus bens com eles e com todos os outros. E nas orações que fazem por vocês, eles estarão cheios de amor por vocês, por causa da insuperável graça que Deus tem dado a vocês. Graças a Deus por seu dom indescritível!

Será que precisamos analisar essa passagem em grego ou aramaico? Será que precisamos escrever um livro de comentários sobre ela? Para quem era o dinheiro que Paulo pedia? Para o “povo de Deus. Como cada um devia dar? “Conforme determina seu coração. O que Deus acrescentaria?Toda graça”. Por que os coríntios seriam enriquecidos?Para serem generosos em qualquer ocasião. Eles davam dinheiro ou obedeciam? “A obediência acompanhava a confissão.

Dar dinheiro pode até ser um serviço ministerial, mas é serviço dos mais ricos aos mais pobres. Se você tem dinheiro, sua obrigação é fazer esse dinheiro servir a Deus, se você não tem, não é obrigado a servir a homens inescrupulosos. Ofertar não pode ser uma obrigação, em hipótese alguma, mas sim um dom, nosso para Deus.

Nesse mês comemoramos um ano da formatura do Emanuel e durante boa parte desse ano nós vivemos das ofertas daqueles que de bom coração desejaram nos ajudar. Temos muito orgulho disso, sobretudo pelo fato de ter dedicado da melhor maneira nosso tempo e nossos bens ao serviço dos santos. Muita coisa aconteceu conosco e em volta de nós nesse ano. Muitas pessoas se afastaram e outras chegaram. Nós pregamos muitas teses nas portas da Wittenberg pentecostal. Criamos inúmeros inimigos por simplesmente tratar da Bíblia como verdade, por viver o que pregávamos e cobrar de todos mais posicionamentos práticos e menos enrolação retórica. Denunciamos apostasias e continuaremos a denunciar. Como todos que acompanharam essa coluna devem ter percebido, fomos forçados a parar de escrever por um tempo. É que as coisas mudaram, nós amadurecemos e nos vimos diante de uma encruzilhada. Decisões tiveram de ser tomadas, e por mais que não nos falte motivos para glorificar a Deus por cada centavo de provisão nesse último ano, por mais que tenhamos a certeza de que Ele sempre esteve no controle, com o grande orgulho de não ter pedido jamais dinheiro de quem quer que seja (cf 1ª Coríntios 9.15), nós nos sentimos desafiados pelo Senhor a voltar a trabalhar. O desafio é provar que se pode servir a Deus integralmente mesmo com nossos empregos, mesmo passando 12 horas por dia no trabalho ou em trânsito.

Confesso que o que estranhei no trabalho foi receber salário. Foi poder contar todos os meses com aquela quantia, foi acordar todos os dias sabendo onde devia ir e o que fazer, sem esperar que o Senhor desse essa resposta. Muita coisa aconteceu nos últimos meses, mas talvez o principal motivo para ter demorado tanto a terminar esse Apostatamos foi o fato de que queria falar de oferta sob a ótica de quem dá dinheiro, não só de quem recebe. O Novo Testamento nos ensina que toda nossa vida pertence a Deus, de fato nós fomos comprados por Jesus, somos escravos. Posso dizer que meu salário pertence a Deus, e só Ele pode dizer para onde vai o dinheiro. Pode ser que Ele me deixe gastar tudo, pode ser que então eu decida ajudar alguém por conta própria, voluntariamente. Pode ser que Ele me mande dar tudo que ganhar, mas e daí? No último ano Ele pagou o aluguel sempre no último instante, no último ano Ele mandou alguém colocar dinheiro no bolso da minha blusa e só me deixou descobrir no dia seguinte, sem saber quem havia feito aquilo. No último ano Ele sustentou a mim e ao Emanuel, mas não o fez só porque largamos tudo para servir somente a Ele. Deus nos sustentou porque obedecíamos. O que quero dizer leitor é que Deus só quer que você obedeça para lhe dar tudo o que você precisar. Não tente comprá-lo com nada, nem com serviços e muito menos com louvor. Apenas obedeça, cegamente, sempre que ouvir a doce voz de seu Senhor.

É obedecendo que voltamos a trabalhar e que agora começa uma nova etapa, em nossas vidas, na vida do Aheb e mesmo na Apostatamos!. Hoje, com tudo que aprendemos em mente, voltando àquela noite de 26 de setembro de 2007, não vejo mais o Emanuel como um herói mitológico que jogava o diploma fora para viver um sonho, eu vejo dois amigos tentando viver o Reino de Deus. Esse foi o lema desse blog até aqui, porque um ano atrás nós obedecemos ao Senhor. O que o Emanuel fez foi simplesmente obedecer, e o que fazemos agora não é em nada diferente.

Que a graça, e somente a graça, de nosso Senhor esteja sobre cada um de nós. Que possamos, pela graça, obedecer, dando ou recebendo. Seja em dinheiro, seja em trabalho, que nossas vidas possam dedicar-se inteiramente a servir ao nosso Deus. Que esse serviço seja árduo e que Deus nos livre da maldição de falarmos mais do que fazemos.

Obrigado por estar conosco até aqui. Espero que minhas palavras tenham contribuído em algo para sua vida com Deus.

Emerson Silva.

Curitiba, 30 de agosto de 2008.

Well I see trees of green and/ Red roses too,/ I’ll watch them bloom for me and you…

And I think to myself/ What a wonderful world…

Eternos Como o Amor

(Versão para Impressão)

Extremos são como lentes que revelam o estado mais puro das coisas. Desse modo, quando expostas à pressão, rudes uvas destilam o doce vinho, capaz de inebriar o mais sóbrio coração. Não à toa, a Bíblia utiliza justamente a metáfora de uvas sendo esmagadas para descrever o caminho pelo qual devemos passar antes de entrarmos no Reino de Deus (Atos 14.22b). O radical grego utilizado para aquilo que entendemos por tribulação, θλιψις (thlipsis), metaforiza o processo de criação do vinho, aquele em que as frutas são esmagadas para alcançar a excelência do sabor que conquistou reis e derrubou impérios.

A bebida, que aquece corações, os óleos, que embelezam o corpo, o perfume, que enfeitiça a alma, tudo que nos define e nos faz suspirar nesse Dia dos Namorados, é produto da pressão, resultado de coisas simples que revelaram-se fantásticas quando expostas a extremos. Mas quando ligamos a televisão ou lemos os jornais, conectando nossas mentes a grande “colméia” global de parasitas, somos expostos ao lixo do qual querem que nos alimentemos. A didática do medíocre, que a publicidade nos empurra goela abaixo nesses dias, ensina o amor como matéria fácil, resumida a uma ou duas lições de sexo animal, bons suspiros, uma gorda fatura no cartão de crédito, e só. Dormimos nas restantes trezentas e sessenta e quatro noites do ano sozinhos, como se nada tivesse acontecido. O animalesco que atribuem ao sexo, aliás, anuncia o futuro que nos espera logo ali, quando negociarmos em Wall Street a última gleba de humanidade que resta em nossa consciência coletiva.

Essas noites frias de inverno me fazem pensar. A estática, que nos prende em casa, e confina o intelecto a livros esquecidos em prateleiras empoeiradas, também liberta a noção da coletividade absurda, e finalmente podemos vislumbrar alguns momentos de interação com o real. Por mais absurdo que pareça, a realidade não consiste no dia-a-dia de palavras e gestos trocados, com uma ou duas dúzias de indivíduos de nosso círculo de convivência, mas naquilo que realmente somos e pensamos. É impossível ser quem realmente sou quando sei que todos me observam, medindo minhas fraquezas e desejando as qualidades, como serpentes prontas a dar o bote, e quando sei que eles, pessoas normais também fingem ser quem não são, a maioria simplesmente porque se esqueceu de quem era antes de ser subjugada pela maioria.

Não que concorde com a subversão sociopata que assola nossa juventude nessa geração. Considero-a hipócrita até, porque, embora tentem destruir a todo o custo a sociedade que eles julgam pervertida, não tem escrúpulos em utilizar-se dela e de seus meios, pasmatório que seja, até para divulgar suas idéias. Nem tomo a bandeira apologética da misantropia, precisamos uns dos outros, e nossa existência não tem sentido na solidão fria desses quartos e dos teclados que acariciam nossos egos. Sem temer o abismo do clichê, cito o Bardo Inglês, numa de suas mais citadas citações:

Ser ou não ser, eis a questão. Qual será o caminho mais nobre? Suportar as pedradas e as flechadas da fortuna cruel ou pegar em armas contra um mundo de dores e terminar com elas resistindo? – Shakespeare, Hamlet, ato III, cena 1.

Não tenho namorada, e nada além das cobertas aquece minhas noites no inverno. Não há mulher que eu ame nesse imenso mundo, mas será que só por isso não posso celebrar o amor e fazer dele um norte? Recitando o poeta:

O amor quando cala por tolhido, então nos fala melhor que as fátuas veemências. – Sonho de Uma Noite de Verão, Ato V, cena 3.

Nada me enoja e assusta mais que o impulso daqueles mal amados a buscar o par perfeito que o mundo lhes fez acreditar existir. Nas igrejas, os crentes transformaram o casamento numa espécie de licença para sexo sem pecado, basta participar de uma cerimônia e observar o olhar safado dos noivos, que desejam mais a Lua de Mel que o sim no altar. Fora dos santuários a Sexo Livre S. A. transformou cada indivíduo num prostíbulo. Na verdade, quase todos trabalham para essa empresa, como simples funcionários, “colaboradores” do prazer. E pergunto a você, gentil e generoso namorado”: o presente comprado para esse ditoso dia é uma expressão sincera da paixão que o atrai para seu par, ou o preço necessário para um beijo, uma boa transa, mais uma noite de prazer? Se o mimo é sincero, e expressa seu intenso amor, por que não o entregou ontem? Mês passado? Por que nesse dia?

Para trás filosofia! Se ela não pode fazer uma Julieta, mudar de lugar uma cidade, revogar a sentença dum Príncipe, para que serve a filosofia? – Romeu e Julieta, ato III, cena 3.

Quando o jovem Montecchio proferiu estas palavras, banido dos muros de Verona e isolado do amor de sua vida, condenou-nos todos que julgamos amar. Porque nesta frase o imortal Romeu renuncia a tudo mais em sua vida, seu nome, sua honra, a própria razão, pelo amor de uma mulher. Posso não amar ninguém, mas não preciso de alguém para saber o que é o amor. Acredito até que, se necessitarmos de estímulo externo para exercitar nossas faculdades sentimentais, provamos uma frieza de coração e incapacidade de sentir, encontrada somente em animais que precisam do cio para procriar. Não, caros leitores, o amor é intrínseco a alma humana, se admitimos uma Criação, e realmente cremos que Deus caritas est (1ª João 4.16), não podemos ignorar que a própria essência que move o universo é o elemento fundamental de nossas almas. Diz a Bíblia que Deus deu seu sopro a Adão, e ele se tornou Alma vivente (Gênesis 2.7), se Ele é amor, logo, a mesma força que faz as marés, que guia a Terra em sua viagem pelo Universo, que torna cada estrela brilhante, o mesmo Amor que criou o mundo e tudo o que nele há, sopra em nossos corações. E a Bíblia fala de outro sentimento muito interessante:

Para tudo há uma ocasião certa; há um tempo certo para cada propósito debaixo do céu: [...] tempo de abraçar e tempo de se conter, tempo de procurar e tempo de desistir, tempo de guardar e tempo de jogar fora, [...] tempo de amar e tempo de odiar, tempo de lutar e tempo de viver em paz. [...] Tenho visto o fardo que Deus impôs aos homens. Ele fez tudo apropriadamente ao seu tempo. Também pôs no coração do homem o anseio pela eternidade; mesmo assim ele não consegue compreender inteiramente o que Deus fez. – Eclesiastes 3.1,5b,8,10,11.

O amor que Shakespeare pôs nos lábios e no coração de Romeu transcende a trivialidade, o amor que sinto em meu coração é eterno como a chama divina que flamula na alma humana. Não posso conceber um amor que tenha começo ou fim, um amor que necessite de impulsos para ser ativado, que precise de sexo para tornar-se agradável. O amor não deve durar, ter prazo de validade como um produto qualquer, porque a eternidade está além do tempo. Acredito que os amores simplesmente se encontram. E quando encontrar o meu, aquilo que está latente em mim vai sinalizar ao coração que a busca terminou, e finalmente vou entender porque considerei belo cada pôr-do-sol, porque divaguei em meio ao céu estrelado, porque cada flor me pareceu especial e única. Finalmente direi:

Oh! Ela deve ensinar as tochas a brilharem esplendidamente! Beleza riquíssima para ser usada e cara demais para a terra! [...] Se profano com minha mão por demais indigna esse santo relicário, a gentil expiação é esta: meus lábios, dois ruborizados peregrinos, estão prontos a suavizar com um beijo tão rude contato. – Romeu e Julieta, ato I, cena 5.

E ela não será como me disseram que deveria ser. Nem sua beleza será como aquela desejada e exibida pelos homens. Ela será exatamente quem é: perfeita. Porque é o amor quem determina a perfeição. E cada defeito suprimir-se-á pela grandeza da paixão. E quando a paixão cessar, nossos corações vão rir das loucuras cometidas, e nossas almas deleitar-se-ão com os simples momentos de silêncio, quando as mãos se encontram. E o mundo passará mais devagar, como que desfilando sua beleza a um casal de reis, ao menos, a um casal real.

Essa realidade não está escrita em livros, nem pode ser expressa pela imaginação dos homens. Ela é real no campo da eternidade, nas dimensões divinas que nos tornam filhos de Deus. Ela é real para os que desejam ir além da obviedade desse mundo. Nessa realidade, e nesse Admirável Mundo Novo, não somos solteiros desperdiçando nossa virgindade numa utópica espera pelo amor platônico. Somos pares de uma união maior que nós, desenhada e desejada pelo Eterno, e é apenas uma questão de ocasião até que sintamos pulsar dentro de nós uma força tão grande que moverá até mesmo os pilares do ceticismo, e nos fará não apenas crer, mas viver o verdadeiro amor.

A pós-modernidade, da qual os homens tanto se orgulham, é pautada pelo efêmero, alimentada pelo trivial, sustentada pela imoralidade, ostentada pela ignorância coletiva e generalizada como um marco civilizatório da humanidade. Esse mundo, que marca datas e nos impõe dias para dizer o que sentimos, escravizou a razão e desfigurou o sonho. A única arma que temos contra ele é a fé, a única maneira de sobrevivermos ao Armagedon da nossa era, quando a própria essência da civilização for substituída pela ferocidade animal da economia de mercado, é lutar pelos ideais do amor, utópicos para as massas ignorantes, mas reais nos corações imersos na eternidade.

A busca pelo “amor perfeito”, pela alma que completará nossa existência, requer coragem e perseverança. Requer noites frias e solitárias, quando a única coisa capaz de aquecer nossos corações é a idealização da beleza e da perfeição desejadas. E a atitude mais corajosa que um homem pode tomar na vida é render-se a paixão, que fulmina a razão e abre as portas da eternidade através do amor. Essa rendição implica em abdicar de tudo que se pensou ser, e entender de uma vez por todas que a vida foi feita para ser vivida, não discutida em círculos tão restritos por sua ortodoxia que acabam nos encarcerando dentro de nossas próprias idéias. Essa é a solidão que mais castiga o homem. Acreditar tanto em algo que acaba por sentir-se sozinho mesmo em meio a multidão, uma vez que não há quem quer que seja capaz de entender e pensar como ele.

O amor é singular, e aceitar essa singularidade faz parte dos extremos, das tribulações necessárias para adentrar-mos em Seu Reino. Nós, sonhadores e românticos utópicos, estamos expostos a isto todos os dias. Somos pressionados pelo olhar invejoso de quem não é capaz de ser feliz sozinho, e passa a vida mendigando o carinho de quem mal se importa consigo mesmo. Somos perseguidos pelo modelo de relacionamento que crucifica a amizade e oferece sacrifícios nos altares do “Orgasmo Múltiplo”. Somos taxados, apelidados, caçoados. Mas devemos saber pelo que esperamos, e saber encontrar aquilo que procuramos.

E quando encontrarmos!

Prefiro deixar em branco tal parágrafo. Prefiro esperar, em Deus, com Ele, por Ela. E deixar que a própria vida me ensine a ler a história que me foi escrita. Deixar de escrever a sós, e permitir que Ela, minha amada, preencha com emoção e delicadeza as entrelinhas de nosso futuro.

Não sei onde procurar, aliás, esse não deve ser o tipo de coisa que encontramos em bares ou igrejas, nem em lojas de conveniência. É o tipo de busca que começa dentro de nós mesmos, no belo dia em que olhamos aquele reflexo que por tanto tempo pareceu estranho no espelho, e descobrimos que aquele ali “sou eu!”. A eternidade então começa dentro de nossos corações, porque o próprio Deus plantou esse desejo em nós. E alguns começam aí seu tempo de amar, primeiro a vida, depois os amigos, depois…

O depois começa hoje, começará amanhã, um dia desses. E nesse dia, quando nossos caminhos se cruzarem, quando nos encontrarmos e a solidão eterna passar a ser plenitude infinita, seremos “para sempre” como deve ser todo o grande amor. Aí então, finalmente, não existirá mais um “Dia dos Namorados”, porque namoros verdadeiros não precisam de calendário, amores verdadeiros transcendem a nós mesmos e nos definem como homens.

Essa é a opinião do Aheb sobre o amor.

Soli Deo gloria et gratia. Curitiba, 12 de junho de 2008.

Enxergando o lado bom

Olhando para as virtudes

(Pastoral, nº 03 – 15 de Maio de 2008. Versão para Impressão)

[...] quem se faz humilde como esta criança,

este é o maior no Reino dos céus” – Mateus 18.4 (NVI)

Em Lucas 18.9-14 está descrita uma parábola que Jesus contou acerca de duas personagens, um fariseu e o outro publicano. Ambos caminhavam rumo ao templo para realizarem suas orações. O fariseu, em seu íntimo, agradecia a Deus por não ser “como os outros homens: ladrões, corruptos, adúlteros. Nem mesmo como este publicano“, uma vez que jejuava “duas vezes por semana” e dava “dízimo de tudo quanto” ganhava. O publicano, por sua vez, nem conseguia chegar perto do templo, tamanha era sua vergonha e humilhação, e dizia: “Deus, tem misericórdia de mim, que sou pecador“. O fariseu tinha uma atitude de humildade, mas em seu coração transbordava uma soberba que o fazia se considerar melhor que os demais, enquanto que o segundo, o publicano, sabia qual era sua situação e, tanto em palavras quanto em seu coração, clamava por misericórdia por reconhecer ser um pecador. Jesus, então, dá a “moral” da história: “Eu lhes digo que este homem [o publicano], e não o outro [o fariseu], foi para casa justificado diante de Deus. Pois quem se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado“.

Em outro momento muito conhecido (Mateus 18.1-4; Marcos 9.33-36; Lucas 9.46-48), Jesus foi interrogado pelos seus discípulos acerca de quem seria o maior no Reino dos céus. Ele pega, então, uma criança que estava ao redor, a coloca no meio deles (Marcos 9.36), pega-a nos braços e diz: “Eu lhes asseguro que, a não ser que vocês se convertam e se tornem como crianças, jamais entrarão no Reino dos céus. Portanto, quem se faz humilde como esta criança, este é o maior no Reino dos céus” (Mateus 18.3-4). Pra um discípulo ouvir que precisava se converter não deve ter sido fácil, mas é o que Jesus falou! Se os discípulos ouviram isso, devemos olhar pra nós e deixar o Senhor nos sondar (cf. Salmos 26.2), e, se ainda não nos convertemos e nos tornamos como crianças, que não vêem o mal, são puras, sinceras, sem preconceitos, inocentes, precisamos nos arrepender e correr para o colo do Pai de coração disposto a ser humilde. Crianças brincam entre si, sem importar-se com classe social ou cor da pele, religião ou nacionalidade. E, se não brincam, algum adulto tem responsabilidade nisso por ter colocado alguma idéia errônea na cabeça da pequena. Segundo Wiersbe’s Expository Outlines, “Enquanto as crianças não são sem pecado nem perfeitas, elas possuem as características que devem estar presentes na vida de cada cristão: são ensináveis, simples nos seus desejos, tem atitudes esperançosa, e dependem de seus pais para satisfazer suas necessidades“. Já o Bible Knowledge Commentary afirma que “Uma alta posição no Reino não era baseada em grandes trabalhos ou palavras, mas na humildade de espírito de uma criança“. Ou seja, se quisermos ser alguém no Reino, devemos ser totalmente dependente de nosso Pai, reconhecer humildemente que não sabemos o que é melhor para nós, nem que somos melhores do que os demais, mas sim nos sujeitarmos à vontade do Pai, servindo aos santos que estão próximos de nós, nosso maior dever.

Essas são apenas algumas das dezenas de passagens que nos exortam a vivermos em atitude de humildade. Por várias vezes o autor de Provérbios nos alerta para termos cuidado com o orgulho, que é “aborrecido por Deus” (8.13), dele “sobrevém a desonra” (11.2), “resulta em contenda” (13.10), “antecede a destruição” (16.18), “nos abate” (29.23), que quem as pratica tem suas casas derrubadas (15.25).

A palavra que foi traduzida por humildade e suas variantes no Novo Testamento, na maioria das vezes, foi tapeinoo (ταπειυόω), e significatornar baixo, se rebaixar” (Strong), “abaixado, trazido para baixo, humilhar (verbo)” (Vine), “ter uma opinião modesta de si mesmo” (Thayer). É interessante seu uso em Lucas 3.5, onde diz que “todas as montanhas e colinas [serão] niveladas“. Assim devemos agir, nos rebaixarmos, não deixar qualquer atitude de orgulho tomar conta de nós.

Um das grandes qualidade do amor, descrita pelo magnífico texto de 1ª Coríntios 13, é que ele “não se orgulha” (na Nova Versão Internacional) ou “não se ensoberbece” (na Almeida Revista e Atualizada). Provérbios 16.19 diz que é melhor “ser humilde de espírito com os humildes do que repartir o despojo com os soberbos” (ARA). Os Dez Mandamentos foram resumidos em apenas dois: “Ame o Senhor, o seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma, de todas as suas forças e de todo o seu entendimento” e “Ame o seu próximo como a si mesmo“(Mateus 22.37,39; Marcos 12.30,31; Lucas 10.27; esse primeiro mandamento aparece originalmente em Deuteronômio 6.5 e 11.1, enquanto que o segundo está escrito em Levítico 19.18, mas também em Romanos 13.9, Gálatas 5.14 e Tiago 2.8).

Se amarmos as pessoas como amamos a nós mesmos, a primeira coisa que NÃO iremos fazer é excluir o próximo por causa dos seus defeitos, afinal, não tem como você deixar de conviver consigo mesmo apesar de tantos defeitos que tem, não é mesmo? Romanos 12.1 diz: “Portanto, você, que julga os outros, é indesculpável; pois está condenando a si mesmo naquilo em que julga, visto que você, que julga, pratica as mesmas coisas“. Nesse momento é importante entendermos o que é esse “julgamento”. A palavra no original grego traduzida por julgar e seus derivados é krineis (κρίυεις), que, segundo Strong, significa “determinar, resolver, decretar; julgar, pronunciar uma opinião relativa ao certo e errado“. O Dicionário Greco-Inglês da United Bible Societies (UBS) afirma que julgar é “condenar, determinar“. “Ter uma conclusão num processo de pensamento e ainda estar numa posição de tomar uma decisão“, segundo Louw-Nida. “Aquele que julga severamente (injustamente), encontrando faltas com isto ou aquilo nos outros“, diz Thayer. “Ter um julgamento desfavorável sobre, criticar, encontrar falta em, condenar“, de acordo com o Léxico Greco-Inglês do Novo Testamento de Bauer, Danker, Arndt e Gingrich (ou apenas BDAG). Podemos entender, então, que quando julgamos temos o intuito de que o réu seja penalizado. Um julgamento “humano” sempre acaba com alguma punição, por exemplo, a retenção do indivíduo por certo tempo. Tiago 4.11,12 diz: “Irmãos, não falem mal uns dos outros. Quem fala contra o seu irmão ou julga o seu irmão, fala contra a Lei e a julga. Quando você julga a Lei, não a está cumprindo, mas está se colocando como juiz. Há apenas um Legislador e Juiz, aquele que pode salvar e destruir. Mas quem é você para julgar o seu próximo? Pode-se perceber, por esse texto, que as coisas começam a ficar bem mais sérias, pois estão indo contra a Lei e até mesmo contra Deus, pois queremos nos passar por juiz em seu lugar (cf. Salmos 7.11, 75.7; Hebreus 12.23) ou no lugar de Jesus (cf. Atos 10.41). Já o conselho é algo necessário e que demonstra nosso real interesse por aquele a quem ajudamos. Mostra nossa sinceridade ao desejar que a pessoa mude de atitudes, ou seja, há um sentimento de amor que zela pelo crescimento o próximo. A Bíblia chama de isso de “suportar”, que nada mais é oferecer ajuda quando os outros precisarem (cf. Efésios 4.2; Colossenses 3.13).

O capítulo 14 de Romanos trata da diferença de entendimento entre os santos, o que Paulo chama de “fortes” e “fracos” na fé, ou seja, diferenças de pensamento que existiam na igreja e que estavam causando divisão. No versículo dez está assim escrito: “Tu, porém, por que julgas teu irmão? E tu, por que desprezas o teu? Pois todos compareceremos perante o tribunal de Deus“. Aqueles que são mais fortes devem suportar os mais fracos, ajudando nas dificuldades deles e não querendo agradar a si (Romanos 15.1). Mateus 7.1-5 e Lucas 6.37-42 tratam do assunto “julgamento” ao descreverem que, ao invés de apontar o “cisco” no olho do nosso irmão (ou seja, um pecado, um erro, um defeito), devemos tirar a “viga” que está nos nossos olhos. Isso se torna muito claro depois de termos visto o que seria o tal “julgamento” no parágrafo acima. Se acusamos alguém, primeiro que nos condenamos porque praticamos os mesmos atos, e segundo que estamos piores do que o irmão que acusamos, já que ele tem seus defeitos, mas não apontam para o próximo. Apenas para incluir outra passagem, a de Tiago 5.9: “Irmãos, não se queixem uns dos outros, para que não sejam julgados“.

O texto de Gálatas 6.1-5 é ainda mais claro quanto a nossa obrigação de apoio ao irmão que não está bem, além de resumir tudo o que tratamos até o momento: “Irmãos, se alguém for surpreendido em algum pecado, vocês, que são espirituais, deverão restaurá-lo com mansidão. Cuide-se, porém, cada um para que também não seja tentado. Levem os fardos pesados uns dos outros e, assim, cumpram a lei de Cristo. Se alguém se considera alguma coisa, não sendo nada, engana-se a si mesmo. Cada um examine os próprios atos, e então poderá orgulhar-se de si mesmo, sem se comparar com ninguém, pois cada um deverá levar a própria carga“. O primeiro versículo nos dá uma importante lição para quando vermos alguém com problemas: restauração com mansidão (humildade, brandura). Strong afirma que mansidão “é a atitude de mente e comportamento que, vindo da humildade, dispõe alguém para receber com gentileza e humildade qualquer coisa que venha a ele de outros ou de Deus“. O versículo três é um dos mais importantes. Se nos consideramos alguma coisa e nós não formos aquilo, estamos mentindo para nós mesmos, por isso esse grande alerta para o perigo de nos engarmos, que é pior do que ser enganado por terceiros.

Em João 8.1-11, temos um exemplo de como devemos agir com as pessoas quando o quesito é o possível julgamento: “Declarou Jesus: ‘Eu também não a condeno. Agora vá e abandone sua vida de pecados” (v. 11). Todos julgaram aquela mulher pela sua atitude, e queria apedrejá-la como punição. Jesus, ao contrário, não a condenou, e ainda tentou ajudá-la a mudar de vida. É exatamente essa a atitude que devemos ter: não condenar os demais pelas suas falhas ou defeitos, mas sim ajudá-las a superá-los.

Voltando para Romanos 12, Paulo nos ensina que atitudes devemos ter, principalmente os versículos 10 e 16: “Dediquem-se uns aos outros com amor fraternal. Prefiram dar honra aos outros mais do que a si próprios. Tenham uma mesma atitude uns para com os outros. Não sejam orgulhosos, mas estejam dispostos a associar-se a pessoas de posição inferior. Não sejam sábios aos seus próprios olhos“. Devemos amar e honrar aos demais, colocando-os acima de nós. Devemos nos relacionar e associar com pessoas de posição inferior, ou para com o que é “humilde“, segundo a versão de Almeida Revista e Atualizada, seja financeiramente, psicologicamente, espiritualmente, enfim, em qualquer sentido. E, uma vez mais, vemos que não devemos nos considerar sábios.

O objetivo da coluna desse mês é exortar (ou seja, “aconselhar“, se procurarmos o significado em português, ou, melhor ainda, “chamar para perto, encorajar, fortalecer“, se analisarmos a raiz da palavra grega usada para traduzi-la, parakaleo (παρακαλεω)) a todos nós para a prática de considerarmos os demais sempre superiores a nós mesmos. Devemos passar a olhar ao próximo sempre com bons olhos, enxergar cada um através de seus pontos positivos. Essa prática, descrita em Filipenses 2.1-11, é fantástica e nos deixa completamente constrangidos. Logo no primeiro versículo Paulo diz que as coisas que falará a seguir são praticamente o básico, já que “se por estarmos em Cristo temos alguma motivação, alguma exortação de amor, alguma comunhão no Espírito, alguma profunda afeição e compaixão“, devemos, então, ter “o mesmo modo de pensar, o mesmo amor, um só espírito e uma só atitude. Nada façam por ambição egoísta ou por vaidade, mas humildemente considerem os outros superiores a si mesmos. Cada um cuide, não somente dos seus interesses, mas também dos interesses dos outros“. Se parássemos aí já teríamos uma grande lição que deve ser praticada diariamente com todos. O texto não especifica quais, mas considerar os “outros” superiores a nós, ou seja, todos os demais. Mas o autor continua e diz:

Seja a atitude de vocês a mesma de Cristo Jesus, que, embora sendo Deus, não considerou que o ser igual a Deus era algo a que devia apegar-se; mas esvaziou-se a si mesmo, vindo a ser servo, tornando-se semelhante aos homens. E, sendo encontrado em forma humana, humilhou-se a si mesmo e foi obediente até a morte, e morte de cruz! Por isso Deus o exaltou à mais alta posição e lhe deu o nome que está acima de todo nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para a glória de Deus Pai“.

Uau! Se Jesus se esvaziou de si, tornou-se homem, com as mesmas dores, sentimentos e emoções, deixou seu trono de glória (Mateus 19.28, 25.31), se humilhou e obedeceu até morrer, quem somos nós pra fazermos menos do que isso?

A partir do momento em que os santos deixarem de lado seu orgulho, seu anseio por status, reconhecimento e poder, e desejar ardentemente que o amor cresça, que Jesus seja o único exaltado e elevado, a situação não apenas da Igreja de Cristo, mas também e toda a Terra, pode ser alterada. Se deixarmos de julgar os outros pelos seus defeitos, mas passarmos a olhar para a qualidade de cada um, tentando fazer uso de tais pontos positivos, e ajudando a pessoa a vencer seus defeitos, o Reino estará bem mais próximo. Deus tem esperado que filhos como Jesus se levantem, se separem do pensamento ensinado no mundo. Que tenham a mentalidade real de ministério, ou seja, serviço. Sirvamos, pois uns aos outros, da melhor maneira que conseguirmos, sem almejar recompensas, e executando tudo como se estivéssemos fazendo para nosso glorioso Deus, Aquele que brilha acima de todos!

Para temer mais:

  • Alguns podem questionar e usar o texto de 1ª Coríntios 2.15 como argumento para julgamentos. Assim está escrito: “Porém o homem espiritual julga todas as coisas, mas ele mesmo não é julgado por ninguém.” (Almeida Revista e Atualizada). A Nova Versão Internacional traduz da seguinte forma: “Mas quem é espiritual discerne todas as coisas, e ele mesmo por ninguém é discernido“. A palavra grega traduzida por “julgam” ou “discernem” é anakrinei (άυακρίυει), proveniente da raiz anakrino (άυακρίυω), e significa: “examinar ou julgar; investigar, verificar, analisar cuidadosamente, questionar; especificamente num sentido forense no qual um juiz conduz uma investigação“, segundo Strong. De acordo com Léxico Louw-Nida, “fazer um julgamento com base em informações cuidadosas e detalhadas, julgar cuidadosamente, avaliar com cuidado“. Ou seja, não se trata de uma atitude que espera punir o próximo, mas sim examinar tudo o que ocorre para tomar atitudes edificantes, e não que causam divisões ou que rebaixem os demais.

  • 1ª Pedro 5.5 diz: “Deus se opõe aos orgulhosos mas concede graça aos humildes”.

  • Em Gálatas 5, Paulo alerta para o abuso da liberdade recebida mediante o sacrifício vicário de Cristo, inclusive afirmando que não era mais necessária aos homens serem circuncidados. Algumas pessoas estavam contaminando outros, dizendo que deveriam ser circuncidados para serem justificados (v. 3, 4), mas em Jesus o que importava era a “fé que atua pelo amor“. Também estavam dando esse argumento como desculpa para deixar a carne sobressair ao Espírito (v.13b). Então, Paulo diz que fomos “chamados para a liberdade” (v. 13a), mas que não devemos abusar dessa liberdade e fazer o que é contra o Espírito, ou seja, o que procede da carne, desde atitudes até pensamentos, como o orgulho. Ao contrário, devemos “servir uns aos outros mediante o amor” (v. 13c). Então, fala que o amor a Lei foi resumida em um mandamento, como vimos no texto acima, o de amar ao próximo como a nós mesmos. Então, alerta para as desavenças: “Mas se vocês se mordem e se devoram uns aos outros, cuidado para não se destruírem mutuamente” (v. 15). No versículo seguinte, Paulo nos dá uma dica de como vivermos de forma santa, “Por isso digo: Vivam pelo Espírito, e de modo nenhum satisfarão os desejos da carne.

Por Emanuel Amaral Schimidt. Curitiba, 15 de Maio de 2008.

Conceito Bíblico de Ofertas (1ª Parte)

(Apostatamos! nº 03: 11, de abril de 2008. “Versão para impressão. Acesse a primeira parte desse artigo em: Apostatamos!)

And as we wind on down the road/ Our shadows taller than our souls/ There walks a lady we all know/ Who shines white light and wants to show/ How everything still turns to gold/ And if you listen very hard/ The tune will come to you at last/ When all are one and one is all, yeah/ To be a rock and not to roll/ And she’s buying a stairway to heaven…” – Led Zeppelin, Stairway To Heaven.

Tenho em minhas mãos uma lista com os vinte e cinco homens mais ricos do mundo, decidi procurá-la para averiguar um fato interessante. É que ouvi dizer que por mais que nossa coluna anterior tenha provado na Bíblia que é errado pedir dízimos em nome de Deus, pessoas tem sido “abençoadas financeiramente” por “devolver” os dez por cento que pertencem ao Senhor. Precisava saber se isso é verdade, e, caso fosse, pediria perdão por ter passado uma falsa informação a meus leitores, por isso procurei os bilionários do momento, que, é claro, devem ser todos dizimistas, já que estes são os mais abençoados por Deus por devolverem os dez por cento. Encontrei um católico, três judeus, vários agnósticos, hinduístas, muçulmanos e buditas. Nenhum evangélico! Nenhum “Dizimista Fiel”. Aposto que no carro deles não têm aqueles adesivos que a tesouraria das igrejas distribui sobre o dízimo. Se nosso Deus abençoa financeiramente os dizimistas, pelo menos uma dessas fortunas deveria pertencer a um deles, mas o que vemos nas vidas de Warren Buffett, Carlos Slim Helu, Bill Gates, Lakshmi Mittal e Mukesh Ambani, (os cinco mais ricos, com +/- U$ 268 bilhões ao todo), é o exemplo do que a dedicação ao trabalho, a competência na execução deste, e a vontade de lutar podem fazer a pessoas comuns. Eles não são “abençoados” por devolverem dez por cento, são ricos por trabalharem e administrarem bem o dinheiro que ganharam.

O argumento de que Deus faz com que dizimistas sejam mais abençoados que os outros homens é mais que uma mentira inventada por pastores inescrupulosos para ganhar dinheiro fácil, é um sinal dos tempos. Em Mateus 24.12, Jesus diz que “por se multiplicar a iniqüidade, o amor de quase todos se esfriará”, seguindo essa linha de raciocínio nosso Senhor aponta uma das conseqüências desse esfriamento: “Pois assim como nos dias anteriores ao dilúvio, comiam, bebiam, casavam e davam-se em casamento, até o dia em que Noé entrou na Arca, e não o perceberam, até que veio o dilúvio, e os levou a todos — assim será também a vinda do Filho do homem” (vs. 38,39). Nesse sentido, Jimmy Page foi um profeta dos tempos modernos. A eterna canção “Stairway To Heaven” ilustra memoravelmente o tema dessa coluna: “Ofertas”. Isso porque Deus deve estar cansado de ver pessoas tentando comprar “escadarias para o paraíso”. Nós, cristãos evangélicos, antes de sairmos por aí acendendo fogueiras para toda e qualquer obra de arte que não tenha um cantor histérico gritando “Aleluiiiiááá!” desafinado, deveríamos parar e atentar para o que os artistas dizem a respeito de nossa geração. Até o diabo deve impressionar-se com a freqüência com que costumamos encontrar coisas “satânicas”. Isso porque o cristianismo moderno criou uma dicotomia dualística no mundo que o cerca. O maniqueísmo nos levou a acreditar que o universo divide-se entre “Deus” e o “Diabo”, ambos lutando entre si pelo controle da frágil humanidade. Pelo pouco que conheço da Bíblia tenho aprendido que a única dicotomia que existe é entre o “certo” e o “errado”, a “luz/verdade” e as “trevas/mentira”. E assim por mais “satanista” que o Led Zeppelin possa ser, sua canção nos ensina uma verdade.

There’s a lady who’s sure all that glitters is gold (Há uma senhora que acredita que tudo o que brilha é ouro)/ And she’s buying a stairway to heaven (E ela está comprando uma escadaria para o paraíso)/ When she gets there she knows if the stores are all closed (Quando ela chega lá ela descobre que se as lojas estiverem todas fechadas)/ With a word she can get what she came for (Com apenas uma palavra ela consegue o que veio buscar)/ Oooh… And she’s buying a stairway to heaven (E ela está comprando uma escadaria para o paraíso).

Uma das descrições mais precisas que se poderia ter feito sobre o caráter dos ofertantes nas igrejas evangélicas em nossos tempos! Eles estão tentando comprar uma escadaria para um lugar onde “with a word he can get what he came for”. Como Jesus disse, nos últimos dias o amor se esfriará de muitos, e isso é especialmente real no que tange ao ofertar. A maioria das pessoas dá a Deus esperando receber dele algo em troca, numa relação comercial, um “escambo divino”, na prática, continuamos a pagar “indulgências”, não para o perdão dos pecados, mas pelo alcance das bênçãos celestiais. O fim disso é o que se descreve em Mateus 12.38, uma versão mais abrangente dessa parte do discurso foi contada por Lucas, no capítulo dezessete de seu Evangelho. O verso vinte e oito fala sobre “comprar e vender; plantar e construir”, e é assim que temos vivido, preocupados com nossos problemas pessoais, cuidando de nossos interesses. Quando a maioria das pessoas oferta não é para ajudar a obra do Senhor ou abençoar a vida de alguém, mas para ter como cobrar de Deus uma “ajudinha” nos momentos de dificuldade. Querem o “céu na terra”, mas não a parte em que reina a justiça divina, e sim aquela em que as ruas são de ouro. É repugnante a maneira como algumas pessoas pensam usar o Senhor para obter ganhos financeiros, “igrejas” inteiras destinadas a isso, uma geração que visa o lucro em detrimento a “perda”, gente que torna atual a introdução do livro de Isaías:

O boi reconhece o seu dono, o jumento conhece a manjedoura do seu proprietário, mas Israel nada sabe, o meu povo nada compreende. [...]. “Para que me oferecem tantos sacrifícios?”, pergunta o Senhor. “Para mim, chega de holocaustos de carneiros e da gordura de novilhos gordos. Não tenho nenhum prazer no sangue de novilhos, de cordeiros e de bodes! Quando vocês vêm à minha presença, quem lhes pediu que pusessem os pés em meus átrios? Parem de trazer ofertas inúteis! O incenso de vocês é repugnante para mim” – Isaías 1.3,11-13a, (NVI).

O tema “Ofertas”, como era previsível, foi particularmente difícil, e o trabalho de explicá-lo numa coluna é ingrato. Merece com certeza a abrangência de um artigo, mas não temos tempo para isso. Numa simples busca por essa palavra na minha “Bíblia On-Line” (comprem, um ótimo programa de computador), encontrei 503 versículos. Depurando a busca, para encontrar as palavras no texto original, que João Ferreira de Almeida achou por bem traduzir por “oferta”, vi que a situação só pioraria. Para encurtar a história, selecionei numa tabela as 19 palavras com mais ocorrências traduzidas por oferta. Basicamente elas abrangem toda a Bíblia e seu estudo oferecerá uma definição bastante completa do assunto desta coluna. O problema é que são 1480 ocorrências distribuídas em 1328 versículos, de Gênesis 4.3 à Apocalipse 11.10. Procurarei transcrever nesta coluna um modesto resumo dos estudos sobre o tema, apenas para alcançarmos uma “Definição Bíblica de Oferta. Os leitores que, como eu, gostam de saber detalhadamente sobre as coisas, podem recorrer à tabela que preparei, que esta anexada à “Versão Para Impressãodesta coluna, em PDF, e pesquisar todos os pormenores. O que realmente me surpreendeu nisso tudo foi o fato de que, no Antigo Testamento, “oferta” e “sacrifício” eram sinônimos, tanto que os três livros que mais concentram as ocorrências são Levítico (227), Números (173) e Êxodo (77), sobretudo nos capítulos que tratam das regras para sacrificar-se coisas a Deus.

Essa conotação já está presente na primeira palavra hebraica traduzida por “oferta”, minchah, que ocorre 211 vezes em toda a Bíblia Hebraica. Até Gênesis 43.26 denota “presentes” oferecidos a alguém, seu significado primário (mesmo no capítulo quatro, quando Caim e Abel oferecem “ofertas” [presentes] a Deus), mas à partir de Êxodo 29.41 passa a assumir seu significado ritual de “oferta de manjares”, como traduziu Almeida. A palavra mantém essa tradução e sentido até Josué 22.29 e daí em diante varia de significado. Analisando pormenorizadamente as ocorrências de minchah encontramos o sentido de algo oferecido para agradar alguém, aprofundando a compreensão do termo, temos a idéia de “doação”, quando deixamos de possuir algo que nos era precioso para alegrar aquele que será beneficiado com nosso presente. Foi isso que distinguiu a minchah oferecida por Caim da de Abel, pois não podemos dar aos outros algo que nos seja inútil ou fugaz. Se nos dispomos a “dar” devemos fazê-lo com nosso melhor, não por caridade ou mera “boa-vontade”, mas de todo o coração.

Sheh’-lem, com 236 ocorrências, chama atenção por sua derivação etimológica. A palavra vem de shalam, “estar em uma aliança de paz, estar em paz. Suas primeiras utilizações, em Gênesis, não falam de sacrifícios, algumas fazem parte de nomes, como Melquisedeque, por exemplo, e todas têm em comum alguma ligação com a idéia de paz. No desenvolvimento do texto do Pentateuco temos a idéia de sheh’-lem como uma oferta destinada a trazer a presença de Deus à terra, para “comungar” com os homens que lhe oferecem sacrifícios. Ela é uma das quatro ofertas instituídas pelo Senhor em Êxodo 20.24:

Façam-me um altar de terra e nele sacrifiquem-me os seus holocaustos e suas ofertas de comunhão [ofertas pacíficas, ARA, heb. shelamîms], as suas ovelhas e os seus bois. Onde quer que eu faça celebrar o meu nome, virei a vocês e os abençoarei.

Segundo Chouraqui, as “ofertas de comunhão” (NVI) ou “ofertas pacíficas” (ARA) são:

Sacrifícios em que uma parte da carne é queimada em homenagem a IHVH e o restante consumido pelos humanos que, simbolicamente, compartilham da refeição do seu Elohîms [Deus]. Fílon dirá que eles são “comensais do altar”. Geralmente traduz-se por: “sacrifícios pacíficos” ou “de comunhão”. A “paz” bíblica é saúde dos corpos, harmonia do mundo, comunhão das pessoas. Nomes (Êxodo), pg. 254.

Podemos sem dúvidas ligar isso a nossa “Ceia do Senhor(ver artigo disponível sobre o tema na página de estudos do blog), onde participamos da “mesa de Cristo”. Sheh’-lem, contudo, abre espaço para mais uma definição de “oferta”. O doar-se, como aprendido com minchah, permite aos nossos corações a aproximação com o divino, sheh’-lem concretiza essa aproximação, nos levando a um nível de relacionamento pessoal com Deus. Jesus foi oferecido pelo Senhor para que essa aproximação fosse viável. Aprendemos nos Evangelhos que para alcançar a graça dessa aproximação devemos conformar nossas vidas com o sacrifício de Cristo, ou seja, se Ele, o Filho de Deus, ofereceu-se como cordeiro para tirar os pecados do mundo, devemos nos oferecer também ao próximo e a Deus Pai, repartindo nosso “pão”, esse é o sentido da Ceia do Senhor. Contextualizando essa palavra na realidade do Novo Testamento, seria difícil admitir que exista algo que possamos dar para nos aproximar de Deus, a não ser que esse “algo” não seja estritamente material, a não ser que esse “algo” seja a vida que temos e da qual renunciamos no momento do batismo. A comunhão com Deus, nossa “oferta pacífica”, começa com a entrega de nossas vidas em Sacrifício (cf. Romanos 12).

Em Êxodo 25.2 temos a primeira ocorrência de ter-oo-maw, e uma importante lição no que tange a “dar” ao Senhor. Ele busca ofertas “voluntárias”. A “Tradução em Linguagem Moderna”, da Sociedade Bíblica de Portugal, transcreve assim a parte final do versículo: deverão contribuir para essa oferta todos os que quiserem dar alguma coisa de boa vontade. Acredito de todo o coração que Moisés não reuniu toda a congregação e passou a falar: “O Senhor levantou aqui cinco homens que darão ao Tabernáculo mil quilos de ouro!, e assim foi diminuindo o valor do leilão de bênçãos até chegar a anéis e correntes. É uma vergonha que nos cultos evangélicos de hoje gaste-se tanto tempo pedindo dinheiro, é blasfema a maneira como utilizam-se de ícones escriturísticos como subterfúgios para a gana inescrupulosa dos pregadores de prosperidade. Já vi darem miniaturas em papelão da “Arca da Aliança” para colocarem dinheiro dentro! Imaginem os leitores! Não posso conceber heresia pior do que utilizar-se da imagem da “Arca da Aliança” de nosso Deus, algo santíssimo, acessível, durante a época da Lei, somente ao Sumo Sacerdote, apenas uma vez ao ano, para que pessoas coloquem dinheiro lá dentro. Tragicamente isto é mais comum do que pensamos.

Em Números 18.24 a Bíblia nos diz que o “dízimo” era um tipo de “oferta” (tərûmāh). Isso abre nossa mente para entender a entrega do dízimo como um ato voluntário (nunca, jamais, em hipótese alguma obrigatório) e facilita em muito a vida de quem está tão acostumado em entregar seus dez por cento que nunca será capaz de assimilar outra maneira de ofertar a Deus. Meu pai sempre dizia que extremos eram perigosos, e que eu era dado a extremos, ele tem lá suas razões para dizer isso, mas até o extremista aqui é obrigado a abrir um precedente para pessoas que nunca aprenderam a adorar a Deus de outra forma que não aquela ensinada pelas igrejas evangélicas (sobretudo as protestantes). São pessoas que leêm suas bíblias de Almeida, quase sempre a Revista e Atualizada (uma contradição em termos se a chamarmos de “tradução” de tão contraditória e mal feita), e que seguem ao Senhor de todo o coração. Sabemos que nem sempre “de todo o coração” corresponde a “todo o cérebro ou entendimento” (os apaixonados que o digam), e assim segue boa parte da comunidade evangélica brasileira, amando verdadeiramente a Deus, mas longe do conhecimento que liberta (cf. Isaías 5.13; Oséias 4.6).

Ezequiel fala de ter-oo-maw como a área física que os hebreus deveriam reservar para o novo Templo, e Malaquias diz que podemos roubar a Deus nas “ofertas”. A explicação bíblica desse versículo é bastante acessível, e a idéia é mais ou menos essa: partindo do exemplo de Êxodo 25.2, foi Deus quem possibilitou que os israelitas levassem do Egito uma enorme quantia em ouro e outros bens, assim, quando o Senhor pedia que todos contribuíssem (voluntariamente, sublinhe-se), não fazia nada mais do que pedir de volta o que Ele já tinha dado. Acredito que tudo o que possuímos hoje é um dom de Deus, que nos deu forças para trabalhar, que fez com que o dinheiro ou os bens chegasse até cada um de nós, das mais diversas formas. Quando Ele nos pede para ofertar (relembrando, quando pede de volta o que Ele mesmo deu), e nos recusamos por egoísmo a doar de boa vontade os bens que recebemos, então estamos, ainda que subjetivamente, roubando a Deus.

Não podemos abrir mão da verdade bíblica de que nossas vidas pertencem ao Senhor, e que devemos honrá-lo com nossos bens. Mas também não podemos abrir mão do princípio bíblico irrevogável de que fomos “libertos” por Cristo, e chamados para a “liberdade” (Gálatas 5.13). Assim, se o Senhor nos pedir algum dinheiro, para Ele, para ajudar em Sua obra, e se esse pedido vier do coração de Deus aos nossos corações, devemos prontamente atender a voz de nosso Pai. Nunca fui contra isso. Vivo somente daquilo que o Senhor me dá faz algum tempo, e sei muito bem o valor de se receber uma oferta realmente movida pelo coração de Deus. Sou contra utilizarem a Bíblia como justificativa para estorquir pessoas, dizendo que elas estão roubando ao Senhor por não colocar parte de seus salários em envelopes e enriquecerem a conta bancária de homens de caráter duvidoso. Desde que realmente me converti nunca proferi uma só pregação pedindo ofertas, nunca pedirei nada de ninguém, e não acredito sinceramente que Deus mande quem quer que seja pedir dinheiro, não sem um propósito, e ainda assim (o texto de Êxodo é claro), o “dar” ou o “recusar-se a dar” é uma opção pessoal. Essa liberdade de ouvir ao Senhor é inalienável.

Sobre ish-shaw, devemos ouvir o professor John Walton:

O primeiro cordeiro sacrificado no ritual de consagração devia ser completamente consumido pelo fogo no altar. O animal era cortado em pedaços a fim de que coubesse no altar e suas vísceras lavadas, para que não fossem contaminadas por nenhum resquício de excremento. A carne era um bem precioso para um povo de pastores como os israelitas, mas o cordeiro e o novilho, ambos símbolos da fertilidade, deviam ser totalmente destruídos para que a oferta sacrificial a Deus fosse completa. Quando o sacrifício era feito em honra ao poder de Deus, nenhuma parte do animal podia ser poupada. Comentário Bíblico Atos: Antigo Testamento. Comentário em Êxodo 29.15-18, pg. 112.

O que é evidente no contexto das passagens ligadas a ish-shaw é a semelhança do sacrifício daqueles pobres animais com aquele a que Jesus se submeteu para nos libertar dos pecados, como disse João Batista, Jesus foi o “cordeiro de Deus” (João 1.29,36), e é sobre Ele que devemos depositar nossos pecados para obter redenção. Esse tipo de “oferta” foi completamente realizada por Cristo, no Calvário, através de sua suprema obediência. Espero sinceramente que ninguém ouse utilizar as 63 ocorrências de ish-shaw para pedir ofertas, anulando assim o sacrifício vicário de Cristo.

Recorreremos a Walton novamente a fim de explicar melhor ten-oo-saw:

oferta movida: Na terceira parte do ritual sacrificial, eram apresentadas perante o Senhor, como “oferta movida”, porções da cesta de pães e do cordeiro da oferta de ordenação. Provavelmente essa desajeitada pilha de ofertas sacrificiais era erguida, e não literalmente movida, visto que desse modo seria mais difícil desequilibrar-se e/ou derrubar os elementos sagrados. A melhor tradução para a terminologia usada no texto é “oferta elevada”; esse modo de lidar com as ofertas também aparece em relevos egípcios. O gesto de levantar fisicamente a oferta significa que todos os elementos sacrificiais derivam de Deus e pertencem a Ele. Nesse caso, os bolos e pães finos seriam levantados e depois queimados sobre o altar. A carne do cordeiro, porém, seria usada como alimento para um banquete da aliança do qual Arão e seus filhos tomariam parte, ao contrário do primeiro cordeiro que era totalmente queimado. Ibidem, comentário em Êxodo 29.22-25, pg. 112.

São 28 versículos, de Êxodo à 1º Samuel, com essa conotação de oferta. Abrindo um parêntese por aqui, gostaria de declarar minha surpresa por apenas dois tipos de ofertas de nossa lista (o leitor atento percebeu que pulamos uma das palavras, por assemelhar-se muito ao que já estudamos) não dizerem respeito a um sacrifício totalmente cumprido por Cristo. Mesmo quando as ofertas são materiais, quando Deus pede dinheiro ou bens, só o fez com o objetivo de construir um modo de apresentar-se e relacionar-se com Israel: o Tabernáculo de Moisés ou o Templo de Salomão. Fechando nosso parêntese e voltando a ten-oo-saw, realmente espero que se passe a usar os versículos em que consta essa palavra para pedir-se ofertas. Isso quer dizer que todos nós, os Sacerdotes (segundo Hebreus, todos os crentes em Cristo), comeremos churrasco!

Qorbān é provavelmente a única palavra hebraica que pode ser exclusivamente traduzida por “oferta”. Esse termo é encontrado em vários idiomas semíticos e deriva-se do verbo para “chegar, aproximar”, segundo Vine:

O termo qorbān pode ser traduzido por “aquilo que alguém leva (aproxima) a Deus ou ao altar”. Não causa surpresa que seja usado como termo geral para todos os sacrifícios, quer de animais ou de verduras. Já na primeira referência ao “sacrifício” em Levítico encontramos qorbān como “oferta” queimada — holocausto [...]. Verificamos em Números 7 o que talvez seja a maior concentração de exemplos do uso de qorbān. Nesse único capítulo, a palavra é usada umas 28 vezes e se refere a todos os tipos de ofertas de animais e manjares (cereais), mas com atenção especial aos vários utensílios de prata e ouro que eram oferecidos no santuário. Dicionário Vine, verbete OFERTA, pg. 202.

Com toda certeza isso clareia a transliteração grega dessa palavra, κορβαν, utilizada pelos autores dos Evangelhos (Mateus 27.6; Marcos 7.11). Recomendo sinceramente ao leitor um estudo mais abrangente do sistema levítico de ofertas, mesmo sabendo que esse tipo de sacerdócio foi substituído pelo de Cristo (como vimos no último Apostatamos!), é impossível entender a graça sem compreender a Lei. É por isso que parece tão fácil para Paulo falar sobre os dois temas, ele era mestre em ambos. Analisando o ritual propiciatório entregue por Deus a Moisés podemos experimentar com mais sabedoria e entendimento o sacrifício salvívico de Jesus.

Para o judeu a oferta era a maneira que a Lei prescrevia de aproximação do homem, efêmero pecador, com IHVH, o Deus-Eterno e Santíssimo. O pecado era o maior inimigo do homem, e precisava ser exterminado do meio do povo, para isso a Lei ordenava que o transgressor apresentasse asham e ashma, duas formas muito parecidas de oferta, que serviam para cobrir a falta diante de Deus. Singular na distribuição dessas palavras ao longo do texto bíblico é o fato de suas ocorrências não estarem concentradas absolutamente na Torá ou em Ezequiel. O significado etimológico de ambas tem a ver com “culpa”, ou seja, quando um filho de Israel pecava contra Deus, e a culpa de seu pecado vinha contra ele, geralmente causando algum tipo de conseqüência, ele devia levar um determinado tipo de oferta até o sacerdote e expiar essa culpa, livrando-se assim do pecado. Muito em breve disponibilizaremos na página de Estudos do Blog um artigo sobre “perdão”, que trata com certa riqueza de detalhes do fator “pecado”, por hora basta repetir as palavras do sábio apóstolo João sobre o tema:

Se afirmamos que não temos cometido pecado, fazemos de Deus um mentiroso, e a sua palavra não está em nós. Meus filhinhos, escrevo-lhes estas coisas para que vocês não pequem. Se, porém, alguém pecar, temos um intercessor junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo. Ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos pecados de todo o mundo. – 1ª João 1.10 — 2.2.

Estudamos dez das palavras bíblicas para “oferta”, fomos surpreendidos pelo fato de que a maioria delas era destinada a aproximação do homem com Deus, através da Lei, no Israel antigo. Quase não falamos de dinheiro, isso porque, caro leitor, meu Senhor é Todo-Poderoso, e não pode ser comprado, nem com dez nem com cem por cento do seu salário ou com o dinheiro de quem quer que seja. Não disse em momento algum que é anti-bíblico “ofertar” a Deus qualquer quantia em bens ou espécie, mas volto a afirmar que Deus não se vende.

Apostatamos sempre que tratamos o Senhor Jesus como uma prostituta, pretendendo comprá-lo com nossas ofertas! Sim, essa é a terrível verdade. Se procuramos, como Igreja, comprar as bênçãos de Deus com nosso dinheiro, estamos tratando como prostituição o sacrifício de Cristo. Não precisamos imitar o mundo e comprar “escadarias para o paraíso”, não devemos negociar com o Senhor, mas simplesmente obedecer fielmente suas ordens, como filhos agradecidos e servos fiéis.

Estudei com certa riqueza de detalhes todo o texto do Antigo Testamento sobre “ofertas”, e não encontrei nenhum versículo que dê base aos teólogos da “prosperidade” para afirmarem que Deus vai “devolver” o que eles derem em ofertas de uma forma “abundante”. Para quem ainda quer comprar nosso Senhor, recomendo a leitura de Deuteronômio, capítulo 28, o famoso texto que diz: o Senhor te porá por cabeça, e não por cauda; e só estarás em cima, e não debaixo, só que ninguém prega sobre a segunda parte do versículo:se obedeceres aos mandamentos do Senhor teu Deus, que hoje te ordeno, para os guardar e cumprir. Essa é a tônica do discurso de Moisés nesse capítulo, falando sobre as bênçãos decorrentes da obediência e dos pecados, conseqüentes da desobediência.

Amado leitor, perdoe-me novamente por não concluir o assunto. Lá se foram quase quatro mil palavras, e estamos apenas na metade. No próximo Apostatamos! vamos analisar o restante das palavras bíblicas para “Oferta” e a compreensão do termo através do Novo Testamento. Como conclusão de mais essa parte do estudo, rogo a cada um de vocês que não deixe de obedecer ao Senhor, seja para dar dinheiro em sua igreja ou a um irmão, ou até para ajudar uma velhinha a atravessar a rua. Cada ato de obediência a Deus torna nosso mundo melhor. Que o Espírito Santo nos ajude a obedecer em todos os momentos e alcançar uma vida de santidade, definitivamente afastados do pecado.

Durante os seus dias de vida na terra, Jesus ofereceu orações e súplicas, em alta voz e com lágrimas, àquele que o podia salvar da morte, sendo ouvido por causa da sua reverente submissão. — Hebreus 5.7.

Dado em Curitiba, em 11 de abril de 2008. Por Emerson Silva.

Fidelidade

Fidelidade

(Pastoral, nº 02 – 02 de Abril de 2008. Versão para Impressão)

“Nossas menores atitudes demonstram
nossos maiores interesses.”

A crise de valores que assola o mundo está se tornando tão profunda que pode chegar a um estado em que não haverá mais volta. A humanidade caminha para um futuro nefasto, uma sociedade perdida em si mesma, sem moral, sem credibilidade, totalmente sem rumo. Quando colocamos nossas cabeças nos travesseiros temos a única certeza de que, no dia seguinte, o mundo ficará um pouco pior. Por exemplo o Efeito Estufa. Por que está ocorrendo? Sim, são os gases que destroem a Camada de Ozônio e causam todo o ciclo de destruição. Mas qual a causa dos poluentes? A mesma de todos os problemas: ganância, orgulho, narcisismo… Hoje tudo gira em torno do ganhar, não importam as conseqüências. E o pior, nós, os cristãos evangélicos, somos os grandes responsáveis pelos problemas da sociedade!

Em Mateus 16.18, Jesus disse que “as portas do inferno não prevaleceriam contra a igreja“. Ainda bem que isso sempre será verdade! O problema é que a pseudo-igreja que vivemos está impregnada do inferno e de seus valores. Só isso já dá pra afirmar que muito do que vivemos é mentira. O que falar dos pastores ladrões e ainda por cima mentirosos? Ou dos políticos “crentes” que desviaram milhões no sangue-suga? E não pense que são apenas os “peixe-grandes” que fazem isso. O que dizer dos irmãos que recebem troco a mais do cobrador de ônibus e não devolvem? “Uau, que benção do Senhor, recebi troco a mais!”, já ouvi falarem! A única diferença entre os políticos e os “irmãozinhos” é a quantidade de zeros na quantia que furtou: dez centavos, dez reais ou dez milhões. O princípio que leva uma pessoa a cometer esse pecado são os mesmos citados no parágrafo acima, e a própria Bíblia afirma isso, como veremos em breve.

Como podemos apontar os erros do mundo se eles estão dentro de nós? Que autoridade tem um cego para guiar outro cego? Devemos voltar à Palavra que Deus deixou para nos guiar e aprender o que Jesus ensinou. Sabemos que o batismo é imprescindível para a salvação (cf. Marcos 16.16). Sabemos que quando submergimos na água estamos dizendo a todos, inclusive Deus, que escolhemos morrer para nós mesmos, nossos desejos, anseios, orgulho. Tomamos a cruz de Cristo e afirmamos que fazemos parte daquilo. Por que, então, construir coisas nessa terra, e ainda de forma ilegal?

No capítulo dezesseis do livro de Lucas, podemos ler a parábola do administrador astuto. Vamos chamá-lo de Gérson (sim, com segundas intenções – lembram da “Lei de Gérson”? Então…). Ao ver que seria demitido por seu senhor, Gérson pensou num jeito de garantir seu futuro. A solução foi muito inteligente e bem pensada, tanto que recebeu elogios do seu chefe. Logo depois, Jesus retoma a palavra e diz: “Os filhos deste mundo são mais astutos no trato entre si do que os filhos da luz. Por isso eu lhes digo: Usem a riqueza deste mundo ímpio para ganhar amigos, de forma que, quando ela acabar, estes os recebam nas moradas eternas” (v. 8). Ao ler uma primeira vez, parece que Jesus está dizendo para utilizarmos do mesmo artifício de Gérson, ou seja, sermos espertos quanto à forma de ganharmos dinheiro. Mas, se pararmos pra pensar um pouco, percebemos uma severa crítica: devemos fazer uso de todo o dinheiro que recebemos para ganhar amigos, ou seja, ajudar pessoas que estão ao nosso redor (daí o “trato entre si“, ou sermos “prudentes com essa geração“, como diz a Bíblia de Jerusalém), fato, este, ensinado por Cristo em Mateus 19.21, quando diz “vende tudo o que tem e dá aos pobres, [então] terás um tesouro no céu“. Mandou os discípulos fazerem o mesmo em Lucas 12.22-34.

Jesus está mostrando que o fruto do nosso trabalho não deve ser para nós mesmos construirmos pequeninos reinos nesta terra, mas sim que é mais valioso fazer amigos e juntar tesouros eternos, que não se corroem (cf. Mateus 6.20). Jesus continua a falar, e trás uma das maiores lições de todo o cristianismo, no versículo dez: “Quem é fiel nas coisas mínimas, é fiel também no muito, e quem é iníquo no mínimo, é iníquo também no muito” (Bíblia de Jerusalém). Uau, viram como a Bíblia fala que a diferença entre quem furta alguns centavos e alguns milhões é apenas o número de zeros? A mesma iniqüidade, o mesmo pecado, o mesmo erro. Essa palavra para iniqüidade, adikos, designa alguém que sabe o que é certo mas escolhe, deliberadamente, fazer as coisas erradas. Esse ensinamento é repetido nos evangelhos sinóticos por pelo menos mais quatro vezes: na parábola das dez minas (em Lucas 19.11.26); na parábola dos talentos (em Mateus 25.14-28); no pedido da mãe dos filhos de Zebedeu (em Mateus 20.20-28 ) e na discussão sobre “quem era o maior no Reino” (em Marcos 9.33-37). Em todas elas Jesus diz que quem quiser ter mais deve ser fiel no pouco que lhe foi confiado; quem quiser ser servido deve ser servo primeiramente.

Mas, apesar de falarmos de dinheiro, este não é o objetivo da coluna desse mês. O principal é sobre a “fidelidade no pouco”, fidelidade em relação a tudo que Deus confia em nossas mãos. As parábolas das minas e dos talentos dão um ótimo exemplo: aqueles que aceitaram o que receberam e multiplicaram foram elogiados e ganharam ainda mais, mas quem escondeu o que tinha, seja por medo, vergonha, timidez, etc, perdeu até o que tinha. Em Lucas 13.6-8, Jesus narra outra parábola, sobre uma figueira que não dava frutos. Ela deveria ser podada pois estava inutilizando um espaço que poderia ser de uma árvore que desse fruto. Os textos de Mateus 3.10; 7.19 e Lucas 3.9 acrescentam que, além de ser cortada, será lançada ao fogo. Dar frutos significa demonstrar mudanças, seja de caráter, de fé, de espiritualidade, etc. Se ficamos estagnados, parados, sem crescer e dar frutos, corremos o sério risco de servos podados e carbonizados.

Todos temos dons úteis para servir ao Corpo de Cristo (cf. Romanos 12.6), para edificação da igreja (cf. 1ª Coríntios 14.12). Temos visto pessoas muito capacitadas que receberam pequenas “fundas” do Senhor. Davi praticou com a sua por algum tempo antes de usá-la contra Golias. Não trocou aquilo que ele sabia usar nem pela gloriosa armadura do rei Saul. Há uma necessidade crescente de que cada um, a começar por mim, tenha plena identidade de quem é, de quais dons possui, qual o chamado, quais os propósitos em cada lugar que Deus levar, e comece a viver HOJE, aonde estamos, seja em nossa casa, como Davi, seja nas escolas, faculdades, trabalhos ou igrejas. É triste ver tantas profecias de pessoas chamadas por Deus para outros países, mas ficam esperando o dia da viagem chegar, sentados, e não entendem que até lá há todo um longo caminho a percorrer. Muito tem sido chamados, mas poucos tem sido escolhidos para cumprirem seus propósitos (cf. Mateus 22.14). Esse versículo foi dito num contexto totalmente escatológico, um convite feito pelo pai do noivo, mas “eles não deram atenção e saíram, um para o seu campo, outro pra os seus negócios“. Alguns até maltrataram os servos que tinham ido convidá-los! O rei não teve outra solução senão matá-los.

A pergunta que faço é: até quando? Até quando brincaremos de igreja? Até quando construiremos nossos pequenos feudos? Até quando vamos ver pessoas pensando que “servir” a Deus é cantar ou tocar numa banda “gospel”, ou que é estar no “altar” onde todos podem ver? Até quando veremos pessoas sendo infiéis quando se trata de limpar o chão da igreja? A Bíblia é clara: se alguém é infiel no pouco, imagine sobre o muito? O que podemos esperar de Deus? Jesus responde na continuação do ensinamento sobre o Gérson.

Assim, se vocês não forem dignos de confiança em lidar com as riquezas deste mundo ímpio, quem lhes confiará as verdadeiras riquezas? Se se vocês não forem dignos de confiança em relação ao que é dos outros, quem lhes dará o que é de vocês? Nenhum servo pode servir a dois senhores; pois odiará um e amará outro, ou se dedicará a um e desprezará outro. Vocês não podem servir a Deus e ao Dinheiro [Mamon]” Lucas 16.10-13, Nova Versão Internacional.

Como vimos, Jesus está ensinando sobre a sabedoria em lidar com o dinheiro, mas, além dessa abordagem, estamos trabalhando sobre aquilo que Deus nos concede espiritualmente. Não há muito o que acrescentar em relação às riquezas: se não cuidamos do que temos hoje como iremos cuidar daquilo que Deus quer nos dar? Como sabemos, uma árvore boa não pode dar frutos maus, assim como uma árvore má (do grego sapros (σαπρον), “apodrecido, podre; corrompido por alguém e não mais próprio para o uso; de qualidade pobre, ruim“) não pode dar frutos bons. (Mateus 7.17,18). Se estamos corrompidos, não podemos cuidar de tesouros que não se corrompem, não é mesmo?

Paulo, na segunda carta aos Coríntios, capítulo 4, fala sobre tesouros que Deus tem concedido, e que são armazenados em vasos de barro, com o intuito de “mostrar que este poder que a tudo excede provém de Deus” (v. 7), mas pra isso ele carregava no corpo o “morrer de Jesus” (v. 9). Se queremos ser dignos de que algo seja confiado em nossas mãos, no futuro, devemos cuidar daquilo que ele já nos deu. Devemos ser fiéis no pouco. Certa vez um profeta revelou alguns dons que cada pessoa tinha. Eu tinha dois, enquanto outros tinham muitos mais. Eu fiquei indignado com Deus, acreditam? Fiquei triste por ter apenas dois dons! Então, certa vez, quando estava orando, Deus me corrigiu, e disse que eu deveria praticar o que Ele tinha me dado, primeiro para que fossem multiplicados e dessem fruto, segundo pra que aquilo não se perdesse, não atrofiasse, e lembrou que os dons espirituais podem (e devem!) ser buscados (1ª Co 12.31). Nesse momento vi quanta mesquinheza eu tinha em meu coração, querendo ter mais dons não para agregar à Igreja e ajudá-la a ser edificada, mas sim para meu benefício próprio. Como eu estava errado! A partir de então comecei a praticar aqueles poucos dons, e têm sido úteis a cada dia, mas também continuo a busca por outros dons que creio serem necessários e que estejam em falta para o crescimento do corpo, ou até mesmo para completar aquilo que Deus já me deu. Por exemplo, um dom pastoral de aconselhamento mas com uma influência profética, que vá direto ao ponto da vida da pessoa (que as vezes ela tenta esconder) é muito mais efetivo do que horas ou até meses de conversas até a pessoa se abrir, por isso esse último dom iria completar o primeiro, otimizando os resultados.

Da mesma forma que não podemos servir a Deus e ao Dinheiro, não podemos buscar Seu Reino e buscar o nosso reino de glória. Não podemos andar na luz sem amar ao próximo (cf. 1ª João 2.9). Não iremos caminhar rumo ao alvo (cf. Filipenses 3.14) que o Senhor tem proposto se estamos caminhando em busca de nossos próprios alvos, de nossas metas de vidas. Enquanto não vivermos nos propósitos de Deus para nossa vidas, estaremos longe de alcançarmos o alvo, longe de ganharmos “o prêmio da soberana vocação“. A menor de nossas atitudes demonstra o maior dos nossos interesses.

Para finalizar sua ilustração de serviço, de dar importância para cada pequena coisa, Jesus concluiu: “Aquilo que tem muito valor entre os homens é detestável aos olhos de Deus” (v. 15). Mas, então quer dizer que os interesses materias que motivam a maioria dos evangélicos é detestável aos olhos de Deus? E um CD gravado também? E um livro escrito ou um post publicado num blog? Sim, se isso tem valor demasiado em seu coração, se aí está o seu tesouro, isso se torna detestável para Deus. Um dos temas mais importantes do trecho de Lucas 12.22-34 citado acima é o último versículo: “Pois onde estiver o seu tesouro, ali também estará o seu coração“. Se nosso coração estiver no lugar errado, com as intenções erradas, isto será abominável.

Para finalizar, leiamos o trecho de Mateus 24.45-51:

Quem é, pois, o servo fiel e sensato, a quem seu senhor encarrega dos de sua casa para lhes dar alimento no tempo devido? Feliz o servo que seu senhor encontrar fazendo assim quando voltar. Garanto-lhes que ele o encarregará de todos os seus bens. Mas suponham que esse servo seja mau e diga a si mesmo: ‘Meu senhor está demorando’, e então comece a bater em seus conservos e a comer e a beber com os beberrões. O senhor daquele servo virá num dia em que ele não o espera e numa hora que não sabe. Ele o punirá severamente e lhe dará lugar com os hipócritas, onde haverá choro e ranger de dentes.

Esse texto resume o que falamos até agora, da importância de obedecermos a Deus não importa se os homens verão ou não, se seremos recompensados ou não, apenas porque O amamos, porque queremos agradá-lo. Ai daquele que deixar de fazer aquilo que Deus mandou, ai daquele que deixar de exercer seus dons. Em João 14.15, Jesus diz que “se o amamos, guardaremos os seus mandamentos“. Os mandamentos mais importantes para Cristo eram: amar a Deus sobre todas as coisas e amar ao próximo como a nós mesmos (cf. Marcos 12.28-31). Em João 13.34 e 15.12 Jesus fala de um novo mandamento, o amor ao próximo. Em 1ª Coríntios 13 temos várias características do que não é amor, entre elas: invejoso (ou que não arde em ciúmes), vanglorioso (ou que não se ufana) e orgulhoso (ou que não se ensoberbece). Se amamos aos nossos irmãos, vamos buscar o interesse do Corpo. Se amamos a Deus, vamos ansiar pelo crescimento cada vez maior do Seu Reino. Se entendemos isso, não iremos buscar mais status, mas sim viveremos felizes com o que Deus tem dado. Se vestirmos a camisa, até um plástico de bala no chão será nossa responsabilidade. E o que falar da vida de cada santo que se reúne conosco? Será bem mais relevante.

Portanto, não sejamos mais gananciosos, buscando nossos próprios interesses. Sejamos, portanto, fiéis no pouco, e esperar que no muito Ele nos colocará, nem que seja na Eternidade. E que a pergunta “Até quando?” possa ser o quanto antes respondida.

Para temer mais:

  • Sobre sermos prudentes (ou astutos), vale a pena ler, além das passagens que estão no texto: Mateus 7.24-29, sobre o homem prudente que edificou sobre a rocha; Mateus 10.16, quando Jesus envia seus servos e os ordena serem astutos como a serpente; Mateus 25.1-13, sobre as conseqüências boas de sermos prudentes e ruins de sermos néscios (ímpios).

  • Sobre sermos bons administradores: Lucas 12.42; 1ª Coríntios 4.1-2; Tito 1.7 (traduzido como “despenseiro” em algumas traduções); 1ª Pedro 4.10.

Por Emanuel Amaral Schimidt. Curitiba, 02 de Abril de 2008.

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